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‘No Man’s Land’: série faz um mergulho ousado na Guerra da Síria

Drama disponível no canal Starzplay acompanha o batalhão de mulheres curdas que enfrenta o Estado Islâmico

Por Isabela Boscov Atualizado em 26 nov 2020, 20h16 - Publicado em 27 nov 2020, 06h00

No cipoal às vezes indevassável das correlações políticas no Oriente Médio, um ramo brotado na década passada teve papel crucial em deter o avanço do Isis, ou Estado Islâmico, no território sírio: as YPG, ou “Unidades de Proteção do Povo”, braço armado do Partido da União Democrática Curda. Principais aliadas das forças americanas na Guerra da Síria, as YPG (que desde então foram abandonadas à própria sorte) arrancaram aos ultrafundamentalistas do Isis boa parte do terreno que eles controlavam no país, incluindo seu quartel-general, a cidade de Raqqa. Para tanto, tiveram a ajuda indispensável das YPJ, suas milícias femininas, odiadas em dobro pelo Isis, já que, nessa visão fanática, morrer pelas mãos de uma mulher fecha ao jihadista as portas do paraíso.

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No auge da guerra, as YPJ ganharam a atenção ocidental pelo seu destemor e por esse elemento tido como exótico, mas que derivava de uma necessidade muito palpável: perseguidas como etnia, e prestes ainda a cair sob a insana lei religiosa do Isis, as mulheres curdas viram por bem pegar em armas. São elas o foco principal de No Man’s Land (França/­Israel/Bélgica, 2020), cujo primeiro episódio acaba de estrear no Starz­play. Ou deveriam ser. Ao contrário de produções mais contundentes, como a sueca Califado, a série fica indecisa entre o autêntico e o familiar e adentra as YPJ por meio do protagonista de praxe — um homem europeu.

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Antoine (Félix Moati), um jovem engenheiro parisiense, sente o chão fugir de seus pés ao assistir a um noticiário sobre as milícias curdas na Síria: ele poderia jurar que a figura lá ao fundo é sua irmã, a arqueóloga Anna (Mélanie Thierry), dada como morta alguns anos antes em um atentado a bomba no Egito. Os pais e a namorada de Antoine acham que ele está descompensando; o corpo de Anna foi identificado pelo DNA e pela arcada dentária, e não há a menor chance de que ela ainda esteja viva. A culpa pelos acontecimentos que levaram Anna a romper com a família e ir para o Cairo, porém, pesa sobre Antoine — que, em um repente, manda-se para a Turquia, e de lá para a Síria, seguindo as pistas da mulher que acredita ser sua irmã.

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Capturado por uma YPJ sob suspeita de ser apoiador do Isis, Antoine aos poucos vence a desconfiança das milicianas. Mais: como os outros europeus e americanos que lutam como voluntários junto delas, vai se enamorando de sua causa (e também de uma guerrilheira, Sarya, interpretada pela ótima Souheila Yacoub). Como o próprio espectador, porém, ele nem sempre sabe qual fio puxar nessa meada complexa, na qual se emaranham ainda um agente que pode ou não ser da Inteligência britânica (James Purefoy) e um trio de rapazes ingleses, dois deles de origem muçulmana, que aderiram fanaticamente ao Isis.

No panorama geral, No Man’s Land (ou “terra de ninguém”, como se designa a zona entre duas trincheiras inimigas) quer, e muitas vezes consegue, argumentar sobre a diferença nem sempre clara entre ter uma causa a defender e ser uma pessoa vulnerável ao recrutamento. Mas é pena que se preocupe muito mais com Antoine e Anna que com os outros personagens, e que use as YPJ como não muito mais que moldura para o drama deles. Esquecidas pelos ciclos do noticiário, elas são relembradas aqui — mas como coadjuvantes de um thriller, e não protagonistas de uma guerra.

Publicado em VEJA de 2 de dezembro de 2020, edição nº 2715

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