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Educação em evidência Por João Batista Oliveira O que as evidências mostram sobre o que funciona de fato na área de Educação? O autor conta com a participação dos leitores para enriquecer esse debate.

Por que a origem social da família tem impacto tão grande nos resultados escolares?

Por Da Redação Atualizado em 30 jul 2020, 23h47 - Publicado em 23 dez 2015, 11h17

Venho discutindo nesta coluna os fatores que interferem na educação das crianças, tanto os internos e relacionados à escola, quanto os externos, alheios ao ambiente de sala de aula. Apontei também evidências de que o ambiente familiar e as condições de renda estão entre os fatores que explicam mais de 50% do resultado de um aluno na escola.  Mas por que a origem social da família tem um impacto tão grande nos resultados escolares?

A tentativa de responder a essa questão tem estimulado uma intensa produção de pesquisas, com diversos aportes teóricos e metodológicos. À primeira vista, o nível socioeconômico da família poderia ser determinado exclusivamente pelo salário e/ou nível de educação dos pais. Este é um bom indicador, mas ele não revela o que há por detrás do conceito.

Está relacionado com o ambiente em que a criança nasce e se desenvolve. Certamente, a renda e o nível educacional dos pais são fatores importantes. Porém, como mostram estudos em diversas áreas do conhecimento, a organização da família, seu clima afetivo, a socialização linguística e a aquisição de atitudes e motivações desde cedo, são alguns dos mecanismos intrafamiliares relacionados com o sucesso escolar. E ainda há um fator fundamental: o nível de inteligência, que é transmitido geneticamente.  Este é fortemente associado ao sucesso escolar.

Apesar de os primeiros estudos sobre o tema terem demonstrado certo determinismo em suas conclusões, posteriormente eles passaram a buscar explicações para além dessa reprodução de desigualdades sociais na escola. A atenção se deslocou para os processos cotidianos e domésticos, no sentido de saber quais eram os comportamentos familiares relacionados com o sucesso escolar.

Os principais resultados mostram que as famílias possuem distintas abordagens sobre a criação dos filhos em aspectos como: expectativa em relação ao futuro, organização da vida cotidiana, uso da linguagem, laços sociais e forma de intervenção com as instituições, especialmente as escolas. Os pais de classes trabalhadoras, por exemplo, acreditam que os professores são responsáveis pela educação dos seus filhos. Em contraste, as classes média e alta acreditam que a responsabilidade pela educação é compartilhada entre a família e a escola.  De modo particular, a interação entre nível de inteligência –  também fortemente associado a classe social – e perseverança e esforço – frutos de uma certa forma de educação familiar –  são fortes preditores do sucesso escolar.

Isso significa que a condição social é inexorável?  A resposta é negativa, mas precisa ser qualificada.  É fato que as pessoas são diferentes, nascem com diferenças e que as chances de sucesso (escolar) são diferentes já no nascimento.  A loteria do nascimento dá condições diferentes às pessoas.  A plasticidade cerebral permite que, com esforço e condições adequadas, mesmo indivíduos que nascem em condições menos favoráveis, tenham sucesso, se receberem e responderem de forma adequada aos estímulos.  Mas para todos vale a regra geral: além de condições, é preciso esforço e persistência. A boa escola é a que estimula os alunos a desenvolverem esses hábitos.

Porém, se os pais das classes populares enfrentam mais limitações ao estimular a aprendizagem dos seus filhos, é necessário abordar diretamente essa problemática, a partir de intervenções desde cedo, de qualidade igual ou superior às oferecidas às famílias e bairros onde elas se mostram mais eficazes.

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Diversos estudos detalhados no livro “Educação Baseada em Evidências – o que funciona em Educação” (Instituto Alfa e Beto), que escrevi em parceria com mais três estudiosos, demonstram medidas que podem reduzir as disparidades causadas pela origem familiar. Uma das principais é a Educação Infantil. Uma pesquisa de 2012, feita com dados longitudinais, mostrou que frequentar a pré-escola aos 4 anos de idade está associado a uma substantiva redução da influência da família nas habilidades de leitura e matemática aos 5 anos, fazendo com que filhos de pais analfabetos, por exemplo, tenham mais oportunidades de serem bem sucedidos na vida escolar.

Como a taxa de matrícula em pré-escola é mais baixa entre crianças de nível socioeconômico mais baixo, elas seriam as mais beneficiadas por um investimento para aumentar as matrículas nessa etapa da escolaridade – desde que, é claro, se respeite as etapas de desenvolvimento, sem forçar uma escolarização precoce.

Atividades extracurriculares também podem ter impacto na reversão das amarras causadas pela origem familiar, de acordo com as evidências. Contudo, é importante frisar que estratégias como oferecer aulas de artes e esportes no período contrário à escola estão relacionadas principalmente com aspectos não cognitivos, como engajamento, sentimento de pertencimento, autoestima e expectativas de sucesso. Isso tem efeitos na diminuição das taxas de abandono e repetência, mas potencialmente pode ter efeitos positivos sobre os resultados acadêmicos dos estudantes, especialmente entre os jovens mais vulneráveis.

Seja qual for a medida utilizada para reverter as disparidades causadas pela origem social, seu efeito positivo irá depender, sobretudo, de como as políticas públicas educacionais trabalham com as pessoas que mais precisam dessas medidas.

 

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O objetivo desta coluna é suscitar o debate e enriquecer a discussão sobre educação. Participe enviando comentários e questionamentos. Para acessar os textos anteriores, clique aqui.

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