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‘Suprema felicidade’, por José Casado

Publicado no Globo desta terça-feira JOSÉ CASADO O “socialismo bolivariano do século XXI” não fracassou. Talvez seja apenas uma peça de humor político mal compreendida. Na semana passada, por exemplo, enquanto o Banco Central confirmava a falta de papel higiênico em 79% dos estabelecimentos comerciais da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro discursava sobre a criação do […]

Publicado no Globo desta terça-feira

JOSÉ CASADO

O “socialismo bolivariano do século XXI” não fracassou. Talvez seja apenas uma peça de humor político mal compreendida. Na semana passada, por exemplo, enquanto o Banco Central confirmava a falta de papel higiênico em 79% dos estabelecimentos comerciais da Venezuela, o presidente Nicolás Maduro discursava sobre a criação do “Ministério do Poder Popular para a Suprema Felicidade”. O anúncio presidencial aconteceu enquanto emissários de Dilma Rousseff cobravam, em Caracas, o pagamento de cerca de US$ 800 milhões em dívidas pendentes com exportadores brasileiros.

O país derrete em grave crise econômica, porém Maduro garantiu a preservação da “Suprema Felicidade” dos 27 milhões de venezuelanos como um item do plano financeiro anual de governo.

Orçamento público é uma conta que se faz para saber como aplicar o dinheiro que já se gastou, ensinou o Barão de Itararé. A Venezuela foi além. Criou uma peça orçamentária que supera as melhores obras de ficção do ramo.

Por Decreto Supremo, os “Ministérios do Poder Popular” só podem investir dinheiro público em projetos para “Construir a Suprema Felicidade”, “Aprofundar a Democracia Revolucionária”, “Desenvolver uma Nova Ética Socialista” e “Construir uma Nova Geopolítica”.

Essa fórmula de renovação permanente da promessa de paraíso político é de autoria de Hugo Chávez. Ele morreu em março, mas de vez em quando reaparece aos olhos do presidente Nicolás Maduro “na forma de um passarinho, bem pequeno, que me abençoa” ─ segundo a descrição presidencial.

Maduro criou o ministério, depois de desvalorizar a “Suprema Felicidade Social do Povo”. Sob pressão de uma inflação corrosiva (69% para alimentos no ano), um inédito declínio nas reservas cambiais (US$ 25 bilhões) e um déficit fiscal crescente (15% do PIB), maior que o da agonizante Grécia, ele reduziu a previsão do orçamento para a “Felicidade”. Somava 47% do total de despesas governamentais, nos dois últimos anos de Chávez. Caiu para 37% dos gastos previstos entre 2013-2014.

Manteve intactas, porém, as mordomias presidenciais. Maduro tem um dos mais caros gabinetes presidenciais do planeta (US$ 700 milhões ao ano). Conserva o modelo de verbas secretas de Chávez, que gastava US$ 40 mil por mês apenas com roupas, sapatos e produtos de beleza e higiene pessoal ─ tudo importado, claro.

O orçamento deste ano informa que na folha de pagamento do gabinete de Maduro estão inscritas 120 mil pessoas. Na maioria, são servidores encarregados de “processar e articular as solicitações que o povo dirige ao Palácio de Miraflores”. Quase dois mil trabalham no aparato de guarda-costas pessoal e familiar, sob supervisão do serviço secreto cubano. E há, ainda, uma plêiade de especialistas em “técnicas de explosivos”, “segurança alimentar” e “segurança médica” (com “epidemiologistas”), que o acompanham em todas as viagens, como a do mês passado à China, aonde foi pedir US$ 5 bilhões em crédito emergencial para compra de alimentos básicos.

O “socialismo bolivariano do século XXI” não fracassou. Apenas não funciona na vida real. Nem sequer na ficção. E, como peça de humor político, é simplesmente tragicômico.

Comentários
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  1. Comentado por:

    Roberto Silva 51 RJ

    Chega a ser comovente a adoração que Maduro demonstra por Chávez.
    Ele vê uma rôla, e logo imagina o Chávez reencarnado no pássaro.
    Deve ser recordação dos tempos em que caçavam borboletas juntos, e que paravam debaixo das árvores para ouvir o canto dos pássaros.
    Eu estou doido para ver se a Dilma também tem esses poderes mediúnicos.
    Quero saber se ela vai ver o Lula reencarnado num abutre ou num calango.

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  2. Comentado por:

    Márcia

    A imprensa local evita de falar muito da Venezuela.Afinal,o que poderiam dizer?
    É um aliado,Dilma e companhia defendem a ” democracia” do sr Maduro,entáo é melhor fingir que não existe este pais.Como justificar a falência geral,a militarização crescente,a corrupção,o desabastecimento,a inflação galopante?
    A imprensa internacional,notadamente a espanhola,denuncia sempre os desmandos,os gastos faraônicos para aparelhar o Estado,o culto à personalidade e o enriquecimento dos próximos ao centro do poder,e do próprio ditador Maduro.
    Por aqui,prefere- se passar ao largo…afinal,são métodos de aparelhamento e filosofias de poder similares.Melhor esconder debaixo do tapete…

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  3. Comentado por:

    Mariazinha

    Lá portal Terra está o último delírio esquizofrênico do Maduro: agora ele viu a face do falecido Chavez numa mancha na parede durante a construção do metrô de Caracas. Craaaaaazy!!!

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  4. Comentado por:

    Nelson Simas

    Deve dar uma boa soma a dívida de Cuba, Venezuela, Argentina e Bolívia. Este é o mercado preferencial do governo do PT.

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  5. Comentado por:

    Alex

    Um bando de caloteiros caras de pau,estes que são bons para fazer parte do MERCOSUL.Se for um governo democrático o PT acha algo errado ,agora uma cambada de safados que fica até controlando o papel higiênico melhor ainda.

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  6. Comentado por:

    jorge

    Como comentar uma cousa dessas estando totalmente restrito pelas condições acima?

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  7. Comentado por:

    Romeu

    A minha sugestão pela falta de papel higiênico na Venezuela é fazer como os cubano que nunca sofrerão por falta desse produto tão necessário. É só importar diariamente o jornal Granma e o problema será rapidamente resolvido.

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