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A pior eleição do mundo: no Peru, a escolha entre horrível e horroroso

O sindicalista de extrema-esquerda Pedro Castillo é o mais cotado a ganhar eleição presidencial, mas Keiko Fujimori também é de fazer chorar

Por Vilma Gryzinski 10 Maio 2021, 08h16

O partido do candidato Pedro Castillo não esconde o jogo. Diz o primeiro capítulo de seu programa de governo:

“Peru Livre é uma organização de esquerda socialista que reafirma sua corrente ideológica, política e programática. Para ser de esquerda, é necessário abraçar a teoria marxista e, à sua luz, interpretar todos os fenômenos que ocorrem na sociedade mundial, continental e nacional”.

Tem mais, tem muito mais. Tanto que Castillo, professor primário que tem como logotipo um lápis gigante, achou melhor moderar o discurso e o programa partidário, que propõem fazer de imediato tudo o que Hugo Chávez levou dez anos para implantar, com os conhecidos e catastróficos resultados.

Numa espécie de Carta aos Peruanos divulgada no fim de semana, ele garantiu que a convocação de uma Assembleia Constituinte, como consta do programa, “será dentro do marco jurídico vigente” e se comprometeu a respeitar os tratados internacionais e os direitos das minorias.

Quem quiser acreditar, acredite. A moderação na reta final para a eleição do dia 6 de junho soa notavelmente parecida com os históricos compromissos dos bolcheviques – e o termo não é usado em vão.

“O candidato Castillo foi muito mais transparente e honesto do que, na sua época, foram Castro em Cuba ou Chávez na Venezuela”, disse um conhecido ex-ministro, Luís Gonzales Posada, antecipando a “destruição total” do país.

“Vão condenar à absoluta pobreza, à miséria, o povo peruano, esse povo que hoje o apoia com sua votação e pode consagrá-lo presidente”.

Entre as manifestações de honestidade constam a dissolução do Congresso e a convocação da Assembleia Constituinte – que ele agora promete ser dentro das regras do jogo -, a possível dissolução do Supremo Tribunal, a expropriação de empresas e, obviamente, a intervenção na imprensa e na televisão.

“Os meios de comunicação são poderosos instrumentos de domínio, de hegemonia cultural, assim a direita tem a capacidade de fazer os pobres acreditarem que o que a beneficia também beneficia a eles”, diz o programa assinado por Vladimir Cerrón, neurologista formado em Cuba, ex-governador afastado por abuso de poder, que é o mentor de Castillo.

Ambos dedicam especial atenção aos programas da “televisão lixo”, como os reality shows. Big Brother, nunca mais, na visão deles. A prometida lei da mídia vai ensinar os meios de comunicação a “não confundir liberdade de imprensa com impunidade – todo mundo sabe exatamente o que isso significa.

A nacionalização das empresas privadas tem na mira, especialmente “os setores de mineração, gás, petróleo, hidroenergéticos, comunicações, entre outros”.

Nada surpreendentemente, a cada ponto que Castillo sobe, mais tremem mercados de commodities vitais como o cobre, do qual o Peru é o segundo maior produtor mundial. E a cada ponto que desce, os mercados se animam.

Aí está o outro grande problema: a alternativa ao professor primário que quer instaurar o modelo marxista e a “economia popular de mercado” para ontem, é Keiko Fujimori.

O sobrenome já diz praticamente tudo; populismo autoritário de direita que seu pai, Alberto Fujimori, levou a níveis quase indescritíveis de abusos, pelos quais cumpre pena de prisão até hoje, aos 82 anos.

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Se muitos brasileiros se desesperam diante da possibilidade de não ter a quem escolher na eleição presidencial do ano que vem, o Peru pelo menos serve de consolo.

É possível falar em voto útil, ou no mal menor, diante das opções colocadas aos peruanos?

Mario Vargas Llosa, um antifujimorista histórico, tendo chegado a se candidatar a presidente em 1990, num rompante quixotesco, contra o próprio Alberto Fujimori – foi massacrado, obviamente -, fez a sua escolha.

“Os peruanos deveriam votar em Keiko Fujimori porque ela representa o mal menor e, se estiver no poder, existem mais probabilidades de salvar nossa democracia”.

“Um governo de Castillo seria uma catástrofe”, escreveu o Nobel de Literatura, lembrando que o modelo de Socialismo do século XXI proposto abertamente pelo Peru Livre “obrigou cinco milhões de venezuelanos  a emigrar aos países vizinhos para não morrer de fome”.

“Querer acabar com a mineração, que é a riqueza dos Andes peruanos, é uma temeridade sem precedentes, filha da pura ignorância, que sufocaria uma das fontes básicas do desenvolvimento nacional”, disse Vargas Llosa.

É preciso coragem moral, ou até imprudência, para tapar o nariz e apoiar Keiko Fujimori como mal menor. Existe aí o raciocínio implícito de que governos autoritários de direita têm mais probabilidade de acabar do que os de esquerda. 

O próprio fim patético de Alberto Fujimori, que renunciou por fax no Japão, onde estava de visita, quando seu governo derreteu e os partidos políticos se reorganizam para convocar o Congresso dissolvido na época do autogolpe, é uma das provas da tese.

A Venezuela, obviamente, é a outra.

Um lembrete para recordar que, num país como o Peru, onde tantas vezes parece imperar o surrealismo mágico na política, o aparentemente impossível acontece: Fujimori tinha boas relações com Hugo Chávez e sua eminência parda, Vladimiro Montesinos, fugiu para a Venezuela quando a casa caiu (depois, acabou extraditado).

A exaustão com os políticos tradicionais – quatro presidentes varridos do mapa pela conexão Odebrecht – é um dos motivos para a ascensão de Pedro Castillo, fora a óbvia simpatia despertada entre as camadas mais pobres por um professor de escola rural que faz campanha a cavalo e usa chapelão de camponês.

O ambiente pré-eleitoral está cada vez mais incandescente. O empresário Rafael López Arriaga, que foi candidato a presidente e agora apoia Keiko, fez um comício inflamado no qual bradou “morte ao comunismo, morte a Cerrón e a Castillo” – uma patacoada que pode funcionar contra sua candidata.

Deu a chance a Castillo, que já prometeu fixar um prazo de 72 horas para os “estrangeiros exploradores” saírem do Peru, de parecer equilibrado. “Cruzar a linha onde um político pede a morte de outro político por pensar diferente nos leva a recordar momentos terríveis de nossa história”, tuitou.

Para não perder a onda da “moderação”, Keiko disse que apoia o Juramento pela Democracia, um documento proposto por entidades civis  que pede o respeito pelo equilíbrio entre os poderes e o compromisso de manter os principais órgãos do Judiciário e o Banco Central.

Pesquisas mais recentes davam 41% dos votos a Castillo e 36% a Keiko Fujimori. Pobre Peru.

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