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José Vicente Professor, advogado e militante do movimento negro, ele é o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, instituição pioneira de ensino no Brasil que ajudou a fundar em 2004.

Carrefour, nem erro feio, nem erro bonito

O caminho para progredir no combate ao racismo somente será efetivo e assertivo se pavimentado sem erros

Por José Vicente 14 jan 2021, 19h54

O assassinato do cliente negro João Alberto de Freitas, por seguranças e funcionários do supermercado Carrefour, na cidade de Porto Alegre, foi a mais grave, brutal e impactante ocorrência de violência racial ostensiva da história empresarial do nosso país. Tão grave, a ponto de ser reconhecida de forma incontestável e repudiado de forma irrefutável pelo próprio presidente mundial da empresa, que o classificou, em nota oficial, como um ato de racismo intolerável e violento.

As imagens das cenas dantescas das agressões até o sufocamento por asfixia – nos moldes de George Floyd – no interior do estabelecimento, correram o mundo e recebeu repudio planetário, além de boicotes comercial, invasões, vandalização e mesmo incêndio de lojas em várias partes do país. Os valores das ações caíram bruscamente, grandes fornecedores se levantaram contra a organização, o Congresso criou uma comissão especial para acompanhar as investigações.

Acusada juntamente com a empresa terceirizada de segurança pelas responsabilidades cíveis, administrativas e criminais, além da prisão e denúncia criminal de quatro funcionários, os pedidos de indenizações judicializados já beiram a conta de 300 milhões de reais, com pedido oficial e a hipótese objetiva de cassação do seu alvará de funcionamento.

Por todos esses motivos e tendo em conta os antecedentes e condução inadequada em casos envolvendo o tratamento a clientes negros, e outros relacionados, os órgãos públicos, a opinião pública, o ambiente e órgãos econômicos e empresariais e a sociedade civil, tem reservado um olhar crítico e de severidade sobre as ações e atitudes do Carrefour.

Da mesma forma, tem acompanhado atentamente as conduções e desenrolar dessa tenebrosa situação policial, jurídica e, principalmente, de forma atenta e mobilizada, o grau da solidez, correção, efetividade e transparência dos compromissos elencados, assumidos e compromissados publicamente com toda a sociedade brasileira.

Por conta da grandiosidade da sua violência e da plasticidade avassaladora da sua irracionalidade, esse episódio abalou de forma intensa e profunda o mundo dos sentidos e, imediatamente, impingiu um espírito de julgamento de culpa e punição antecipada e imperdoável. Por isso, nesse processo em início de decantação, será pelos sinais em construção captados pelos sentidos que a sociedade e órgãos aderentes irão avaliar novamente julgar e aprovar ou não ou não a intensidade, a lisura e a veracidade da nova conduta, nova atitude e novo compromisso ético contratado.

Assim, soa incompreensível, incoerente e contraditória que os observadores, monitores, os auditores escolhidos para averiguar e zelar de forma isenta pela correção e integridade dessas ações e medidas, além de não reservarem o distanciamento exigível, recebam benefícios de qualquer natureza. Celso Athayde, Presidente da Cufa – Central única das Favelas e membro do Comitê de Negros Auditores do Programa de Combate ao Racismo Estrutural do Carrefour, foi franco e profundamente honesto quando assumiu publicamente que errou feio e cometera um erro gravíssimo ao aceitar o Carrefour como patrocinador master de um evento de premiação promovido pela sua organização, no último dia 11. Tinha toda a razão, e não estava sozinho nesta avaliação: a maioria dos premiados se recusou receber a premiação.

Assim, além de injustificável e incompreensível, nos convida para uma importante reflexão sobre a responsabilidade que pesa nos ombros que qualquer pessoa que se disponha e colaborar num acontecimento dessa envergadura e da necessidade de definição de parâmetros e procedimentos que, além de garantir o resultado profícuo do trabalho, garanta também a proteção da sua liberdade e autonomia.

O certo é que o caminho por onde o Carrefour, a sociedade e os negros escolherem trilhar para progredir no combate ao racismo e na transformação civilizatória que entregue um ambiente corporativo onde raça e cor de pele não distinga nem signifique a morte dos cidadãos somente será efetivo e assertivo se pavimentado sem erros. Com compromisso, responsabilidade, integridade e correção. Nem erro feio nem erro bonito pode frustrar, inverter ou avançar os sinais.

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