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Motorola é nossa nova IBM, diz executivo da Lenovo

Presidente da marca chinesa na América Latina defende estratégia de ganhar mercado a partir da compra de marcas estabelecidas. No Brasil, alvo foi a CCE

O israelense Dan Stone, de 37 anos, lidera os esforços da Lenovo – maior fabricante de computadores do mundo – no Brasil. Após comandar a estratégia mundial da fabricante chinesa por cinco anos, ele chegou ao país em 2012, como presidente da companhia na America Latina e gerente-geral no Brasil. No novo cargo, viajou o Brasil para realizar a integração das operações da Lenovo e da brasileira CCE, adquirida há pouco mais de um ano, e reforçar os laços com os varejistas. Já foram investidos 6 milhões de dólares na modernização das fábricas da CCE para a produção de uma linha de smartphones e tablets com preços abaixo de 1.000 reais. “A aquisição tornou a Lenovo e a CCE mais fortes do que as duas empresas conseguiriam se tornar sozinhas”, diz o executivo. A estratégia de avançar no mercado a partir da aquisição de marcas estabelecidas não é exclusividade no Brasil. Em 2005, a Lenovo despontou no cenário da tecnologia ao arrematar a divisão de computadores da gigante IBM, um ícone do segmento. Deu certo: no fim do ano passado, e Lenovo assumiu a dianteira do ranking de maiores fabricantes de PCs do mundo – hoje, um mercado decadente, registre-se. Em janeiro deste ano, os chineses repetiram a tacada. Compraram, do Google, a Motorola Mobility, tradicional fabricante de dispositivos móveis americana por 3 bilhões de dólaras. É possível repetir o sucesso dos PCs? “A Motorola nos ajudará a crescer em escala e vamos ganhar uma presença maior em várias partes do mundo, em especial nas Américas”, diz Stone. Na entrevista a seguir, o executivo fala sobre as estratégias da marca – no mundo e o Brasil.

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A Lenovo cresceu no mercado de PCs após a aquisição da divisão de PCs da IBM, em 2005. A compra da Motorola tem o mesmo objetivo, agora voltado ao segmento de celulares? Naquela época, já estávamos na primeira posição em PCs na China e tínhamos bons produtos e um time de pesquisa e desenvolvimento bem estruturado. Ao comprar o negócio da IBM, ganhamos presença em outros cem países – da noite para o dia. Nós também ganhamos presença no mercado corporativo. Isso nos permitiu continuar crescendo e chegar ao primeiro lugar em PCs. Também ganhamos muito com a compra da Motorola. Ganhamos uma marca muito forte e tradicional, uma empresa que tem uma cultura de pesquisa e desenvolvimento e um ótimo time de produtos complementares aos da Lenovo. A Motorola nos ajudará a crescer em escala e vamos ganhar uma presença maior em várias partes do mundo, em especial nas Américas. Em resumo, a aquisição é similar à da divisão da IBM à medida em que as empresas envolvidas são complementares. Ao mesmo tempo, é diferente pelo fato de que hoje a Lenovo é uma empresa muito mais forte do que em 2005.

Crescer por meio de aquisições faz parte do DNA da empresa? Nós crescemos por meio de aquisições, mas também de forma orgânica. Os bons resultados da aquisição da CCE, por exemplo, são similares aos alcançados após outras aquisições. Alguns mercados têm necessidades únicas e, nesses casos, as compras nos permitem entrar com a força da nossa operação global atendendo ao mesmo tempo demandas locais.

O que muda depois da compra da Motorola? Nós já temos um negócio de smartphones relevante. Estávamos próximos do terceiro lugar no mercado antes mesmo da aquisição. Mas a Motorola tem uma marca forte e uma posição importante nas Américas Latina e do Norte, o que complementa nossa posição na Ásia e em outros mercados emergentes. Agora, podemos potencializar nossa operação global e nossas equipes de pesquisa e desenvolvimento. Vamos continuar apostando em smartphones com a marca Lenovo, mas também em aparelhos da Motorola.

Como competir com a Samsung e a Apple, gigantes que lideram o mercado global de celulares? Quando a Lenovo comprou a divisão de PCs da IBM, éramos desconhecidos em várias partes do mundo, onde marcas tradicionais lideravam. Hoje, a Lenovo é uma líder global em PCs. A aquisição da Motorola fortalece a posição da Lenovo, ao mesmo tempo em que aumenta a competição em países dominados por esses concorrentes. A Motorola tem um relacionamento forte com 50 operadoras em todo o mundo e relacionamento com distribuidores nos Estados Unidos, América Latina, Oriente Médio e Ásia. A Lenovo levaria anos para estabelecer esse relacionamento sozinha.

Qual a importância da CCE para o futuro da Lenovo? A CCE oferece os melhores produtos por um preço baixo, o que nos deu a capacidade de atender quem quer comprar o seu primeiro notebook, tablet ou smartphone. Ela é complementar, porque a Lenovo já atende clientes corporativos e usuários em busca de produtos premium. Com a aquisição da CCE, nós estendemos nosso portfólio no Brasil e aumentamos o contato com os varejistas. Além disso, incorporamos também um grande grupo de executivos, que conhece o mercado brasileiro há muitos anos.

Antes da aquisição, você sabia que a marca CCE não tinha uma boa reputação entre os consumidores no Brasil? Todas as decisões da Lenovo são baseadas em muita pesquisa e planejamento. As aquisições precisam se encaixar em nossa estratégia global. A Lenovo levou algum tempo para encontrar o parceiro certo no Brasil, mas a CCE trouxe benefícios incríveis. Ela é uma das marcas mais conhecidas pelos brasileiros e é líder em vendas no Norte e Nordeste do país. A aquisição tornou a Lenovo e a CCE mais fortes do que as duas empresas conseguiriam se tornar sozinhas.

A Lenovo é líder em PCs, mas o ano de 2013 foi o pior da história em vendas desses produtos. Quais são os planos para o futuro? O mercado de PCs continuará existindo. Estamos otimistas, pois o segmento ainda é forte e as pessoas continuam precisando de computadores. Ao mesmo tempo, sabemos que os produtos estão em transformação e que é cada vez mais difícil definir o que é um PC, um tablet ou smartphone. Nossa missão é conectar pessoas com dispositivos. Se esse dispositivo é um PC, um tablet, um smartphone, isso não importa para nós.

Você foi o executivo por trás da estratégia da Lenovo durante cinco anos. Qual foi o seu principal desafio no cargo? Descobrir como fazer a empresa seguir em frente. A Lenovo é muito grande, mas nos movemos muito rápido quando decidimos seguir em uma direção. Nossa estratégia de proteger nossa posição nos mercados em que atuamos e atacar em novos segmentos é muito simples, mas é muito difícil estabelecer isso em apenas uma página e fazer com que os mais de 50.000 funcionários entendam. Aprendi que, em estratégia, o problema não é ter a melhor resposta, mas, sim, ter a resposta que leve a empresa na direção correta. Isso se tornou um lema para mim.

Você disse que liderar a Lenovo no Brasil tem sido uma “jornada pessoal”. Por quê? Quando cheguei ao Brasil, a empresa vendia 100.000 unidades de produtos a cada três meses. No último trimestre de 2013, chegamos a 1,5 milhão de unidades. Então, aumentamos o negócio em quinze vezes em dois anos. Nesse período, compramos a CCE, aumentamos nosso time de 300 para mais de 5.000 funcionários e construímos uma fábrica em Itu, no interior de São Paulo. Aprendi muito nesse período, me desenvolvi como executivo e fiz muitas amizades. Para mim, tem sido uma verdadeira jornada.