Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.
A Origem dos Bytes Por Filipe Vilicic Crônicas do mundo tecnológico e ultraconectado de hoje. Por Filipe Vilicic, autor de 'O Clube dos Youtubers' e de 'O Clique de 1 Bilhão de Dólares'.

O fim do pornô no Tumblr mostra quem controla a internet

A web, no passado anárquica, hoje é dominada por pouquíssimas empresas e pessoas, que definem o que vemos. Choram os conservadores, fãs de pornografia

Por Filipe Vilicic - Atualizado em 10 dez 2018, 17h36 - Publicado em 10 dez 2018, 17h09

“The internet is realy, realy great… FOR PORN” (A internet é realmente, realmente grandiosa… para pornô).

A frase faz parte de uma das cenas mais hilárias e engraçadas do aclamado musical da Broadway “Avenida Q”. E ela constata uma verdade absoluta. O que é mais popular na rede, desde seu início? O pornô.

E não adianta vir com moralismo e caretice. Dados do site Pornhub, o maior do gênero e uma das páginas mais acessadas da web (atrás apenas de colossos como o Google e o Facebook), indicam – não para minha surpresa – que os que mais acessam pornô online são… conservadores, os “de direita” (ao menos pela maneira tosca como se passou a dividir “direita” e “esquerda” no Brasil).

Por exemplo, a população de estados estadunidenses conservadores, como os nos quais Donald Trump ganhou de lavada, são também campeões em tempo e dinheiro gasto com pornografia na internet. Um estudo publicado em 2014 no periódico científico “Archives of Sexual Behavior” ainda apontou que religiosos e conservadores são os maiores consumidores desse tipo de entretenimento.

Publicidade

É, no mínimo, engraçado notar como são esses mesmos grupos conservadores que, por meio de suas organizações de tom “família, tradição e propriedade”, agora reclamam dos conteúdos que eles (que são o principal público dos mesmos, repito) têm como impróprio. O atual caso do Tumblr, aquele site de blogs, serve de exemplo.

Sim, o Tumblr passou por maus bocados envolvendo criminosos, pedófilos, que usaram de recursos do site. Algo que já ocorreu com Google, Facebook, Twitter etc. Porém, assim como as outras empresas citadas, a reação havia sido, inicialmente, a apropriada. Deleta-se o conteúdo criminoso e os dados coletados são utilizados para chegar aos bandidos e prendê-los.

Contudo, a história escalou de forma descontrolada. Logo o Tumblr passou a ser condenado também por permitir que strippers, garotas de programa, michês, atrizes e atores pornô usassem o site. Assim como começou a ser julgado por servir de espaço para discussões acerca da sexualidade humana. De quem mais vinham as reclamações? Justamente daqueles que apresentam o perfil da maioria dos consumidores dessa diversão, digamos, pelada: os religiosos, conservadores, de estados que elegeram o Trump.

O Tumblr tentou resistir. Porém, logo marcas gigantes, em especial a Apple, passaram a pressioná-lo. Por cometer um pecado sagrado no ambiente online – exibir mamilos de mulheres ou exemplares de pênis –, a marca da maçã – fundada por um hippie da geração libertária do LSD, fã de Grateful Dead, e que deve estar se revirando no túmulo – tirou o aplicativo do Tumblr da loja de iPhones e iPads.

Publicidade

Como hoje a maioria das pessoas basicamente navega pelo mundo virtual por meio de Facebook, Google e apps, a manobra veio como um golpe quase fatal. Por isso, o Tumblr se viu obrigado a deletar qualquer tipo de site de teor minimamente sexual. Com isso, os blogs que hospeda começam a ficar cada vez mais parecidos com agregadores de textões de redes sociais.

O que se comprova com tudo isso é que, no fim, a internet está cada vez mais limitada. Limitadíssima. E não pelo combate a crimes, o que na prática não ocorre (os pedófilos que deveriam ter sido flagrados, presos e punidos nem apareceram e ninguém mais se queixou disso). Mas, sim, pela imposição da caretice do público que, às escuras, é consumidor das coisas menos caretas (por vezes, criminosas) da web.

Como essa audiência também é cliente de Apple, Google, Facebook, Amazon e afins, a hipocrisia passa adianta. O que ocorre? No fim, são essas poucas companhias – para muitos, o resumo do que é a internet hoje (pois só isso esses acessam) – que acabam por determinar o que vemos ou não online. No fim, acabamos só por nos deparar com a mesma coisa, em sites diferentes, que fazem referências uns aos outros (como ao propor “acesse aqui com sua conta no Facebook”), e assim controlam, na surdina, a informação que circula em forma de bytes.

Acompanhe este blog no Twitter, no Facebook e no Instagram.

Publicidade