25/05/2013
às 17:00 \ Tema LivreMESSI — Quero ser gigante

"Sempre disse que quero ganhar tudo com o Barcelona e com a Argentina, e o Mundial é algo que sonho ganhar" (Foto: Domenico Dolce)
Reportagem de Ismael dos Anjos, publicada em edição impressa da revista Alfa
QUERO SER GIGANTE
Apenas mais um gênio ou um novo mito do futebol? O melhor jogador do mundo faz planos para responder a essa pergunta na Copa de 2014: “Não é só o Brasil que deseja ser campeão”
Foram cerca de quatro horas de sessão para que Lionel Andrés Messi tatuasse na perna esquerda, aquela responsável por mais de 60% dos seus gols, as mãos rechonchudas do seu filho, Thiago Messi Roccuzzo, nascido em novembro do ano passado.
O desenho não tem mais do que 15 centímetros de altura, uns 8 de comprimento, no máximo, mas há ali certa poesia, o instantâneo de tudo que ele alcançou até agora – a biografia de um jogador de futebol resumida em uma perna, marcada por gols dignos de videogame, dribles impressionantes, elogios sem fim, prêmios, marcas de botinadas dos adversários, e agora em uma tatuagem do seu filho.
Essa história, no entanto, ainda tem capítulos a serem escritos, um final aberto, uma incógnita. Quando Thiago crescer e tiver uma noção melhor de quem é seu pai, seu conto de ninar favorito pode ser este, a do jogador baixinho, nascido em Rosário, que se tornou o maior artilheiro da história de seu clube, superou o recorde de redes balançadas em uma mesma edição do Campeonato Espanhol, com 50, e da Liga dos Campeões, com 14 gols.
Ou pode ser a de um jogador ainda maior. A fábula de um mito.

As mãos do filhote na perna contam outro capítulo da história ainda inacabada de Messi (Foto: Juan Mabromata / AFP)
Pelos próximos 14 meses, até a final da Copa do Mundo do Brasil no Estádio do Maracanã, lá pelas 18 horas do dia 13 de julho de 2014, Messi pode desenhar novos rumos para a sua perna esquerda e definir essa história de ninar para Thiago – será ele um jogador espetacular, como Johan Cruijff e Zico, ou uma lenda, um alienígena da bola, como Pelé e Maradona?
“Sempre disse que quero ganhar tudo com o Barcelona e com a Argentina, e o Mundial é algo que sonho ganhar”, disse ele em entrevista exclusiva para a Alfa.
Será a terceira tentativa de Messi, agora líder absoluto da seleção alviceleste, de levar seu país ao topo do futebol mundial. “A diferença é que muitos de nós chegamos com mais experiência para competir, e isso é algo a mais. Temos bastante clareza de que o Brasil joga em casa e tentará ficar com esse prêmio. Mas não é só o Brasil que o deseja, e faremos todo o possível para sermos campeões.”
Mais maduro, menos tímido, mais seguro de si e ainda mais genial com a bola nos pés, Messi parece pronto para assumir esse papel.
Para o fanático torcedor brasileiro, esta reportagem não tem muitas boas notícias, sejamos sinceros logo de início. Messi é um jogador melhor hoje do que era ontem, e isso se repete desde seus 16 anos de idade, quando debutou em um amistoso contra o Porto, na inauguração do Estádio do Dragão, em novembro de 2003.

Um jogador criado para ser genial desde a infância, quando saiu da Argentina para jogar no Barcelona (Foto: Barcelona)
E, nesta escalada, promete chegar tinindo à estreia da Argentina na Copa do Mundo para tentar virar lenda. “Seu futebol mudou muito pouco, mas ele cresceu muitíssimo”, diz Ivan San Antonio, jornalista responsável pela cobertura do Barcelona no jornal catalão Sport.
Principal jogador de uma geração de craques, como Cristiano Ronaldo, Zlatan Ibrahimovic e Falcao García, o baixinho chamava a atenção desde as categorias de base. Para San Antonio, Messi joga, hoje, como jogava quando era juvenil.
A diferença é que está absurdamente mais seguro, assumindo confortavelmente o papel de craque. “Seu futebol era espetacular com 13, 14, 15, 16, 20, assim como é agora, com 25 anos de idade”, conta. “Me lembro de que, quando ele era juvenil, era um desastre na zona de imprensa. Todas as respostas eram monossilábicas: `Sí. No. Sí. No’. Com 15 anos, você pode até ser um grande futebolista, mas não uma pessoa madura. Mais velho, ele formou uma personalidade, assumiu sua responsabilidade dentro da equipe e, hoje, sabe que é seu líder.”
Números não faltam para botar medo até no mais otimista dos brasileiros.
Coletivamente, La Pulga, como é chamado carinhosamente pelos argentinos, conquistou três Ligas dos Campeões da Europa, dois Mundiais de Clubes, seis campeonatos espanhóis e uma medalha de ouro com a Argentina nas Olimpíadas de Pequim.
Com as vitórias – e o tempo -, o garoto tímido de 15 anos deu lugar a um homem de 25, que, mesmo com poucas palavras, se converteu em um capitão natural e um pai de família que já pensa em legado e posteridade. “A timidez é uma situação do próprio crescimento”, explica Messi. “Ainda que, muitas vezes, se confunda o respeito com a timidez. De toda maneira, isso nunca foi problema para mim.”

Com o filho, o pequeno Thiago: Messi está mais experiente, e hoje é um pai de família (Foto: Chroma Press)
Esse novo Messi, mais maduro e seguro, pode ser visto não apenas nos jogos de futebol. Garoto-propaganda de marcas como Adidas, Procter & Gamble e até Herbalife, o bom moço já amealhou, em oito anos de carreira, uma fortuna de mais de R$ 400 milhões, entre salários, contratos de patrocínio e bonificações.
Um dos parceiros comerciais mais ativos de Messi, a grife italiana Dolce & Gabbana viu na paixão que o jogador desperta nos estádios uma forma de ultrapassar as passarelas. “Ele é o novo ícone da atualidade. É jovem e conhecido no mundo inteiro, mas é um cara simples, com valores fortes e tradicionais”, diz Stefano Gabbana.
É da marca, por exemplo, o smoking negro de bolinhas brancas que Messi vestiu para receber o prêmio de melhor do mundo da Fifa em janeiro. “Mesmo tão novo, ele tem uma noção clara sobre quem é, o que faz e o que representa”, explica Domenico Dolce, responsável pelos cliques do jogador em um hotel em Barcelona, que ainda garante: o modelo foi escolha do próprio Messi. “Para nós, isso significa ter personalidade.”
“AFETO DOS ARGENTINOS”

"A timidez é uma situação do próprio crescimento. De toda maneira, isso nunca foi problema para mim" (Foto: Domenico Dolce)
O último desafio de Messi foi conquistar os seus compatriotas, que sempre olharam com dúvidas para o jogador por ele ter partido tão cedo para a Espanha (em busca de uma chance no futebol e de um tratamento para a deficiência hormonal de crescimento que apresentava aos 13 anos de idade) e por não repetir o futebol vitorioso do Barcelona.
Em La Plata, na província de Buenos Aires, torcedores chegaram a pichar os muros da cidade em 2009: “Messi não é argentino”. Nessa relação tão complicada como um tango, os jornais argentinos criticavam as atuações e até o fato de ele não cantar o hino nacional. Mas, no ano passado, o meia-atacante ganhou de vez o respeito em seu país.
Com 12 gols marcados – três deles apenas contra o Brasil -, o camisa 10 igualou em um só ano o recorde de tentos que Gabriel Batistuta havia estabelecido em 1998, e ajudou a colocar uma renovada seleção azul e branca no topo das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo.
“É a realização de um desejo, pois todos nós queremos ser bem tratados pelo nosso povo”, diz Messi. “Eu me sinto querido pelas pessoas de Barcelona, mas me faltava o afeto dos argentinos.”
Adaptado ao protagonismo, Lionel Messi também tomou para si a faixa de capitão do elenco comandado por Alejandro Sabella e assumiu de bom grado o encargo de líder futebolístico do país. “A seleção não é uma coisa em que você coloca a camisa e já sabe como jogar, em qualquer lugar. Tem jogos nas eliminatórias que são muito difíceis pelas circunstâncias”, afirma o ex-jogador e comentarista Juan Pablo Sorín, ídolo dos argentinos e capitão de Messi durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.
“O mais admirável de Messi não é seu talento, sua velocidade com a bola e a história de ser um jogador de Playstation. Para mim, o ponto fundamental é que ele é um cara que vai se superando, incluindo aí a dificuldade de não jogar tudo o que podia pela seleção. Depois de eu ter sofrido em minha época com brasileiros como Ronaldo e Ronaldinho, fico feliz de ter visto crescer esse pedaço de jogador e de ter um argentino, com a humildade que ele tem e o tipo de pessoa que ele é, como o melhor do mundo”, completa Sorín.
DE FRENTE PARA O GOL

Na seleção argentina, disputando a bola com Neymar -- "Me faltava o afeto dos argentinos" (Foto: Rich Schultz / Getty Images)
Com duas participações em mundiais de seleções, Messi chega à Copa do Mundo com a melhor chance da carreira para levantar a taça mais cobiçada do mundo.
Se alguém tem que estar preocupado, é Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira desde novembro do ano passado. Felipão tem nas costas o peso de comandar o escrete canarinho em casa, em um país pouquíssimo tolerante com fracassos – não ser campeão do mundo aqui, talvez caindo para a Argentina, vai ser pior, muito pior, do que o Maracanazo de 16 de julho de 1950, quando o Brasil perdeu a final da Copa para o Uruguai por 2 a 1.
Mas o técnico não parece perder noites pensando em Messi. “Vejo a vontade de ganhar uma Copa como uma situação normal de um atleta que joga em uma excelente seleção — que já foi campeã do mundo — e tem excelentes jogadores ao lado. Se o jogador disser que `vou lá, mas não vou ganhar’, não tem nem que ser convocado”, diz Felipão.
“Mas, para uma seleção ser campeã do mundo, não pode depender de um só jogador. Neste momento, a Argentina é uma equipe muito homogênea. Atenção especial só merecem os jogadores da nossa seleção que, por acaso, não tiverem essa mesma gana. Aí, sim, a gente pode ficar preocupado.”

Ronaldinho Gaúcho: "Messi preocupa toda seleção e todo time que vão jogar contra ele, porque é o melhor do mundo" (Foto: Domenico Dolce)
Autor da assistências para o primeiro gol de Messi – em um jogo contra o Albacete, em maio de 2005 -, Ronaldinho Gaúcho, atualmente no Atlético-MG, lembra o apoio aos primeiros passos do argentino como profissional. “Como chegou muito novo, sempre procurei fazê-lo se sentir à vontade, tentando ajudar nas coisas do futebol. Fico feliz em ter participado desse começo da carreira porque é um grande amigo”, afirma.
Para Messi, a proteção do gaúcho e também do meia Deco, com quem jogou no Barcelona por quase quatro anos, foi fundamental. “Sempre vou me lembrar dos dois. São duas pessoas excelentes, me ajudaram muito a crescer esportivamente.” Hoje um possível concorrente ao título que Messi pretende vencer em 2014, Ronaldinho é mais realista: “Messi preocupa toda seleção e todo time que vão jogar contra ele, porque é o melhor do mundo”.
Enquanto os adversários bolam retrancas e os argentinos sonham com um terceiro representante de Dios, depois de Maradona e do novo papa, Jorge Mario Bergoglio, La Pulga segue escrevendo sua biografia com dribles e chutes canhotos.
“Messi é um gênio do futebol, alguém que Deus tocou com uma varinha mágica e disse: Você vai ser o melhor jogador de futebol da história”, diz o jornalista Ivan San Antonio. “Para mim, não lhe falta ganhar um Mundial, mas entendo que, se ganhar o Mundial do Brasil, não restará dúvida alguma sobre ele. Será coroado por todo o mundo e ninguém poderá discutir que é o melhor futebolista.”
Thiago com certeza terá boas histórias para ninar.
DISCUSSÃO SEM FIM

Messi segundo Ivan San Antônio, jornalista catalão: "É um gênio do futebol, alguém que Deus tocou com uma varinha mágica e disse: Você vai ser o melhor jogador de futebol da história" (Foto: Harold Cunningham / Getty Images)
Uma disputa entre os números de Messi, Maradona e Pelé
É difícil comparar épocas distintas, mas é possível compreender a efetividade que cada jogador teve em sua carreira. Os índices separados por Alfa levam em conta os números dos jogadores aos 25 anos, 9 meses e 6 dias, idade de Messi ao fim de março de 2013
- Messi tem 32 gols pela Argentina – Faltam 2 para superar Maradona
- Messi já conquistou 12 títulos pelo Barcelona* – Maradona e Pelé respectivamente tinham 4 e 9 em seus clubes
- Com a mesma idade de Messi, Pelé havia feito 815 gols em sua carreira – Messi, “apenas” 343 gols

Uma disputa entre os números de Pelé, Messi e Maradona (Fotos: Ag. Globo :: Reuters :: Press Lamina)
- Maradona tem uma média de 0,37 gol por jogo pela Argentina – Messi tem média de 0,41 gol
* Apenas campeonatos nacionais e internacionais com mais de dois participantes
Tags: Campeonato Espanhol., Copa de 2014, Cristiano Ronaldo, dribles, Falcao García, Felipão, futebol, Gabriel Batistuta, Johan Cruijff, Juan Pablo Sorín, La Pulga, Liga dos Campeões, Lionel Messi, Maradona, melhor do mundo da Fifa, Olimpíadas de Pequim, Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Seleção, Thiago Messi Roccuzzo, Zico



















































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