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Alberto Carlos Almeida Por Alberto Carlos Almeida Opinião política baseada em fatos

Lula não retornou, Lula permaneceu (em coautoria com Marcos Paulo Campos)

Uma polêmica com Celso Rocha de Barros e André Singer

Por Alberto Carlos Almeida Atualizado em 19 mar 2021, 19h54 - Publicado em 16 mar 2021, 19h00

Eventos políticos significativos não nascem como o sol numa hora determinada, como nos ensinou Edward P. Thompson, mas são frutos de um fazer coletivo anterior no qual a mudança que realizam já existe. Os artigos de Celso Rocha de Barros e André Singer, publicados na Folha de São Paulo em 13 de março, pouco observaram esta lição. Singer, em interessante pegada, escorrega ao afirmar os últimos três anos como sendo “o vazio de uma oposição politicamente efetiva”. Celso, no mesmo sentido, afirma que “a disputa [pós-prisão de Lula] se deu com a extrema direita de um lado e ninguém do outro”. Em ambos, o afã de valorizar o evento hiper significativo que marcou a semana do “retorno” do ex-presidente ao campo político (mais precisamente ao campo eleitoral) acabou por exagerar na presentificação e na valorização de eventos raros e únicos. Em certa medida, os analistas ignoraram boa parte do discurso histórico do Lula no último dia 10 de março no qual o líder agradeceu a quem resistiu com ele.

As frentes contrárias ao golpe de 2016 (impeachment para alguns), a Vigília Lula Livre liderada pelo Movimento Sem Terra, a luta contra as reformas feitas por movimentos sociais e centrais sindicais em franca desvantagem, os 44,87% de votos para Haddad em 18 e a presença de PT, PSOL e PCdoB nos segundos turnos de 2020 (ficando acima de 40% em Porto Alegre, São Paulo, Vitória, Recife dentre outras cidades) e a ação parlamentar em favor da aprovação do auxílio emergencial com valor mais alto não podem ser apagadas. O atrapalho à PEC da Impunidade, a redução dos danos em todos os projetos antipopulares de Temer e Bolsonaro e o trabalho de formiguinha por dentro de instituições, igrejas, empresas, grupos de WhatsApp e lares também não podem ser deixados de lado em favor da leitura um tanto messiânica.

Há cientistas sociais, talvez seja o caso de Celso Barros e André Singer, que em sua metodologia de análise do fenômeno político desconsideram ou dão um peso muito pequeno a um fator bastante relevante que condiciona tal fenômeno: a sociedade. A política varia de país para país porque as sociedades são diferentes, suas formações históricas, valores, demografia, mercado de trabalho dentre muitas outras coisas. Eles ignoram lições básicas de Charles Tilly em seu clássico livro Big Structures, Large Processes, Huge Comparisons, publicado em 1984, e dão atenção desproporcional ao que Hans Rosling em seu Factfulness denominou de instinto de negatividade. Aliás, o livro de Rosling, publicado em 2018, tem um subtítulo educativo: “o hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos”. Sabendo disso é possível entender porque Celso Barros e André Singer, cada um de sua maneira, já chegaram a conclusões que não se verificaram: Barros ao indicar que o Brasil seria uma nova Hungria e Singer ao decretar o fim de um suposto lulismo. Nos dois casos, as evidências da sociedade, considerando-se large process and huge comparisons, mostravam tanto que a Hungria sempre foi muito diferente do Brasil, quanto que o lulismo talvez nunca tenha existido, mas sim um voto de esquerda ou de direita semelhante ao que ocorre em todos os países do mundo, com os mais pobres votando proporcionalmente mais na esquerda e os menos pobres na direita.

O aparecimento quase mágico de um líder na cena política, muitas vezes, nos é apresentado com o charme weberiano da liderança carismática. Mas o caso aqui é outro. A volta de Lula é menos volta do que permanência. Aliás, várias oportunidades de surgimento de uma nova liderança de esquerda que mantivesse consigo o voto dos mais pobres ficaram pelo caminho: José Dirceu foi abatido pelo Mensalão, Palocci por vários escândalos e Dilma por seu fraco desempenho como presidente. Qualquer um destes poderia ter sucedido Lula, como isso não ocorreu, aí está ele no papel de mais importante líder da esquerda. Ainda que a sociedade que deu origem ao PT não exista mais, por exemplo, quando o PT surgiu havia 4% de evangélicos no Brasil, hoje são 30%, o PT se atualizou e manteve o voto de esquerda que é o dos mais pobres. O PSOE espanhol foi fundado em 1879 e está aí até hoje, sempre mantendo o voto daqueles que precisam de mais governo na economia para preservarem seu bem-estar.

A (suposta) reaparição de Lula no cenário nacional se deveu à continuidade de um trabalho de mobilização permanente, empreendido por partidos e movimentos sociais de esquerda, que sempre consideraram a recuperação de seus direitos políticos algo fundamental à nossa reconstrução democrática. Não poucas vezes quem esteve neste trabalho de mobilização foi observado como não estratégico, evitando assim a possibilidade de reverter a nossa desdemocratização com quaisquer alternativas que manteriam Lula preso ou solto sem direitos políticos. Quantos foram aqueles que disseram que o PT deveria abandonar a pauta do “Lula livre”? Além disso, na análise do resultado eleitoral das esquerdas em 2020, muitos ignoraram o peso político da esquerda entrar num pleito com Lula ainda condenado. Nesse sentido, os textos de Celso Rocha de Barros e André Singer valorizam pouco a importância da estruturação e da ação partidária, por exemplo, do PT que foi capaz de manter o tema da suspeição de Moro e da Lava Jato ao longo de todos esses anos. Que líder sem partido forte suportaria tal humilhação? E aqui o termo partido quer dizer aquele que organiza a ação política, forma quadros e oferece uma orientação ao conjunto da sociedade. O discurso que chegou à Globo na última terça e que foi admitido por Gilmar Mendes há algum tempo já estava na boca das lideranças petistas e do próprio Lula desde 2016. Qual a responsabilidade dos intelectuais que se demoraram em perfilar junto àqueles que apontavam os vícios de Moro? Felizmente, não é o caso de Celso nem Singer. Contudo, não se pode deixar de registrar que, ao fazerem uma análise pouco processual, acabam responsabilizando menos quem muito colaborou para tudo isso: o “centro democrático”.

Nossa situação chegou até aqui porque PSDB, DEM e MDB abraçaram a extrema-direita como forma de chegar e se manter no poder. Evitaram inclusive qualquer articulação parlamentar com a esquerda para defender interesses nacionais razoáveis. A Petrobrás que o diga. O que o Brasil assistiu não foi uma oposição ineficaz, mas um centro inexistente. O espírito de Charles Tilly está presente. Isso não pode ser aceito e nem desconsiderado daqui em diante. Nosso futuro não depende somente de quem sempre esteve contra as arbitrariedades que elegeram Bolsonaro, mas daqueles que com ele se aliaram. A esquerda está disposta à redemocratização até porque só ganha com ela. A direita deve dar provas de seu compromisso com as regras do jogo democrático. Isso muda tudo.

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