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Onda de calor extremo na Europa evidencia necessidade de adaptação

Fenômenos como o que atinge países europeus devem acontecer com mais frequência por causa do aquecimento global

Por Jennifer Ann Thomas 20 jul 2022, 14h54

A onda de calor extremo que atinge países do oeste europeu causou centenas de mortes e levou a temperatura a níveis recorde. De acordo com o meteorologista e coordenador-geral de Operações e Modelagem do Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Marcelo Seluchi, a situação que está acontecendo na Europa se insere perfeitamente dentro das expectativas e das previsões das mudanças climáticas.

“As análises sobre mudança do clima mostram que esse tipo de situação pode se tornar mais frequente e mais intenso. Todos os modelos que preveem o clima no futuro indicam que a parte continental do Hemisfério Norte, a Europa e a Ásia, seria a região que mais aqueceria nas próximas décadas. Juntando as peças, o manual da mudança climática diz que as situações de extremo frio e extremo calor vão se tornar mais frequentes”, disse.

O fenômeno meteorológico que explica as temperaturas inéditas é um sistema de alta pressão chamado de bloqueio. Esse sistema impede a entrada de frentes frias, ele tem a duração de vários dias e, ao inibir a formação de nuvens, o céu fia muito claro, com longas horas de Sol durante o dia, o que aumenta a temperatura. Além disso, o sistema joga o ar do norte da África para a Europa, o que acrescenta a característica de baixa umidade junto com as altas temperaturas.

De acordo com o físico e professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Alexandre Araújo Costa, há um limite de aumento da temperatura do planeta para a qual é possível pensar em adaptação climática. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, o IPCC, diante do aumento da temperatura média global nos continentes de 1,2ºC, as ondas de calor estão quase três vezes mais frequentes. As ondas extremas, com tempo de recorrência de 50 anos, estão 5 vezes mais frequentes. Isso significa que o fenômeno que aconteceria a cada 50 anos pode ocorrer a cada 10. E o que se repetiria a cada 10 anos passará a acontecer a cada 3 anos.

“Se vamos pensar em políticas de adaptação, não adianta ter ilusão. Existe um limite para conseguirmos nos adaptar”, disse Costa. De acordo com o pesquisador, o aquecimento do planeta acima de 1,5ºC — a meta estabelecida pelo Acordo de Paris — inviabiliza ações de adaptação. “Um mundo 3 graus mais quente é de caos climático. Essa temperatura vai gerar um colapso de abastecimento de água e de produção de alimentos, será um mundo de grandes incertezas. A grande questão é que temos que puxar o freio de mão das emissões de gases de efeito estufa imediatamente”, afirmou.

Para Seluchi, a atual situação da Europa mostrou como os países não estão preparados para enfrentar as previsões feitas pelas modelagens climáticas. “Uma lição que a Europa tem que aprender é se preparar melhor para essas ondas de calor. No Brasil, nós aprendemos em 2014, sofremos bastante, mas foram feitas obras e o sistema se tornou mais robusto, há investimento em outras formas de energia para não depender só de água. A Europa vai ter que tomar providências”, disse.

Por mais que não seja possível especificar qual evento extremo está diretamente relacionado ao aquecimento global, os pesquisadores concordam que a maior frequência e intensidade desse tipo de fenômeno é o que prevê a ciência climática. “Mesmo se fizermos todo o dever de casa ao longo desta década para neutralizar as emissões de carbono em 2050, ainda assim as ondas de calor serão mais frequentes”, afirmou Costa. A grande questão é se as lideranças políticas e econômicas não conseguirem implementar medidas para frear novas emissões e implementar mecanismos para absorção de carbono.

“Se o planeta chegar a um aumento de temperatura de 4 graus, o que estamos vendo seria o novo normal. Se isso se tornar o novo normal, não vamos querer saber o que é o novo extremo. Podemos simplesmente tornar regiões inteiras do planeta inabitáveis, especialmente nos trópicos, onde as temperaturas são altas, e em países populosos”, disse Costa.

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