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Cuba

13/05/2013

às 15:00 \ Política & Cia

Demétrio Magnoli: “Guantánamo é a síntese da barbárie judicial engendrada pela ‘guerra ao terror’. Obama tem a obrigação de resgatar seu compromisso de campanha e fechar a prisão

O lado externo da prisão que integra o complexo da base norte-americana de Guantánamo, em Cuba: longe dos melhores valores defendidos pelos Estados Unidos (Foto: Reuters)

 Artigo de Demétrio Magnoli publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo

“É ineficiente, fere nossa posição internacional, reduz a cooperação com nossos aliados nos esforços de contraterrorismo, é uma ferramenta de recrutamento para extremistas e precisa ser fechada”, explicou Barack Obama, para concluir no ponto certo: “É contrária àquilo que somos”.

O presidente americano referia-se à prisão de Guantánamo, onde cerca de 100 dos 166 detentos prosseguem numa greve de fome deflagrada por alguns deles mais de dois meses atrás. Ele não disse, claro, mas Guantánamo também é o nome da traição: o signo de um compromisso de princípios desonrado pelo próprio Obama.

A promessa de fechar a prisão offshore foi proclamada solenemente na primeira campanha presidencial, em 2008. No segundo mês de seu mandato original, Obama assinou uma ordem executiva para fechá-la, mas enfrentou feroz resistência bipartidária no Congresso.

Os parlamentares cortaram os fundos necessários à transferência de prisioneiros e adotaram diversas medidas destinadas a evitar que fossem enviados a qualquer outro lugar. O presidente tinha as alternativas de vetar as decisões parlamentares ou de utilizar prerrogativas do Executivo para circundá-las, mas preferiu inclinar-se.

Consenso político que, vergonhosamente, interliga o governo de Obama ao de Bush

Agora, quando assegura uma vez mais que Guantánamo “é contrária àquilo que somos”, ele precisa invocar a História e a Constituição para ocultar um consenso político que, vergonhosamente, interliga seu governo ao de George W. Bush.

Bush, seu vice, Dick Cheney, e seu secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ergueram a prisão ilegal no curso de uma “guerra ao terror” que também borrou a assinatura de sucessivos presidentes americanos nas leis internacionais contra a tortura.

Obama prometeu restaurar o princípio que separa a civilização da barbárie e, de fato, proscreveu os métodos desumanos de interrogatório aplicados nos anos sombrios de seu predecessor.

Hoje, todavia, duas dezenas de prisioneiros de Guantánamo são submetidos a técnicas de alimentação forçada que violam seus direitos individuais e, para todos os efeitos, equivalem a tortura. Na expressão “aquilo que somos” está contida uma aspiração à eternidade. Entretanto, as nações mudam e mesmo os princípios mais sagrados estão sujeitos ao inclemente desgaste causado pela traição continuada.

O sociólogo e geógrafo Demétrio Magnoli (Foto: Lailson Santos)

Guantánamo é a síntese da barbárie judicial engendrada pela “guerra ao terror”. Concluídas as investigações, nenhuma acusação pesa sobre 86 dos detentos. Muitos deles deveriam ter sido soltos há anos, mas permanecem encarcerados, pois, sob alegações de “segurança nacional”, o Congresso proibiu tanto sua liberação em solo americano quanto o repatriamento para os países de origem.

Os demais, por decisão parlamentar, não podem ser processados por tribunais civis, mas também não são julgados pelas “comissões militares” inventadas nos tempos de Rumsfeld, cujos trabalhos foram interrompidos quando seus procedimentos se revelaram insanavelmente ilegais.

A greve de fome dos prisioneiros esquecidos, essas relíquias humanas dos anos de fúria, representa, objetivamente, um gesto de defesa das liberdades individuais e do império da lei. “Aquilo que somos”: neste momento, o rosto barbado dos detentos islâmicos de Guantánamo forma uma imagem exata dos princípios inscritos nos textos fundadores dos EUA.

O nome “Guantánamo” funciona como uma senha mágica para os “companheiros de viagem” dos tiranos

Os valores fundamentais, “aquilo que somos”, não deveriam ser pesados no prato da balança dos interesses utilitários. Mas Obama tem razão em sublinhar a “ineficiência” de Guantánamo, especialmente contra o pano de fundo do atentado terrorista em Boston.

Dzokhar Tsarnaev invocou o Afeganistão e o Iraque como motivações para a carnificina planejada pelos dois irmãos. Terroristas sempre terão pretextos para explodir pessoas inocentes. No limite, o vocabulário dos extremistas não exige mais que palavras como “imperialismo”, “capitalismo” ou “judeus”.

Entretanto, nada se compara à força persuasiva da verdade: as imagens dos detentos de Guantánamo, essas provas emaciadas de um poder que não reconhece o limite da lei, são uma “ferramenta de recrutamento” mais eficiente que qualquer discurso produzido na fábrica de ódio do jihadismo.

Guantánamo “fere nossa posição internacional”. É isso, e mais: Guantánamo fere a luta pelos direitos humanos e pelas liberdades civis no mundo inteiro. Seguindo uma triste tradição do governo Lula, Dilma Rousseff mencionou o nome da prisão offshore na sua visita a Cuba, no início de 2012, como pretexto para silenciar sobre a morte de um preso político em greve de fome na ilha dos ditadores amigos.

O nome funciona como uma senha mágica, um toque de reunião para os “companheiros de viagem” dos tiranos. Ele constava do dossiê infame preparado pela Embaixada de Cuba no Brasil contra Yoani Sánchez e foi repetido como um mantra pelos que tentaram cobrir sua voz com gritos insultuosos.

A chantagem dos “fanfarrões e covardes” que comandaram a política antiterror de Bush

Ele emerge ritualmente nos discursos dos chefes chavistas que ameaçam trancafiar opositores e fechar órgãos de imprensa.

Obama enuncia perfeitamente os males imensos causados pela prisão de Guantánamo, mas ainda vacila ante o imperativo de fechá-la.

Como explicou um editorial da revista The Economist, a chantagem dos “fanfarrões e covardes” que comandaram a política antiterror de Bush consiste em apontar os riscos de liberar os suspeitos de terrorismo encarcerados sem acusação.

O mito da bomba-relógio que faz tique-taque é o argumento clássico dos advogados da tortura. A resposta a essa malta de arautos da violação dos direitos humanos deveria ser clara e direta: muito pior que a ameaça hipotética de violência representada por esses indivíduos singulares é a desmoralização dos pilares filosóficos que sustentam as liberdades e os direitos.

Guantánamo é um trunfo dos jihadistas e dos tiranos. Se o presidente americano quer conservar “aquilo que somos”, tem a obrigação de, finalmente, resgatar seu compromisso de campanha.

13/05/2013

às 14:00 \ Política & Cia

ACREDITE SE QUISER, E VEJA O VÍDEO: O MST seleciona jovens brasileiros para cursar Medicina em Cuba. E depois essa turma quer tratar de doentes no Brasil

"O socialismo é o futuro. Espero voltar para meu país e implantar esta semente revolucionária que estou aprendendo aqui e que está me nutrindo"

"O socialismo é o futuro. Espero voltar para meu país e implantar esta semente revolucionária que estou aprendendo aqui e que está me nutrindo"

“O socialismo é o futuro. Espero voltar para meu país e implantar esta semente revolucionária que estou aprendendo aqui e que está me nutrindo”, diz a garota brasileira no final deste vídeo postado no YouTube por Dárcio Bracarense.

Como outros jovens do vídeo, eles foram selecionados pelo MST — sim, pelo “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra” — estudar Medicina em Cuba.

Antes de ir, os jovens são “avaliados” pelo próprio MST e pela Embaixada de Cuba no Brasil.

Mérito? Currículo? Passagem obrigatória pelo ensino fundamental, básico, terceiro grau, colegial etc etc?

Não se fala nisso. A única coisa que parece interessar nesse peculiaríssimo método de seleção é o fervor por Cuba.

E depois essa turma vai querer revalidar o diploma para trabalhar no Brasil… Já pensaram?

06/05/2013

às 18:53 \ Política & Cia

BOLIVARIANISMO EM ANDAMENTO: Não faltava mais nada — o governo quer trazer 6 mil médicos cubanos para o Brasil. PERGUNTO: por que SÓ cubanos? Há médicos precisando de emprego na Espanha, em Portugal…

Amigos e amigas do blog, vejam a notícia abaixo publicada pela oficial Agência Brasil.

Pergunto: por que médicos de CUBA? Ou, melhor: por que SÓ médicos de Cuba???

A Europa vive uma crise brutal. Há médicos querendo emigrar em vários países, inclusive na Espanha, país muitíssimo mais adiantado do que Cuba, ou em Portugal, para não mencionar outros de idiomas mais distantes do português.

Estarei paranoico se julgar que Cuba tem outros interesses — interesses políticos, ideológicos, doutrinários, estratégicos — ao enviar esse exército de profissionais para cá? Todos devidamente educados sob a feroz ditadura dos irmãos Castro?

Vejam o que aconteceu na Venezuela. Perguntem para conhecidos de lá, ou para amigos que lá estiveram. Pesquisem em fontes imparciais e constatem o papel doutrinador que muitos desses médicos exerceram — em favor do chavismo e do maluco “socialismo do século XXI” — justamente nas comunidades mais carentes e com menos nível de informação.

Muito bom que nosso governo pretenda ter médicos em regiões carentes, uma vez que, embora com número de profissonais suficientes para atender a população, nossos médicos preferem se concentrar em grandes regiões urbanas e relutam trabalhar em localidades sem infraestrutura — justamente as mais carentes dos serviços deles.

Mas pergunto de novo: por que SÓ de Cuba?

Leiam e julguem vocês mesmos — e atenção para “o excelente intercâmbio de ideias” que está ocorrendo entre os dois governos:

Renata Giraldi — Repórter da Agência Brasil

Brasília – Os governos do Brasil e de Cuba, com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde, estão acertando como será a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalharem nas regiões brasileiras mais carentes.

Os detalhes estão em negociação. Os ministros das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e o cubano Bruno Eduardo Rodríguez Parrilla, anunciaram hoje (6) a parceria.

Patriota e Rodríguez não informaram como será a concessão de visto – se será definitivo ou provisório. Segundo o chanceler brasileiro, há um déficit de profissionais brasileiros na área de saúde atuando nas áreas carentes do país, daí a articulação com Cuba.

“Estamos nos organizando para receber um número maior de médicos aqui, em vista do déficit de profissionais de medicina no Brasil. Trata-se de uma cooperação que tem grande potencial e à qual atribuímos valor estratégico”, disse ele.

As negociações para o envio dos médicos cubanos para o Brasil foi iniciada pela presidenta Dilma Rousseff, em janeiro de 2012, quando visitou Havana, a capital cubana. Ela defendeu uma iniciativa conjunta para a produção de medicamentos e mencionou a ampliação do envio de médicos cubanos ao Brasil, para apoiar o atendimento no Serviço Único de Saúde (SUS).

“Cuba tem uma proficiência grande na área de medicina, farmacêutica e de biotecnologia. O Brasil está examinando a possibilidade de acolher médicos por intermédio de conversas que envolvem a Organização Pan-Americana de Saúde, e está se pensando em algo em torno de 6 mil ou pouco mais”, destacou Patriota.

Segundo o chanceler brasileiro, as negociações estão em curso, mas a ideia é que os profissionais cubanos atuem nas áreas mais carentes do Brasil. “Ainda estamos finalizando os entendimentos para que eles possam desempenhar sua atividade profissional no Brasil, no sentido de dar atendimento a regiões particularmente carentes no Brasil”, disse.

A visita do chanceler de Cuba ocorre no momento em que o presidente cubano, Raúl Castro, implementa mudanças no país, promovendo a abertura econômica e avanços na área social. Segundo Bruno Rodríguez, a parceria com o Brasil é intensa principalmente nas áreas econômica, social e turística. “Há um excelente intercâmbio de ideias”, disse o cubano.

O comércio entre Brasil e Cuba aumentou mais de sete vezes no período de 2003 a 2012, segundo o Ministério das Relações Exteriores. De 2010 a 2012, as exportações brasileiras para Cuba cresceram 36,9%. No ano passado, o comércio bilateral alcançou o recorde de US$ 661,6 milhões.

05/05/2013

às 13:02 \ Disseram

Sabe o que foram fazer os parlamentares que visitaram Cuba no dia do Trabalho? Fernando Ferro explica:

“Foram lá beber na fonte.”

Fernando Ferro, deputado federal (PT-PE), justificando a viagem de sete parlamentares brasileiros a Cuba, às expensas dos contribuintes brasileiros, para assistir às festividades de 1° de Maio e bajular os gerontocratas Fidel e Raúl Castro

18/04/2013

às 15:30 \ Vasto Mundo

VÍDEO: Deputada de oposição da Venezuela ironiza a vassalagem do chavismo a Cuba: “Senhor Raúl Castro, autorize a recontagem dos votos”

Vale a pena assistir ao vídeo abaixo em que a deputada María Corina Machado, de oposição mas não filiada a partidos políticos, desafia o governo da Venezuela a acabar com a crise decorrente das denúncias de fraude na eleição presidencial vencida por estreita margem pelo sucessor indicado pelo falecido Hugo Chávez, Nicolás Maduro:

– Abram as urnas e contem os votos.

Denunciando a intromissão de Cuba nos assuntos de seu país, ela ironizou, pedindo ao ditador cubano, Raúl Castro, que “autorize” a recontagem manual de votos.

A eleição foi por votação eletrônica, mas cada eleitor recebeu um comprovante em papel que deposita na urna, o que propicia eventuais recontagem. Apesar das denúncias da oposição de que houve 3.200 casos de irregularidades, o Conselho Nacional Eleitoral, dominado por partidários de Chávez, recusou-se a recontar os votos.

margem

15/04/2013

às 2:06 \ Livros & Filmes

VENEZUELA: Apertadíssima vitória eleitoral do herdeiro de Chávez torna ainda mais oportuno e interessante este extraordinário livro sobre o “comandante” e o chavismo. Além do mais, é ótimo de ler

Maduro, agora presidente eleito: se com Chávez o chavismo já era complicado, com ele o desafio é ainda maior (Foto: Palácio de Miraflores / Reuters)

Nicolás Maduro, o presidente interino indicado pelo falecido caudilho Hugo Chávez, está eleito, como se sabe, para um mandato presidencial de seis anos — mas o que surpreendeu a opinião pública internacional foi a mínima diferença que o separou do oposicionista Henrique Capriles (50,66% dos votos para Maduro, 49,07% para Capriles), uma diferença espantosamente pequena, diante da colossal vantagem de que dispunha o candidato oficial, onipresente nos 8 canais estatais de TV e em virtual campanha eleitoral há pelo menos quatro meses.

Capriles teve míseros 10 dias para se dirigir ao eleitorado. Não por acaso, está contestando os resultados e exigindo uma recontagem de votos – tarefa inglória, uma vez que o Conselho Nacional Eleitoral, órgão responsável pelas eleições, é independente apenas no papel.

O resultado parece indicar uma complicada trajetória para Maduro — como conduzir e manter no poder o chavismo sem Chávez?

Para os muitos leitores que, constato, se interessam pelo fenômeno, acaba de ser lançado, com enorme oportunidade, um livro vital para entender a Venezuela e o chavismo, e para ajudar a imaginar como será o futuro sem o caudilho: Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez (Editora Intrínseca, 304 páginas, 29,90 reais). É um livro raro, a começar pela isenção de quem o escreveu — o jornalista irlandês Rory Carroll, correspondente durante seis anos do jornal britânico de tom progressista The Guardian para a América do Sul, sempre baseado em Caracas.

Menos interessado em tomar partido entre chavistas e antichavistas, Carroll, jovem (40 anos) mas experiente jornalista que já viu quase de tudo na vida profissional — incluindo um sequestro sofrido no Iraque –, partiu para centenas de entrevistas com ideólogos do regime, ministros, estudiosos de todos os matizes, figurões caídos em desgraça, generais destronados, sindicalistas, integrantes de “conselhos populares” criados por Chávez, políticos de oposição e gente comum do povo.

Além das entrevistas, consultou centenas de cadernos de anotações que acumulara em caixas durante seus seis anos no país. Em vez de escrever um manifesto, contra ou a favor, alinhavou fatos e sempre indicou as fontes.

O resultado é, a meu ver, um retrato riquíssimo do Chávez caudilho (que inclui preciosidades inéditas sobre o Chávez pessoa), do chavismo e de como ficou a Venezuela após 14 anos de reinado do ex-coronel golpista.

Publico, a seguir, resenha desse grande, imperdível livro escrita pelo repórter David Blair, do tradicional jornal britânico The Daily Telegraph:

* * * * * * * * * * * * *

Nem um heroico aliado dos pobres, nem um déspota demente

Existirá palavra que traga em si mais poder de intoxicação do que “revolução”? Quando um ativista carismático proclama o advento de uma “revolução socialista” num recanto apropriadamente exótico da América Latina, a tendência de não poucos analista do Ocidente é deixar de lado a racionalidade.

Assim foi com Fidel Castro e, talvez inevitavelmente, com Hugo Chávez, o autodefinido presidente “revolucionário” da Venezuela, que morreu de câncer no dia 5 de março passado. Para muita gente, Chávez foi de duas, uma: ou um heroico aliado dos pobres ou um déspota demente, com poucos conseguindo ficar no meio desses dois extremos.Comandante

A possiblidade de que Chávez possa ter sido uma figura complexa, um ser humano real capaz do praticar o bem e de fazer o mal perdeu-se entre personalidades como o ex-prefeito socialista de Londres Ken Livingstone, que o saudou certa vez como “amigo e camarada”, ou John Bolton, o rei dos neocons norte-americanos, que chegou a denunciar Chávez como uma “ameaça global”.

Na verdade, o ex-prefeito de Londres e o fiel escudeiro de George W. Bush tinham mais em comum do que qualquer dos dois quisessem admitir. Ambos julgaram Chávez com seus próprios preconceitos ideológicos e com a insustentável leveza de quem vive a milhares de quilômetros da Venezuela.

Rory Carroll, correspondente para a América do Sul do jornal britânico The Guardian baseado em Caracas, entre 2006 e 2012, realmente viveu o dia-a-dia venezuelano e tenta demolir a figura caricatural de Chávez como modelo de perfeição como vilão no livro Comandante – A Venezuela de Hugo Chávez. Carroll, irlandês, 40 anos de idade, consegue oferecer uma visão equilibrada e repleta das necessárias nuances de Chávez e sua “Revolução Bolivariana”.

Paralalamente a isso, porém, o autor consegue ir mais longe. Além de traçar um raro e detalhado retrato pessoal e político de Chávez, este livro extremamente bem escrito e dotado de fina percepção equivale a uma meditação sobre a natureza do poder, e os extremos de absurdo e corrupção que ele pode encerrar.

Na TV, Chávez anuncia: foi o “imperialismo” que destruiu a civilização que havia em Marte

No livro, o leitor vai se deparar com batalhões de subalternos de todos os matizes às voltas com os incontáveis dilemas que significam servir a um homem que se comportava como um monarca absoluto.

Para sobreviver na corte do Rei Chávez, os ministros precisavam “transformar as expressões faciais em máscaras, arranjar os traços em expressões apropriadas quando diante de uma câmera ou na linha de visão do comandante”, escreve Carroll. “Isto”, acrescenta, “era traiçoeiro quando o comandante fazia algo bobo ou bizarro porque a resposta requerida poderia contrariar o instinto”.

E ele, efetivamente, fazia coisas bobas ou bizarras. Chávez conduzia um programa semanal de TV intitulado Alô, Presidente, que tinha hora para começar mas nunca para terminar. Seu recorde foi permanecer nove horas e meia consecutivas no ar, ao vivo. Certa vez, num dos programas, ele anunciou que uma próspera civilização havia existido em Marte até que “o imperialismo chegou e destruiu o planeta”.

Chávez ao vivo pela TV: seu recorde foi permanecer 9 horas e meia no ar, sem interrupções. E ali chegou a demitir altos funcionários expulsando-os de campo com um apito, como juiz de futebol (Foto: Palácio de Miraflores)

Como deveriam seus ministros reagir ao histrionismo do comandante? “Mesmo para veteranos na audiência, muitas vezes não ficava claro se se tratava ou não de uma piada”, escreve Carroll. “Então eles faziam cara de paisagem, à espera de que a situação se esclarecesse. Mas isso nunca acontecia: o comandante mudava de um assunto para outro sem parar”.

Esse tipo de dificuldade certamente contribuiu para que, durante seu reinado, Chávez tenha tido 180 ministros.

Com apito de juiz de futebol, e ao vivo, ele demitia ministros

Chávez lançava mão de seu programa de TV para anunciar demissões ou promoções, abolir ministérios inteiros, expropriar empresas e, em uma ocasião pelo menos, mobilizar as Forças Armadas contra a Colômbia.

[De outra feita, Chávez demitiu ao vivo, perante todo o país, figurões do governo, executivos graúdos da gigante petrolífera estatal PDVSA, sem avisá-los previamente. “Eddy Ramírez, diretor geral, até hoje, da divisão Palmaven [energia elétrica] (…), muito obrigado. O senhor está dispensado!” E soprou um apito, como se fosse um juiz de futebol mandando um jogador para o vestiário. O público ovacionou, e o ‘comandante’ continuou seguindo a lista: (…) “Carmen Elisa Hernández. Muito, muito obrigado, señora Hernández, pelo seu trabalho e serviço”. A voz destilava sarcasmo, e ele soprou o apito de novo: “Impedimento!“]

Carroll foi convidado do presidente no capítulo 291 do programa de TV. Ele teve a ousadia de perguntar a Chávez por que ele estava propondo ao Legislativo uma emenda à Constituição permitindo sua reeleição por um número indeterminado de vezes, sem contudo estender a mesma possibilidade a governadores e prefeitos.

“Ele lançou a pergunta para o mar, para além do horizonte [o programa se realizava numa pequena cidade do litoral], e a transformou numa arenga contra os males da mídia tendenciosa, da hipocrisia europeia, da monarquia, da rainha da Inglaterra, da Marinha Real, da escravidão, do genocídio e do colonialismo”, conta o jornalista.

Chávez e sua multidão de seguidores: o "socialismo bolivariano" foi conduzido por um "autocrata eleito", diz o autor do livro (Foto: patriagrande.com.ve)

A roubalheira, uma marca corrosiva

Enquanto isso, os ministros que trabalhavam para um homem que mandava gravar seus telefonemas e não raro os demitia por mero capricho tornaram-se figuras risíveis e dignas de pena. “O sucesso – conseguir uma posição cobiçada – acabava se tornando um inferno”, escreve Carroll.

Não é de admirar que tanta gente tenha optado por rechear seus bolsos com a renda do petróleo da Venezuela, juntando-se a um festival de corrupção que se tornou a marca mais corrosiva do reinado de Chávez. [O que o livro descreve em matéria de roubalheira, inclusive por parte de generais das Forças Armadas, faz o Brasil parecer um país de conto de fadas.]

Ainda assim, em meio a absurdos e excessos, o comandante continuou sendo um líder eleito, sujeito a constante crítica por parte de uma barulhenta imprensa de oposição. Carroll isenta Chávez de ser um ditador: ele, na verdade, apesar de tudo — sustenta o jornalista –, ganhou quatro eleições e não havia gulags ou câmaras de tortura na Venezuela.

Expurgo no Judiciário e lista negra

Mas Carroll descreve detalhadamente como Chávez feriu seus críticos, expurgou o Judiciário e utilizou uma lista negra com as 3 milhões de pessoas que assinaram um manifesto em 2003 pedindo um plebiscito revogatório — medida prevista na Constituição e que significa votar pela saíde de um político eleito.

Funcionários públicos que puseram seus nomes no fatídico documento foram demitidos, muitas outras pessoas foram caluniadas e perseguidas. Carroll acaba fazendo a Chávez a concessão de descrevê-lo como “um autocrata eleito”.

Um flerte com o suicídio

Ao longo de seu trabalho, o jornalista oferece uma memorável série de passagens. Como Chávez encurralado no subterrâneo do Palácio Miraflores durante um levante popular que acabou, via golpe de Estado, sacando-o do poder por efêmeras 48 horas. Durante um breve momento, ele fixou o olhar numa pistola e pensou em suicídio, voltando à razão após um telefonema de Fidel Castro.

Também ficamos sabendo como o general Raúl Baduel, o oficial que resgatou Chavez naquele momento de crise, congregando as Forças Armadas para restaurar o poder do comandante, foi mais tarde demitido de seu cargo de ministro da Defesa e jogado numa cela de prisão, por suposta acusação de corrupção.

O amigável âncora do programa de TV que construiu clínicas nas favelas, recheando-as de médicos importados de Cuba, acabou sendo moldado pelo poder em um dirigente cruel e vingativo.

Agora que o comandante morreu, Carroll terá que atualizar seu relato. Quando ele o fizer, este livro merecerá ser o trabalho definitivo sobre Chávez.

(Nota do colunista: tecnicamente, o jornalista Rory Carroll — hoje correspondente do jornal em Los Angeles, nos EUA — atualizou o livro nas páginas finais, descrevendo algo brevemente a doença e a lenta agonia de Chávez até  sua morte. O autor desta resenha, porém, se refere a como o chavismo sobreviverá à morte do caudilho, o que com certeza demandará algum tempo e merecerá alguns capítulos a mais na provável reedição da obra).

26/02/2013

às 11:00 \ Vasto Mundo

Entrevista com Yoani Sánchez: ‘Tentam me calar porque divulgo a Cuba real’ — em que, para sobreviver, as pessoas precisam roubar do Estado para vender no mercado negro

Yoani Sánchez, sobre o Brasil: “Solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar” (Foto: AE)

Yoani Sánchez, sobre o Brasil: “Solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar” (Foto: AE)

A blogueira cubana Yoani Sánchez descreve um sistema de saúde à beira do colapso e uma economia na qual, para sobreviver, é preciso roubar do Estado
Branca Nunes e Duda Teixeira

“Solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar”. Apesar das manifestações hostis de um grupo de simpatizantes da ditadura dos irmãos Castro que enfrentou na passagem pelo Brasil, a frase resume a lembrança que Yoani Sánchez levará do país.

O recado aos baderneiros ligados a partidos de esquerda é igualmente conciso: ela sugere que morem em Cuba para conhecer a “realidade de um mercado racionado, dualidade monetária, falta de liberdade e impossibilidade de se manifestar na rua”.

Com os intermináveis cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, saboreando uma pastilha para aliviar a rouquidão e com a expressão serena de quem efetivamente acredita no que diz, a jornalista cubana relatou nesta sexta-feira à reportagem de VEJA um pouco do cotidiano dos moradores da ilha no Caribe. Leia trechos da entrevista.

Como a senhora viu as manifestações hostis dos últimos dias?

Por um lado me sinto feliz por estar num país onde existe liberdade democrática e pluralidade.

O problema é quando essas manifestações impedem e boicotam algo tão pacífico quanto a apresentação de um documentário ou uma sessão de autógrafos. Acho contraditório usar um espaço democrático para impedir que alguém se expresse livremente.

A senhora ficou amedrontada?

Não, porque conheço esses métodos do meu país: a coação e a difamação. Infelizmente, nos últimos anos vivi situações semelhantes em Havana e outras cidades.

Eles conhecem a realidade cubana?

Lamentavelmente, a maioria não conhece meu país, minha história ou meus textos. Eles acreditam numa Cuba estereotipada, uma ilha de esperança, com liberdade para todos. Cuba não vive um comunismo, mas um capitalismo de estado.

Recomendaria que cada um deles morasse um tempo em Cuba para viver na pele a realidade de um mercado racionado, dualidade monetária, falta de liberdade, impossibilidade de se manifestar na rua.

Depois desse tempo, duvido que continuem a defender o governo cubano. Tentam me calar porque divulgo uma Cuba menos parecida com o discurso político e mais parecida com a rua. Uma Cuba real.

Que Cuba é essa?

Uma Cuba linda, mas difícil. É importante diferenciar Cuba de um partido, de uma ideologia, de um homem. Ela é muito mais do que isso.

É um país onde as pessoas precisam esconder suas opiniões com medo de represálias, onde muitos jovens querem emigrar por falta de expectativa, onde o estado tenta controlar todos os detalhes da vida.

Onde colocar um prato de comida em cima da mesa significa submergir-se diariamente à ilegalidade para conseguir dinheiro.

Muitas pessoas de vários países costumam elogiar o sistema de saúde e o sistema educacional de Cuba. Esses elogios são pertinentes?

Nos anos 70 e 80, Cuba viveu o florescimento de toda a estrutura de saúde e educação. Foram construídas escolas e postos de saúde em toda parte graças aos subsídios soviéticos.

Quando a União Soviética caiu, Cuba teve que voltar à realidade econômica. Os professores imigraram por causa dos baixos salários, a qualidade diminuiu e a doutrina aumentou. Exatamente como na área da saúde.

Hoje, quando um cubano vai a um hospital, leva um presente para o médico. É um acordo informal para que o atendam bem e rápido. Levam também desinfetante, agulha, algodão, linha para as suturas.

O governo usa a existência de um sistema gratuito de saúde e educação para emudecer os críticos, silenciar a população.

Não passo todos os dias doente ou aprendendo, quero ler outros jornais, viajar livremente, eleger meu presidente, poder me manifestar, protestar.

Como funciona o sistema de aposentadoria em Cuba?

Esse é um dos setores mais pobres.

Um aposentado ganha cerca de 15 dólares conversíveis por mês.

Como a maioria dos cubanos não vive do salário, mas do que pode roubar do Estado dentro do local de trabalho [para vender no mercado negro], quando se aposenta ele perde essa fonte de renda.

Em Havana é possível ver muitos velhos vendendo cigarros nas ruas.

Que tipo de racionamento existe em Cuba e como ele funciona?

Cada cubano tem direito a uma cota mensal de alimento com preços subvencionados pelo estado.

Estudos dizem é possível se alimentar razoavelmente bem por duas semanas com essa cota. Nela existe arroz, açúcar – que por sinal é brasileiro –, um pouco de café, azeite e, às vezes, frango.

Para sobreviver a outra metade do mês os cubanos precisam ter os pesos conversíveis. O salário médio na ilha é de 20 dólares. Um litro de leite custa 1,80 dólares.

Por isso, as pessoas apelam para a ilegalidade: roubam do estado e vendem no mercado negro, prostituem-se, exercem atividades ilegais, como dirigir taxis ou vender produtos para os turistas. Graças a isso e às remessas enviadas pelos cubanos exilados é possível sobreviver. Uma revolução que rechaçou esses exilados agora depende deles.

A senhora disse que os gritos de ordem dos manifestantes brasileiros já não se escutam mais em Cuba. Qual lhe surpreendeu mais?

“Cuba sim, ianques não”, por exemplo. É uma expressão fora de moda. Em Cuba não usamos mais a palavra ianque para os americanos. Ela é usada apenas nos slogans políticos.

Falamos yuma, que não pejorativo. Ao contrário, mostra um certo encanto em relação a eles.

A propaganda oficial, de ataques aos Estados Unidos e ao imperialismo, criou um sentimento contrário ao esperado.

A maioria dos jovens hoje é fascinada pelos americanos.

Até acho ruim esse enaltecimento por outro país, mas é uma realidade.

O que os cubanos nascidos depois da revolução acham de figuras como Fidel Castro e Fulgêncio Batista [o ditador derrubado pela revolução castrista em 1959]?

Nasci em 1975, quando tudo já estava burocraticamente organizado. Na escola, apresentavam Fidel como o pai da pátria. Era ele quem decidia quantas casas seriam construídas, o que iríamos vestir.

Na juventude, Fidel passou a ser uma figura distante.

Diferentemente dos nossos pais, que viveram uma fascinação pela figura de Fidel, minha geração é mais crítica. O Fulgêncio Batista era o ditador anterior. A revolução tirou um ditador do poder e se converteu em uma ditadura.

As gerações mais antigas continuam fiéis à revolução?

Existem os que creem realmente na revolução, sem máscaras nem oportunismo, um pequeno grupo.

Os que já não creem, mas não querem aceitar que se equivocaram, porque entregaram a ela seus melhores anos, e aqueles que deixaram de acreditar no sistema e se transformaram em pessoas críticas.

Em 2007, o governo brasileiro deportou os boxeadores cubanos Guilhermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que tentavam o exílio na Alemanha. Qual sua opinião sobre isso?

O governo brasileiro teve um triste papel neste caso, de cumplicidade. Quando os atletas retornaram, o governo cubano fez um linchamento público na imprensa oficial, com vários insultos.

Fidel Castro falou na televisão que um deles foi visto com uma prostituta na praia. Os filhos e a mulher desse homem foram expostos a isso.

Foi um episódio bastante lamentável.

Por que a ditadura cubana ainda tolera suas críticas?

Penso que a visibilidade que alcancei me protege. Sou vigiada constantemente, meu telefone é grampeado e existe uma série de mecanismos e estratégias para matar a minha imagem. Se não podem matar a pessoa, matam sua imagem.

A senhora é frequentemente acusada de receber dinheiro de governos contrários a Cuba para manter seu blog. Qual a origem desses rumores?

Faz parte da estratégia de difamação: não discutir as ideias, mas a pessoa.

Para ter um blog é preciso muito pouco dinheiro. O meu está num software livre, o WordPress, e fica hospedado num servidor da Alemanha que custa 36 euros por ano.

Em 2006, um amigo alemão pagou vários anos a esse servidor.

Quanto à conexão, aprendi alguns truques. Por exemplo, vou a um hotel e compro um cartão de conexão que custa 6 dólares a hora. Como preparo quatro ou cinco textos em casa, programo para que sejam publicados em dias diferentes.

Com esse método, consigo me conectar mais de cinco vezes com um único cartão. No twitter, publico via mensagem de texto.

Que lembranças levará do Brasil?

Muita solidariedade, pluralidade e, principalmente, o desejo de voltar. O pão de queijo também me encantou. Vou levar uma mala cheia deles para Cuba.

24/02/2013

às 13:19 \ Disseram

O “ghost writer” de Chávez ataca no twitter?

“Chegamos novamente à Pátria venezuelana. Obrigado meu Deus! Obrigado povo amado! Aqui continuaremos o tratamento”

Hugo Chávez, ou algum ghost writer do caudilho venezuelano, em sua pagina do Twitter, anunciando o retorno ao país depois de mais de dois meses em Cuba, onde se submeteu a uma cirurgia para extirpar um câncer

23/02/2013

às 13:03 \ Disseram

Yoani Sánchez: “Um protesto assim em Cuba, contra um convidado do governo, não duraria mais do que dois minutos”

“Um protesto assim em Cuba, contra um convidado do governo, não duraria mais do que dois minutos”

Yoani Sánchez, blogueira cubana, sobre a tentativa de militantes do PT e do PCdoB de intimidá-la durante sua visita ao Brasil, demostrando de maneira simples a diferença entre uma democracia e a ditadura defendida pelos manifestantes

20/02/2013

às 15:21 \ Política & Cia

Visita de Yoani: deputados como esses envergonham o país e não merecem estar na Câmara

Os deputados Amauri Teixeira, Francisco Escorcio e Perpétua Almeida: baderneiros antidemocráticos que não merecem os votos que tiveram

Os deputados Amauri Teixeira, Francisco Escorcio e Perpétua Almeida: baderneiros antidemocráticos que não merecem os votos que tiveram

Amigas e amigos do blog que são democratas e amam a liberdade de expressão, anotem aí no seu caderninho os nomes de alguns deputados energúmenos e fascistoides — além de extraordinariamente sem-educação — que ajudaram hoje a tumultuar trabalhos na Câmara dos Deputados em protesto pela visita pela blogueira cubana dissidente Yoani Sánchez:

Amauri Teixeira (PT-BA)

Francisco Escórcio (PMDB-MA)

e

Perpétua Almeida (PCdoB-BA).

São baderneiros antidemocráticos que não merecem os votos que tiveram.

Numa Casa em que um princípio básico é a convivência de contrários, eles — mas não apenas eles, infelizmente — são uma excrescência.

De forma elegante diante de protestos de parlamentares e penetras defensores da ditadura cubana, a blogueira havia dito, pouco antes, depois de observar os trabalhos da Câmara, algo em que os deputados fascistoides deveriam refletir:

– O parlamento do meu país tem uma triste história: nunca disse “não” a uma lei. Nunca viu um debate como hoje, aqui, com diferenças e contraposições. No meu parlamento isso é impossível.

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