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O paciente infantil: por que o pronto-socorro não pode ser a primeira opção quando o problema não é grave

Em 28 de fevereiro de 2014, o então presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo postou no site da sociedade um artigo sobre o atendimento emergencial nos prontos-socorros e as consultas de rotina no consultório dos pediatras. Esta era a sua opinião: “No Brasil, o pronto-socorro, idealizado para casos de urgência e emergência, se […]

Por Mauro Fisberg - Atualizado em 8 fev 2017, 14h18 - Publicado em 27 out 2016, 12h00

Em 28 de fevereiro de 2014, o então presidente da Sociedade de Pediatria de São Paulo postou no site da sociedade um artigo sobre o atendimento emergencial nos prontos-socorros e as consultas de rotina no consultório dos pediatras. Esta era a sua opinião: “No Brasil, o pronto-socorro, idealizado para casos de urgência e emergência, se tornou a primeira opção dos pais quando o assunto é a saúde de seus filhos, mesmo que para problemas corriqueiros.”.

Mais de dois anos passados, pouca coisa mudou no panorama da saúde das crianças e na atitude dos pais e serviços assistenciais. Os prontos-socorros e unidades de atendimento de urgência estão com suas salas de espera lotadas de crianças, fato que se agrava a cada mudança de temperatura nas cidades, nos períodos de fim de tarde, no início e fim da semana. Filas cuja espera chega a mais de duas horas e angustiam os pais das crianças e dos profissionais da saúde.

O inadequado sistema de saúde, que remunera mal as consultas de rotina feitas através de convênios, a pouca orientação dada por alguns profissionais em puericultura, os longos períodos para marcar uma consulta e a necessidade de uma resposta imediata a uma queixa de uma criança, fazem com que os pais busquem ajuda emergencial. Muitas vezes, uma febre baixa de algumas horas, um resfriado, manchas na pele, choro e às vezes até mesmo a busca por um atestado, que poderiam ser analisados por um pediatra que conhece adequadamente a criança, são motivos para uma corrida a urgência medica. Na emergência, a maioria das clínicas adota um sistema de sinalização de maior ou menor gravidade para o atendimento após uma triagem rápida. E a consulta, depois de muita espera, em alguns casos, direciona-se somente para o motivo imediato que levou a criança ao pronto-socorro.

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Deixa-se de avaliar o crescimento, o desenvolvimento, as condições de vida de crianças e adolescentes, o esquema de vacina, a escola e o ambiente. Inúmeras oportunidades perdidas. Deixa-se de orientar a amamentação, a alimentação, o cuidado com a prevenção. Muitas vezes o sistema de emergência não permite tempo para uma conversa adequada, impede que o profissional conheça a criança, sua família e seu ambiente. Não há tempo para fazer gráficos de crescimento e um aumento discreto do peso ou uma diminuição da velocidade do ganho de estatura não são percebidos.
O tempo na cidade grande é um poderoso inimigo das consultas repetidas. As dificuldades para marcar uma consulta de rotina acabam fazendo com que o pronto-socorro seja a porta de entrada e de saída de todas as queixas.

Precisamos ter uma forma de orientar aos pais para a necessidade da consulta de rotina e lembrar que o pediatra é um clínico geral que conhece quase sempre a família do paciente. Ele pode orientar quando o problema é grave o suficiente para se buscar ajuda rápida ou quando a queixa pode esperar, sempre sob o olhar atento dos pais ou cuidadores. A modernidade pode ser um aliado dos pais, com o uso de sistemas de comunicação, de um telefonema a um chamado por skype ou WhatsApp. O atendimento a distância não permite um diagnóstico, não substitui uma consulta, mas pode ajudar na orientação de cuidados a uma criança já conhecida pelo pediatra. Uma palavra de amizade, de aconselhamento, de orientação, podem fazer a diferença e determinar maior tranquilidade para os pais.

Mas precisamos também ter um sistema de saúde que seja mais ágil, que responda à angústia de uma situação que para o profissional talvez não seja tão premente, mas que, para os pais, é gigantesca. De qualquer forma, a situação, tal como está, não é adequada, seja para a solução dos problemas imediatos ou para um correto posicionamento educacional para os pais. Converse com o seu pediatra e discuta com ele qual o melhor encaminhamento para cada situação de urgência. A consulta de rotina é essencial para o processo de acompanhamento da vida de crianças e adolescentes. E a urgência será realmente uma urgência…

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