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Como as novas tecnologias interferem nas relações sociais

Segundo a neurocientista Janaína Brizante, colocar um celular na mão de uma criança é transferir a responsabilidade de educar para um objeto

Homens e mulheres caminhando nas ruas de cabeças baixas, casais sem conversar sentados lado a lado, crianças em silêncio absoluto em mesas de restaurante, todos com a boca entreaberta, os dedos frenéticos e os olhos vidrados na tela luminosa. As cenas, cada vez mais comuns, são o retrato de como as novas tecnologias estão interferindo de maneira radical nas relações sociais. No programa Perguntar Não Ofende, da rádio Jovem Pan, a neurocientista Janaína Brizante, responsável pela parte de pesquisa neurocientífica da Nielsen Brasil, conta que o uso excessivo das redes sociais também tem influência direta no funcionamento do cérebro.

A metáfora que ela invoca é simples. A atenção é como um bolo. Não importa quantas pessoas foram convidadas para a festa, o tamanho do bolo será o mesmo. O que muda é a porção que cada um irá receber. Ou seja, quando se está ao lado de alguém e a conversa é interrompida para responder um WhatsApp ou reparar nos avisos luminosos de mensagem, a qualidade daquela interação física diminui.

Além da menor convivência entre pais e filhos, amigos e casais, Janaína registra os prejuízos do excesso de tecnologia para cada faixa etária. Na primeira infância, até os 7 anos, a criança precisa exercitar a criatividade. Celulares, tablets e até mesmo a televisão oferecem brincadeiras prontas. Ao colocar um smartphone na mão de uma criança para ela comer, não fazer birra no supermercado ou parar de correr de um lado para o outro entre as mesas do restaurante no fundo se está transferindo a responsabilidade de educar para um objeto.

Entre adolescentes, os problemas são outros. Primeiro: uma “curtida” numa foto ou um comentário positivo sobre um post faz com que o cérebro libere um neurotransmissor que gera uma sensação de prazer semelhante à experimentada quando se come um chocolate ou se usa uma droga. Resumindo: vicia. Segundo, quando alguém envia uma mensagem de WhatsApp, por exemplo, e não recebe uma resposta imediata, o cérebro automaticamente deduz que foi ignorado. O sentimento é de rejeição, embora seja possível o que destinatário simplesmente não tenha visto o recado. Por último, há a questão do bullying.

“Antigamente, quando fazíamos uma burrada na escola, ela ficava na escola”, observa Janaína. “Agora você leva dentro de casa. Sofre o dia inteiro”. Ela acredita que, também por isso, os casos de suicídio entre adolescentes nos Estados Unidos tenham crescido 12% nos últimos cinco anos.

Janaína costuma deixar o celular afastado e só confere as mensagens a cada duas horas. “É muito chato ficar sempre acessível”, diz. “Estamos deixando toda e qualquer comunicação se meter no que está acontecendo no agora e isso acaba prejudicando justamente a qualidade desse agora”.

Com cada vez mais gente reclamando que o tempo está mais escasso, Janaína acredita que o real problema esteja na maneira como se está dividindo os pedaços do dia. Afinal, o bolo continua tendo as 24 horas de sempre.

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