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‘Império dos Memes’ (Netflix): o retrato dos novos gurus da juventude

O documentário do serviço de streaming não é dos melhores. Porém, serve para entender a faceta depressiva do mundo dos influenciadores digitais

“É como ser introduzido a uma nova droga. A droga é demais, mas existe há um ano. Não sabemos quais serão os efeitos colaterais em 20 anos”. Assim um dos chamados influenciadores digitais (termo meramente marqueteiro, mas útil para contextualizar) define a era das redes sociais, a na qual o que mais vale é ter curtidas e seguidores – independentemente do que se faz e fala por isso. A frase foi tirada do início de “Império dos Memes“, novo documentário da Netflix. Como filme, digo, em termos de direção, edição etc., a obra não é das melhores. Por outro lado, seu conteúdo é instigante, provocador, leva à reflexão acerca do mundo no qual hoje vivemos.

“Todos meus fãs me conhecem pra valer. É isso que chamo de amor”. Já essa frase é de DJ Khaled. Trata-se de um produtor muito menos conhecido por sua música – daquelas bem padronizadas, mais do mesmo, que soam como tudo que se houve numa rádio pop qualquer (em tempo: e olhe que eu sou fã de música pop; mas da boa, não daquelas que parecem pasteis malfeitos) – e mais célebre, isso sim, pelas presepadas que faz na internet.

O que fala Khaled sobre os fãs pode ser complementado pelo o que dizem outros dos influenciadores digitais (todos com dezenas de milhões de seguidores em Instagram, Twitter, YouTube…) no mesmo documentário. A manjada Paris Hilton, por exemplo, é apresentada como a grande pioneira, percursora, dos influencers. Ela determinou o que é preciso ser e fazer, de reality shows a fotos e vídeos ousados (além de presença em festas vips e tomadas de atitudes transloucadas), para se tornar um ser seguido por milhões. Quando fala dos fãs, Paris – que se revela não só carismática, como realmente esperta e com tino para os negócios – relata como se sente mais próxima deles do que de pessoas que conhece pessoalmente, pois estas últimas costumam só sacaneá-la.

Brittany Furlan, atriz frustrada que acabou por virar uma influenciadora milionária no extinto app Vine, acrescenta: “Se eles não me amarem, não fiz meu trabalho”. Pois o trabalho dela é justamente fazer o que for para ser amada por desconhecidos na internet. Brittany, aliás, caiu em depressão, perdeu-se, quando o Vine, na qual ficou famosa, também caiu numa depressão, mas no âmbito dos negócios, foi à falência e acabou sendo fechado.

“Império dos Memes” exibe essa nova estranha relação entre ídolos e fãs. De ambos os lados se fazem coisas que no mundo real pareceria, sem ter outra palavra para tal, estupidez. Como posar durante horas e horas para uma foto, fingindo que foi feita de maneira “espontânea”, para depois postar no Instagram. Do lado dos seguidores, é tão ridículo quanto declarar amor e “ser da família” de uma penca de milionários que ganham fama tão-somente passando ridículo na internet.

Não vale, claro, generalizar. Há nas redes sociais, em especial no YouTube, artistas variados, humoristas, psicanalistas, críticos de cinema. Aos montes. Mas o documentário não trata destes. O foco da câmera está naqueles que são apenas (e nada mais) famosos, celebridades da internet. Ou seja, não são atores, comediantes, músicos de fato. Ou não é por isso que se destacam. O talento desses influenciadores destacados é somente o de aparecer e ser visto.

“Faço isso porque é só o que sei fazer”, complementa Kirill Bichutsky, dono da conta de Instagram Slut Whisperer (algo como Vagabunda que Sussurra). E o que Kirill faz? Ele é um exemplo extremo do típico influenciador digital.

Kirill é ótimo desenhista e sonhou trabalhar na Disney. Também me parece um fotógrafo talentoso. No entanto, nada disso o deixou famoso. “Queria reconhecimento instantâneo. E estudar e conquistar uma carreira demoraria demais”, simplificou ele. Então, Kirill virou um festeiro profissional especialista em retratar mulheres nuas sendo banhadas por champanhe em baladas ao redor do planeta. Com isso, tornou-se rico, famoso e ganhou reconhecimento entre instagrammers.

Com muito exagero – repito, há aqueles que ganham fama na internet por serem, sim, poetas, artistas plásticos, arquitetos etc.; mas não é o caso dos exemplos de “Império dos Memes” –, os personagens do documentário da Netflix delineiam um preocupante cenário. Um no qual, quando se questiona uma criança na escola “O que você quer ser quando crescer?”, a resposta passou a ser “famoso”.

Os jovens que têm crescido grudados em seus smartphones, rolando timelines para baixo e para baixo, não querem ser “um ator famoso”, um “músico famoso”, um “jogador de futebol famoso”, algo do gênero. Agora, como demonstra bem “Império dos Memes”, só querem ser é famosos. E nada mais.

Nisso, elegem seus gurus. Gurus como Kirill, Paris Hilton ou outro que se chama de Fat Jew – este ganhou muita fama por se eleger como um tipo de curador de memes e virais. Gurus que, em vez de fingirem serem perfeitos e iluminados como assim fizeram (enganando muitos) João de Deus, Osho ou Prem Baba (escrevi sobre eles no texto deste link), modernizaram o conceito para o século XXI. Nos tempos de redes sociais, o perfeito passou a ser o mais imperfeito possível. “Se ser machista ou racista atrai seguidores, por que não?”. Assim se questionam as novas celebridades. Figuras que assumem montar uma vida surreal de si mesmos, em versões.com de quem são, tão-somente para buscar cliques e curtidas.

São esses que espelham o que muitos adolescentes sonham em ser hoje. Numa ambição assim traduzida por uma das seguidoras de Kirill, que conseguiu certa fama para si mesma da seguinte forma: “Eu recebi mais de 250 mensagens na primeira vez em que nos vimos (ela e o Slut Whisperer), porque ele disse que eu clareei meu ânus e aí me marcou no Instagram”. O tom do depoimento dela foi de orgulho, de quem conseguiu alcançar uma meta máxima de sua carreira de influenciadora iniciante.

As consequências desses gurus forçadamente imperfeitos podem ser tão desastrosas quanto daqueles gurus tradicionais, os “iluminados”. Nos dois casos, os seguidores os imitam, os veem como o exemplo máximo do que é levar uma boa vida.

Por efeito, no Instagram proliferam clones de Kirill e Paris Hilton. Instagrammers que os imitam na selfie fazendo biquinho, ou na forma como humilham mulheres publicamente no modelo proposto pelo Slut Whisperer. Disseminam-se assim clones e mais clones nas redes sociais. Gente que só quer a fama e nada mais. Para quem o que importa é o número de seguidores e de curtidas, não o conteúdo do que falam ou fazem. Cujas ambições se resumem, em muito, a ficarem célebres por atitudes como a de Brittany Furlan, hoje abordada na rua por ser, como ela mesma diz, “Aquela do vídeo em que o cachorro peida na boca dela”.

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