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O sucesso dos apps que simulam efeitos de substâncias psicoativas

O 'barato sonoro' ganha adeptos entre os jovens e têm no Brasil um mercado relevante

Por Marília Monitchele Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 10 jun 2023, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 10h39
O sucesso dos apps que simulam efeitos de substâncias psicoativas Priorizar nos meus resultados Google

A proposta é ousada e um tanto difícil de acreditar: em vez de usar substâncias psicoativas para alterar o estado de consciência, qualquer pessoa poderia sentir efeitos semelhantes apenas escutando ondas sonoras programadas para enganar o cérebro. Para isso, basta ter um bom fone de ouvido e baixar os aplicativos que prometem levar a “alterações na percepção da realidade”. Um desses apps, o iDoser, guarda um banco de sons que, teoricamente, seriam autênticas “drogas digitais”. Embora pareça uma “viagem” sem sentido, o barato auditivo tem muitos adeptos. Uma pesquisa global feita com 22 países e publicada no periódico Drug and Alcohol Review aponta que 5% da população já buscou programinhas do gênero. O Brasil é o terceiro colocado em número de usuários, atrás de México e Estados Unidos. A partir de entrevistas com quase 31 000 pessoas, os pesquisadores identificaram que o consumo desses produtos é maior entre pessoas de 16 a 20 anos. Segundo o levantamento, elas buscam relaxar, mudar de humor ou obter efeitos similares aos dos entorpecentes.

As supostas drogas digitais são baseadas em uma tecnologia quase bicentenária. Em 1839, o cientista alemão Heinrich Wilhelm Dove notou a capacidade de o cérebro detectar a variação de sons quando captados separadamente pelos ouvidos. A pesquisa de Dove mostrou que, para tentar compensar essa diferença, o cérebro sincroniza o funcionamento dos hemisférios esquerdo e direito, o que resulta em uma nova frequência, o chamado som binaural. Para simplificar: essa onda é gerada quando as pessoas escutam dois sons com frequências próximas, mas não iguais — hoje em dia, isso é possível com o simples uso de fones de ouvido.

Os tais barulhos binaurais têm sido usados há um bom tempo em exercícios de meditação que ajudariam a reduzir o estresse, aumentar a concentração e melhorar a qualidade da memória e do sono. Recentemente, contudo, passaram a ser associados a efeitos alucinógenos. O iDoser, o mais famoso de sua família, cobra valores entre 16 e 25 reais para fornecer “doses de ondas cerebrais binaurais para cada humor imaginável”, segundo a descrição oficial. Há outros, muito procurados, como o Audible Acupuncture e o iAwake.

DROGA DIGITAL - O aplicativo iDoser: falsas promessas
DROGA DIGITAL - O aplicativo iDoser: falsas promessas (//Divulgação)

De fato, a música oferece experiências sensoriais capazes de despertar sentimentos diversos, que podem variar do frenesi tresloucado à melancolia absoluta. Segundo especialistas, essas variações pontuais, contudo, não podem ser comparadas em nenhuma hipótese àquelas provocadas por substâncias narcóticas. “O uso de drogas psicoativas tem uma interação com o cérebro que não depende apenas de nossa percepção”, diz a psicóloga Caroline Curty. “Trata-se de uma modificação bioquímica causada pela interatividade entre diferentes compostos.” É algo muito diferente do que fazem aplicativos como o iDoser.

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Embora as ondas binaurais, mesmo em suas mais variadas frequências, não sejam capazes de emular os efeitos provocados pelo uso de drogas, não são inofensivas. A estimulação auditiva excessiva pode ser um problema no longo prazo porque o uso de fones de ouvido em volume exagerado aumenta o risco de surgimento de zumbidos no ouvido. Além disso, a aparente ineficácia das drogas pode levar o usuário para outros caminhos, esses, sim, mais obscuros. “Ao experimentar essas batidas e identificar que parecem inofensivas, os jovens podem se sentir encorajados a buscar entorpecentes de verdade”, diz o otorrinolaringologista Manoel de Nóbrega. Por isso, é fundamental um grito de alerta: atenção à vida digital dos jovens e aos usos que fazem dos aparelhos eletrônicos.

Publicado em VEJA de 14 de Junho de 2023, edição nº 2845

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