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“Mindhunter”: David Fincher vai mexer (mesmo) com a sua cabeça

Nova série do diretor para a Netflix volta aos anos 70 para entender os serial killers

Por Isabela Boscov - Atualizado em 16 out 2017, 15h40 - Publicado em 13 out 2017, 16h05

Holden Ford (Jonathan Gross), 29 anos e agente do FBI especializado em negociação de reféns, vai atender o caso de um sujeito que pirou e está há horas mantendo várias pessoas sob a mira de uma .12 cano serrado. A única exigência dele: quer falar com a mulher. Holden não quer que ele fale com a mulher; quer acalmá-lo. Faz os policiais armados se afastarem, dispensa o megafone (barulho demais), diz que quer ajudar, aproxima-se. A coisa termina de modo horripilante. Holden embatuca: a mulher do sujeito – nunca violento, sempre pacífico – diz que havia algum tempo ele vinha dizendo que tinha se tornado invisível. Não metaforicamente; ele realmente acreditava não existir mais aos olhos dos outros. Está-se em 1977, e há cerca de uma década um tipo de crime muito diferente começou a se manifestar com frequência crescente nos Estados Unidos: o crime sem motivação compreensível. As polícias e o FBI estão equipados para lidar com gente que mata porque quer dinheiro, porque o casamento terminou, porque perdeu o emprego. Mas para lidar com o Zodíaco, o assassino que aterrorizou a região da Baía de São Francisco em 1969? Ou com Charles Manson, cujos seguidores retalharam várias pessoas – inclusive a atriz Sharon Tate, a mulher grávida de Roman Polanski – no mesmo ano, em Los Angeles? Ou com o atirador descontrolado da Universidade do Texas, em 1966? Ou com David Berkowitz, que transformou o verão nova-iorquino de 1976 num terror? Para esses, não há cartilha.

Mindhunter
Netflix/Divulgação

Não há sequer nome: Holden Ford arrisca chamá-los de sequence killers, ou “assassinos em sequência”. A expressão serial killers estava ainda longe de ser cunhada. Por causa de seu interesse em criar uma maneira de entender esse tipo de criminoso, Holden é posto de escanteio: o FBI, ainda engessado nos métodos de quarenta anos antes, não quer nem sequer reconhecer que esse é um tipo à parte de criminoso. Mas como identificar e capturar um criminoso se não se sabe por que ele está matando – e, portanto, quem ele é? Destacado para acompanhar Bill Tench (Holt McCallany), um veterano da divisão de Ciências do Comportamento, em palestras pelo país,  Holden aproveita a chance: numa passagem pela Califórnia, vai (sem autorização) à prisão de Vacaville – adoro esses nomes de cidades americanas – entrevistar Edmund Kemper, ou “Ed Gigante” (mais de 2 metros e 140 quilos), que primeiro fez coisas indizíveis com uma série de universitárias – após tê-las matado –, e depois assassinou os avós e a mãe e fez coisas ainda mais inimagináveis com ela (não estou usando “inimaginável” de maneira genérica: eu jamais seria capaz de imaginar algo assim. Felizmente). E Holden volta, e volta, e volta de novo a Vacaville: está fascinado. E acha que, se os agentes do FBI aprenderem a entrar na loucura de maneira controlada, seguindo parâmetros, podem talvez transformar esse conhecimento em táticas de identificação ou mesmo prevenção.

Mindhunter
Netflix/Divulgação

Mindhunter, a nova série criada por Joe Penhall (o roteirista de A Estrada) e produzida por David Fincher para a Netflix, que estreia hoje na íntegra – 10 episódios –, reproduz esse efeito também para o espectador: nos dois episódios que me liberaram antecipadamente, eu primeiro me fascinei por Holden (Jonathan Gross, de – quem diria – Glee, está excelente) e pelo seu interesse (a cena em que ele conhece a namorada  num bar e a ganha é das paqueras mais instigantes que já vi). E, em seguida, me fascinei junto com Holden pelo amigável, inteligente, falante e bem-humorado buraco negro que é Ed Kemper – um desempenho magnífico de Cameron Britton, um ator que, pelo talento e pelo tamanho, incompreensivelmente era quase desconhecido até aqui. Sei que vão haver outros serial killers na agenda de Holden, porque é disso que a série trata: de como alguns agentes do FBI (dos quais Holden e Bill são versões fictícias) brigaram para desenvolver uma ciência do perfil psicológico de criminosos cujas motivações são lógicas no contexto deles próprios, mas inalcançáveis para quem não partilha das suas psicopatias.

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David Fincher dirige os dois primeiros episódios e também os dois últimos; os intermediários, que ainda não pude ver, ficaram em parte a cargo de Asif Kapadia, o muito dinâmico e competente diretor dos documentários sobre Ayrton Senna e sobre Amy Winehouse. Kapadia é uma escolha interessante da parte de Fincher, porque esses seus trabalhos mais conhecidos são precisamente uma espécie de autópsia: como a relação de duas pessoas com sua vocação determinou a forma como elas viveram e também a forma como morreram. “Vocação” é uma palavra central em Mindhunter. É como Ed Kemper descreve os assassinatos que cometeu (“minha obra”, diz ele, usando o termo no mesmo sentido que ele tem na arte). E é o motor que move Holden e Bill: uma habilidade para a qual eles nasceram e que os consome. Na carreira de Fincher, esse é um tema central, e cada vez mais preponderante: o do trabalho como uma expressão pessoal e como uma manifestação concreta das relações de poder – vide Zodíaco, A Rede Social, House of Cards e, por que não, também Millennium e Garota Exemplar, se considerarmos “trabalho”, “tarefa” e “vocação” no sentido amplo.

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David Fincher é um monstro. O que ele já esqueceu sobre dirigir é mais do que a maioria dos cineastas vai conseguir aprender ao longo de toda a vida. Mas Fincher é também um modelo de autodisciplina: se no começo da carreira, em Seven ou Clube da Luta, ele gostava de mostrar tudo de que é capaz, desde Zodíaco, lançado dez anos atrás, ele vem praticando uma restrição monástica – não chamar a atenção para a própria (e imensa) habilidade, e sim colocá-la inteira a serviço da narrativa. É demais? Parece exibicionismo? Fez só porque sabe fazer, ou porque é bonito? Jogue fora. Se não acrescenta informação, não aprofunda a atmosfera e não conduz ao ponto em que se quer chegar, não serve para nada.

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Meticuloso ao ponto da obsessão, Fincher tem uma razão narrativa para cada enquadramento e cada movimento de câmera. E, nos dois primeiros episódios de Mindhunter, ele mostra o porquê de fazer assim. No cinema, os personagens viraram subalternos da ação. Na televisão – e especialmente nesse território entre a TV e o cinema que a Netflix, a HBO, a AMC etc. representam –, com os arcos dramáticos de 10, 12 ou 13 episódios, o desenvolvimento dos personagens recupera a primazia. Mesmo no cinema Fincher tem feito isso, mas aqui ele pode se espalhar, e transformar em ação – tensa, envolvente, sustentada – uma cena de dois sujeitos sentados a uma mesa, conversando, pelo tempo que for necessário. Sempre usando da sua paleta de não-cores (beges, cinzas, azuis e amarelos aguados e impessoais), da luz econômica, dos grafismos ousados e dos cenários construídos sem adorno, só para indicar que tipo de pessoa os frequenta, Fincher honra a inteligência do seu público. O espectador não precisa ser tratado como criança e ganhar uma recompensa a cada cinco minutos para ficar atento, argumenta Mindhunter. Essa é a verdadeira excitação da série: a chance de entrar numa conversa estimulante, dessas de gente grande, e sentir de novo aquele arrepio da descoberta.

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