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Novo capítulo da crise do Facebook: a “sala de guerra” era só marketing

Os executivos da rede social cada vez mais se parecem com políticos: mudam de ideia a todo momento e se apoiam em pencas de jogadas marqueteiras

O Facebook divulgou com entusiasmo, há dois meses, a criação de uma “sala de guerra” na sede na Califórnia. Nela, funcionários checariam fatos, combateriam fake news, conteriam abusos etc. Principalmente o que fosse relacionado a eleições, em especial nos EUA e no Brasil – por aqui, a medida ainda chegou com atraso, no meio do pleito. Agora se revelou, pela Bloomberg, que a internamente celebrada “sala de guerra” já foi fechada.

Não se combatem os problemas que se propuseram a ser vencidos em dois meses, numa salinha de improviso. A era da desinformação iniciada por Facebook e cia demanda táticas duradouras. Tanto que, como se nota com obviedade, em quase nada a “sala de guerra” ajudou nas eleições brasileiras. Mentiras de todas as dimensões, e sobre todos os lados da disputa (em especial, em favor da parte vencedora), pipocaram ao longo das eleições brasileiras.

Se isso fez mudar o resultado, em qualquer teor, ainda não se sabe. Tal influência (se é que tem peso real mesmo) só será sentida com o tempo. O que já se tem ciência é o quão desastrosas as notícias fabricadas são para as pessoas e para a sociedade; destruindo de grupos de família a imagens públicas de indivíduos, sejam estes antes anônimos ou já famosos. E se tem cada vez mais certeza que as empresas que servem de plataforma para essa onda não têm a menor ideia de como agir diante dela.

Veja bem, o Facebook trouxe uma penca de maravilhas com ele. Assim como seus filhotes Instagram e WhatsApp. Poxa, escrevi um livro sobre isso, o O Clique de 1 Bilhão de Dólares, acerca da incrível história de sucesso do Instagram. Sim, as redes sociais ajudaram a democratizar a informação, a realmente globalizar a comunicação, a construir pontes entre diferentes culturas. Tudo isso já virou blablablá de tão repetido.

Só que Facebook e cia também trouxeram fake news, trolls, bullying virtual, aumento do vício em internet, a fixação de querer curtidas e compartilhamentos a todo custo etc. Para esses males, ainda não se tem remédio.

Quando os sintomas começaram a aparecer, executivos do Facebook, como Mark Zuckerberg e sua braço-direito Sheryl Sandberg fizeram pouquíssimo caso. Com a pressão do resto do mundo fora do Vale do Silício, mudaram o discurso, ou ao menos o que demonstram: assumiram responsabilidades e prometeram fazer algo.

A “sala de guerra” exibe o que seria esse “fazer algo”. As iniciativas, como essa, servem bem para colocar no cartaz virtual da companhia. Ótimas para serem compartilhadas pelos funcionários em grupos de amigos. Mas depois de cumprirem a função publicitária, logo mostram outra faceta; ou simplesmente desaparecem, como ocorreu com a “sala de guerra”.

Em relação a tal sala, aliás, primeiro o Facebook simplesmente contou que a fecharia e não saberia o que faria depois. Como pegou mal, algum marqueteiro parece ter pedido para mudar o discurso. Tanto que agora a empresa promete que usará novamente sua sala tão especial, mas apenas quando ocorrerem eleições que julguem como importantes (o que seria “importante” já seria outra pergunta).

As estratégias ilusórias do Facebook, contudo, não têm vida longa. Prova disso é que foram elas mesmas que, quando descobertas, jogaram a empresa em sua maior crise. O mundo confia cada vez menos no que dizem os mandachuvas da maior das redes sociais. E a empresa sente isso, inclusive, no vaivém das ações na bolsa.

**** Em tempo

Se uma empresa se prova mais marqueteira do que realmente preocupada com os arredores é natural que isso seja reflexo de seu comando. Nesta semana, a pressão foi enorme sobre Sheryl Sandberg, a segunda em comando. Ela sempre se provou eficiente em fazer a empresa lucrar cada vez mais. Porém, suas táticas de políticas públicas e jurídicas se provam cada vez mais insubstanciais.

Acredito que não é por acaso que seja o mesmo com a carreira em paralelo da mesma Sheryl Sandberg. Como escritora, ela publicou um best-seller, o Lean In (no Brasil, “Faça Acontecer”). Devorei a obra, realmente bem apurada e cheia de reflexões admiráveis.

Assim, fui empolgado, em 2016, entrevistar Sheryl sobre esse seu trabalho. Como se tratava de um produto feminista, tive de perguntar sobre como funcionárias do Facebook reclamavam de atitudes machistas (inclusive em outro livro, o The Boy Kings) de Zuckerberg e da omissão da própria Sheryl. Aguardava uma resposta daquelas de me calar a boca, que destruiria aqueles que a acusavam e, assim, certificaria e exaltaria sua força feminista.

No entanto, Sheryl nem quis responder à questão. Ela falaria (ressaltou de forma brusca) apenas do que escreveu no livro (nada sobre Facebook). Recusar-se-ia a retrucar acerca de acusações de misoginia dentro da companhia que comanda. Isso sendo ela um ícone feminista. Isso sendo ela então uma das acusas pelas funcionárias e ex-funcionárias.

Foi nisso que comecei a desconfiar que talvez Sheryl Sandberg, assim como o Facebook, tenha mais habilidades marqueteiras do que quaisquer outras.

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