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Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Especial VEJA: Abelardo Jurema – Memórias da sexta-feira, 13

Publicado na edição impressa de VEJA “O presidente João Goulart dormiu sob os louros de uma noite de massas empolgadas por seu governo e não ouviu os tropéis de uma cavalgada que partiu dos setores que se assustaram, incentivados por um jogo político que vinha de muito longe, que vinha desde quando, pela primeira vez, […]

Por Augusto Nunes Atualizado em 31 jul 2020, 03h59 - Publicado em 25 abr 2014, 08h36

Publicado na edição impressa de VEJA

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“O presidente João Goulart dormiu sob os louros de uma noite de massas empolgadas por seu governo e não ouviu os tropéis de uma cavalgada que partiu dos setores que se assustaram, incentivados por um jogo político que vinha de muito longe, que vinha desde quando, pela primeira vez, depuseram Getúlio Vargas.” Num livro iniciado no calor dos acontecimentos, quando ainda estava asilado na Embaixada do Peru, o paraibano Abelardo Jurema, ministro da Justiça do governo recém-derrubado, descreveu assim o turbilhão que marcou o salto no abismo de Jango, o comício da Central do Brasil. Intitulou-o com a data de mau agouro em que a radicalização tomou conta do palanque: Sexta-feira, 13.

Dezenove dias depois, na tarde de 1º de abril, Jurema resolveu seguir para Brasília, como já havia feito o presidente a quem serviu com lealdade. Percebeu que nunca chegaria lá pelos olhares dos oficiais que o acompanhavam no aeroporto militar do Santos Dumont. Uma patrulha dos golpistas já vitoriosos chegava com a ordem de levá-lo preso. Com eles seguiu para a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, na Praia Vermelha. Entre os muitos erros de condução dos assuntos políticos e militares cometidos por Jango, a quem sempre se referia com simpatia, anotou mentalmente mais um: “Como estavam enganados aqueles que subestimavam as escolas do Exército e que, para elas, fizeram concentrar toda a oficialidade hostil ao governo da República”. No coração do movimento golpista, Jurema viu uma “oficialidade disposta a tudo. Nas fisionomias de cada um senti lampejos até de ódio”.

Nesse ambiente, foi um alívio ser recebido com “cortesia e respeito” pelo comandante, general Jurandir Bizarria Mamede. Surrealisticamente, jantaram juntos. O garçom desmaiou no meio do serviço. De madrugada, Jurema disse que se considerava dispensado da “proteção” oferecida por seu anfitrião na condição de hóspede involuntário: tinha residência fixa, era parlamentar eleito e havia servido a um governo constituído. Bizarria Mamede consultou por telefone o general Castello Branco e voltou sorrindo: Jurema estava liberado. Dali, abrigou-se no apartamento de um amigo e depois pediu asilo na embaixada peruana. Ao chefe dos policiais que foram procurá-lo em todos os cantos de sua casa em Botafogo, um jovem auxiliar, conterrâneo de Jurema, replicou: “O senhor já viu paraibano se esconder debaixo da cama?”.

Colaboradores: André Petry, Augusto Nunes, Carlos Graieb, Diogo Schelp, Duda Teixeira, Eurípedes Alcântara, Fábio Altman, Giuliano Guandalini, Jerônimo Teixeira, Juliana Linhares, Leslie Lestão, Otávio Cabral, Pedro Dias, Rinaldo Gama, Thaís Oyama e Vilma Gryzinski.

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