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Prosperidade em meio ao caos

Apesar de ter um ambiente desfavorável aos negócios, o Brasil virou um terreno fértil e dinâmico para a criação e o desenvolvimento de startups

À primeira vista, o Brasil parece um dos terrenos mais inóspitos do mundo para quem pretende plantar uma semente de negócios. Para começar, o país sofre ainda os efeitos de sua maior desaceleração econômica em décadas. Sem falar na burocracia que precisa ser enfrentada por quem deseja abrir ou fechar uma empresa. Para completar, temos aqui seguidos escândalos de corrupção, um maior que o outro. Apesar desse cenário, do ponto de vista do empreendedorismo, a nação prospera em meio ao caos. Em 2018, por exemplo, nasceram os primeiros unicórnios brasileiros, como são conhecidas as startups avaliadas em 1 bilhão de dólares. E esse número não para de crescer, assim como a quantidade de startups em geral. Em outubro, a fintech de pagamentos Ebanx juntou-se ao grupo de unicórnios, que já conta com Loggi, 99, iFood, Movile, Nubank, Gympass, Stone, Arco Educação, PagSeguro, Easy Taxi, Quinto Andar, Creditas, CargoX, Sem Parar…

Outro movimento muito interessante diz respeito ao corporate venture, aqui entendido como as diversas modalidades de investimento e estímulo à inovação corporativa, ou seja, conduzida pelas grandes empresas. Dependendo da proposta, elas podem atuar em diversos papéis: incubadora, aceleradora, coworking etc. A onda de corporate venture vem crescendo geometricamente e cerca de duas centenas de companhias já têm algum tipo de investimento dessa natureza. O que chama atenção é que esse esforço se amplia mesmo em um ambiente de economia estagnada. A explicação é que a inovação é cada vez mais percebida pelas empresas como uma vantagem competitiva e uma questão de sobrevivência. Há ainda o senso de oportunidade. É verdade que uma taxa de crescimento abaixo de 1% não costuma fazer brilhar os olhos de ninguém. Mas é verdade também que setores prosperam em todas as crises. No terremoto financeiro de 2008, que teve como epicentros os Estados Unidos e a Europa, várias empresas dos setores exportadores do Brasil quebraram ou ficaram à beira da falência. Enquanto isso, companhias nacionais focadas no mercado doméstico prosperaram.

As startups de alta tecnologia são empresas novas e que se encontram no primeiro estágio de suas operações. Elas costumam nascer em setores intensivos em conhecimento, como aeronáutico, farmacêutico, eletrônico, tecnologia da informação e comunicação, negócios ópticos e de precisão e digitais, comércio eletrônico, plataformas da internet, aplicativos e jogos digitais. A ascensão do empreendedorismo e o crescente movimento de startups de alta tecnologia em determinadas regiões do país são o resultado do estabelecimento de um ambiente favorável aos negócios, com base científica, com investidores e um setor financeiro interessado em fazer investimentos em projetos de alto risco.

“Em 2018, nasceram os primeiros unicórnios brasileiros. E esse número não para de crescer”

Há uma série de iniciativas de estímulo para quem deseja se aventurar nessa área. O programa Finep Startup oferece apoio financeiro de até 1 milhão de reais a empresas nascentes de base tecnológica. O Pite, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), financia projetos de pesquisa em instituições de ensino superior, públicas ou privadas, e suas parceiras no Brasil e no exterior. A Lei do Bem (11196/05) estabelece incentivos fiscais automáticos para as empresas que tenham atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). O Finep Conecta financia, com taxas de juros menores e prazos maiores, projetos em que empresas se unem a instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação (ICTs) para o desenvolvimento de tecnologias. Ele apoia investimentos de até 500 milhões de reais. O BNDES Inovação ajuda a bancar inovações disruptivas ou incrementais de produtos, processos e marketing. O valor mínimo dos financiamentos é de 10 milhões de reais.

Devido a iniciativas desse tipo, o Brasil possui hoje o ambiente de inovação mais maduro da América Latina. Segundo o Global Startup Ecosystem Report (GSER), estudo mundial sobre startups lançado anualmente pelo Startup Genome, a cidade de São Paulo figura entre os trinta ecossistemas mais promissores do mundo. A metrópole também é destaque nos segmentos de fintech e saúde e encontra-se entre os top ten em ecossistemas globais para talentos. O país conta com organizações como a Financiadora de Estudos e Projetos do governo federal (Finep), que lançou ainda em 2009 seu projeto de apoio a startups na América Latina, o Prime; a Apex, com seu StartOut para apoiar a internacionalização de empresas brasileiras; organizações internacionais como a Endeavor (organização sem fins lucrativos que orienta e acelera empreendedores que atua no Brasil desde 2000); novos aceleradores como Dínamo e Startup Farm. Não por acaso, empresas como Google e Facebook estabeleceram em São Paulo sua sede na América Latina. O Google fez um primeiro lote de startups de residentes em 2017. E nomes icônicos do ecossistema de empreendedorismo global chegaram ao país, como a 500 Startups e também a PlugandPlay em 2019. O Brasil precisa continuar multiplicando seus unicórnios e colher resultados efetivos dos nossos esforços em investimentos na área do corporate venture. A China já ultrapassou os Estados Unidos em número de unicórnios. O Brasil lidera esse ranking na América Latina, o que é uma boa notícia. Falta ganhar escala para competir na “Liga dos Campeões” do empreendedorismo.

* Moacir de Miranda Oliveira Jr. é coordenador do Programa de Gestão da Inovação e da Tecnologia da Fundação Instituto de Administração (FIA) e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP)

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663