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Claudio Moura Castro Por Claudio Moura Castro

O perito ou o povão?

Em conjunto, a multidão acerta mais que os especialistas

Por Claudio Moura Castro - Atualizado em 6 mar 2020, 10h50 - Publicado em 6 mar 2020, 06h00

Francis Galton (1820-1911), além de ser um dos pais da estatística, achava que inteligências privilegiadas deveriam tutelar o povaréu. Um belo dia, em uma feira pecuária, deu de frente com um concurso para ver quem adivinhava o peso de um boi lá exposto. Palpitava a multidão, e faziam suas estimativas os profissionais da carne. Sempre curioso, Galton anotou as apostas e analisou os resultados. Surpresa: a média das previsões estava extraordinariamente próxima do peso real. E a maioria dos peritos não adivinhava com a mesma precisão. Ou seja, em conjunto, a multidão acertava mais que os peritos. Era exatamente o oposto do que ele esperava.

Será que as multidões sabem mais do que os experts? Curiosamente, há situações em que isso é verdade, sim.

Na busca de um submarino afundado perto da Austrália, com poucas pistas para seguir, foi feita uma consulta aberta a quem quisesse palpitar. O lugar geométrico dos pontos sugeridos por muitos voluntários estava espantosamente próximo do ponto onde foi encontrado o barco. Leigos, em conjunto, superaram os peritos.

“Peça a um leigo que preveja a trajetória de uma partícula subatômica. Ele nem entenderá a pergunta”

Milhares de pessoas apostam nas corridas de cavalos, sem grandes conhecimentos e com base nas conjecturas mais variadas. Observou-se que os cavalos favoritos nas apostas têm muito mais probabilidade de vencer. De onde a multidão tirou a sabedoria para adivinhar quem serão os ganhadores? Há apostas abertas nos vencedores dos prêmios Oscar. Por que será que apostadores leigos acertam tanto quanto críticos de cinema, profissionais no assunto?

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Algum espírito de porco descobriu que, apesar de seus salários sobejamente avantajados, os administradores de fundos de investimento acertam tanto quanto as velhinhas aposentadas.

Quer dizer que não vale a pena gastar anos estudando se as previsões serão piores que as da multidão? Erradíssimo. Foi-se o tempo em que o velhinho, depois de observar as nuvens e andorinhas, previa o clima melhor do que o serviço de meteorologia.

Peça a um leigo que preveja a trajetória de uma partícula subatômica. Ele nem entenderá a pergunta. Tampouco poderá dizer algo inteligente sobre as causas da contaminação na Cervejaria Backer. Ou sobre a natureza do coronavírus. E, se 1 milhão palpitar, as adivinhações continuarão igualmente desencontradas.

Não se trata de crucificar o perito nem desdenhar a sabedoria do povão. Temos de saber quando a estimativa de um tem mais solidez que a do outro. Quando conhecimentos técnicos são precondições para palpitar, o povaréu nada tem a dizer. Mas o julgamento dos peritos será mais confiável apenas se o conhecimento técnico for realmente vital para a previsão. E mais: sejam especialistas ou a multidão, se há ampla comunicação e algumas lideranças têm o poder de influenciar os outros, degradam-se as previsões. Com efeito, descobriu-se que a independência de cada um e a diversidade do grupo são essenciais no processo.

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Estamos diante de um enigma fascinante e sério. Peritos ou multidões fazem melhores previsões sobre o mundo? Como dito, depende. Lamento ser uma resposta evasiva. Vale a pena ler o livro A Sabedoria das Multidões, de J. Surowiecki, publicado em 2004.

Publicado em VEJA de 11 de março de 2020, edição nº 2677

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