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Caçador de Mitos Por Leandro Narloch Uma visão politicamente incorreta da história, ciência e economia

O eterno petista

Ele é capaz das mais impressionantes acrobacias intelectuais para seguir defendendo o PT. Foi assim nos últimos anos – e é interessante imaginar como o eterno petista reagirá se o PT continuar governando o Brasil

Por Leandro Narloch Atualizado em 30 jul 2020, 23h07 - Publicado em 1 abr 2016, 15h43

A Operação Lava Jato e as discussões sobre o impeachment de Dilma revelaram um tipo interessante de brasileiro – o eterno petista.

O eterno petista continua defendendo o PT mesmo depois de todos os seus ideais terem sido traídos pelo partido. Continua petista mesmo depois do PT ter levado a níveis estratosféricos a corrupção que prometia erradicar. Mesmo depois do partido se aliar aos homens que o eterno petista considerava os vilões da política brasileira.

Para justificar a durabilidade da sua crença, o eterno petista é capaz das mais impressionantes acrobacias intelectuais. Foi assim na última década – quando Lula decidiu manter a política econômica de FHC, ou durante o mensalão, na aliança com Fernando Collor e Paulo Maluf, no petrolão, nas trabalhadas econômicas de Dilma, na reforma do sítio e do tríplex, na nomeação de Lula ao cargo de ministro. É interessante imaginar como o eterno petista reagirá se o PT continuar governando o Brasil nas próximas décadas.

Em 2017, a inflação chegará a 32%. O eterno petista dirá, primeiro, que vivemos uma conspiração de estatísticos do IBGE e da FGV contra o governo Dilma. Depois, vai requentar discursos dos anos 80 e culpará os donos de supermercados pelo aumento dos preços.

Em 2018, durante uma conversa com diretores da OAS, Lula dirá “como assim não tem mais doação pra campanha, querido? Quer contrato com a Petrobras ou não? ”. O eterno petista dirá que Lula foi vítima de um grampo ilegal determinado por juízes com motivações golpistas que só investigam o PT. “A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964”, afirmará o eterno petista em vídeos e em artigos de jornal.

“Cadê meus milhão?”, dirá Lula numa outra ligação grampeada com autorização judicial. O eterno petista explicará que Lula na verdade se referia a doações de milhos para os voluntários de sua campanha a presidente, e que ele não sabe flexionar o plural porque tem uma origem humilde, e exatamente por isso é preciso votar nele e se revoltar contra blogueiros da elite conservadora que ridicularizam as limitações gramaticais dos brasileiros menos favorecidos.

Em janeiro de 2019, em sua primeira semana de governo, o presidente Lula vai ordenar o BNDES a emprestar 33 trilhões de reais para a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correia. O Jornal Nacional revelará que 20% desse valor foram parar na conta de um dos filhos do presidente. O eterno petista absolverá o PT e acusará a “imprensa controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula”.

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Pouco antes do Carnaval, a ministra da Cultura Jandira Feghali mudará o Hino Nacional para a música Metralhadora. Crianças de todo o Brasil serão obrigadas a cantar, na escola, “Trá trá trá A vingadora vai no Trá trá trá trá” – com coreografia. O eterno petista dirá que a elite branca paulistana não entende a importância de um ato grandioso como aquele, que torna oficial a cultura verdadeiramente popular do Brasil.

Em 2020, Lula nomeará Paulo Maluf para a Ministério da Justiça, Fernando Collor para chefe da Casa Civil, Marcelo Odebrecht para a Secretaria de Obras Públicas e o Maníaco do Parque para a Secretaria de Políticas para as Mulheres. O eterno petista dirá que a distribuição de cargos foi necessária para o presidente manter governabilidade e que só uma reforma política será capaz de evitar o loteamento de cargos no Brasil.

Em 2022, no horário político do PT, Lula anunciará o aumento do imposto de renda para 85%, na tentativa de cobrir o rombo fiscal. Milhões de pessoas vão às ruas reclamar que, apesar de tanto impostos, os serviços públicos continuam uma lástima. Alguns manifestantes xingarão e desejarão a morte de Lula, o que será suficiente para o eterno petista afirmar que protestos como aquele não passam de manifestações de ódio contra o partido que promoveu enormes avanços sociais no Brasil.

Em 2023, Lula dirá que as críticas que recebe são comparáveis às de Hitler, “que na verdade foi um injustiçado, um homem que deu um jeito na Alemanha”. Descobre-se um altar com suásticas no Palácio da Alvorada. O eterno petista, agora alojando no departamento de história da USP, publicará a tese “Um novo olhar sobre o nazismo: a polissemia nos discursos e identidades sociais no século 21”, na qual afirmará que “o retrato do líder alemão como um cruel genocida foi utilizado como uma ferramenta de oligarquias tradicionais para justificar a opressão capitalista no pós-guerra, de modo que o avançar da historiografia está revendo posições conservadoras e jogando luz sobre alguns exageros nos relatos de crimes atribuídos a Hitler”.

O eterno petista, na verdade, não é eterno – seu fim ocorrerá em 2035. A Samarco, que será a maior financiadora eleitoral do PT, ganhará licitações para obras de saneamento na Colômbia, Bolívia, Paraguai e Argentina, todas patrocinadas pelo BNDES. Erros de engenharia farão todo o esgoto dos países vizinhos ser despejado no território brasileiro. Em poucos meses, 95% do país será inundado por uma lama amarelada e fedorenta. Quando o presidente Lindberg Farias for à TV explicar o ocorrido, milhões de pessoas baterão panelas das sacadas. O eterno petista se recusará a se proteger em seu apartamento e decidirá ver de perto a dura realidade do povo brasileiro. Com a lama na cintura, um grampo de roupa no nariz para evitar o fedor, desviando com a mão as partes mais sólidas do esgoto sem fim, ele dirá: “temos razão em bater panelas contra o derramamento de dejetos. Mas por que não bater panelas contra a corrupção tucana?”. Com a lama fétida subindo ao nível do pescoço, ele explicará que “o protesto foi na verdade contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando aeroportos”. Antes de desaparecer no lamaçal, o eterno petista dará um último suspiro, cuspirá a lama que entope sua boca e gritará, desesperado:

– Impeachment é g…

@lnarloch

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