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Executivo que morreu com “senha do cofre” de bitcoins pode ser exumado

Clientes não acreditam que o fundador da corretora QuadrigaCX morreu com segredo que guarda 600 milhões de reais em moeda virtual

Por André Lopes - 20 dez 2019, 16h58

Num artigo publicado em agosto de 2008 no site Cryptography Mailing, no qual propôs o lançamento da primeira criptomoeda, batizada de bitcoin, o misterioso Satoshi Nakamoto — provavelmente um pseudônimo — assegurou: “Criamos um sistema para transações eletrônicas que não depende da confiança” (nos bancos, por exemplo). O canadense Gerald ¬Cotten, fundador da QuadrigaCX, uma corretora de bitcoins, sem confiança em ninguém, guardou para si a senha de um cofre de bitcoins com o montante de 600 milhões de reais na moeda virtual depositados em sua empresa.

Cotten temia ser roubado por hackers e, para se proteger, recorreu a um sistema conhecido como cold storage (câmara fria), que mantém os bitcoins desconectados, sem contato com a internet, por meio de pen drives — ou, como no seu caso, salvos em um notebook criptografado. Com a morte do proprietário da QuadrigaCX em 9 de dezembro de 2018, cerca de 115 000 clientes — que, ironicamente, confiaram na corretora — ficaram a ver navios.

Nesta sexta-feira, 20, investidores indignados pediram por meio de seus advogados que as autoridades canadenses façam a exumação do corpo de Cotten, com a intenção de garantir que ele esteja realmente morto. O conto suspeito foi relatado pela primeira vez em fevereiro, quando a esposa de Gerry Cotten, fundador da bolsa QuadrigaCX, enviou uma declaração afirmando que ele morreu repentinamente enquanto passava férias na Índia, aos 30 anos. A causa, ela escreveu: complicações da doença de Crohn, uma condição intestinal que raramente é fatal. Jennifer Robertson, a viúva, testemunhou que não tinha a senha, nem a chave de recuperação do notebook que guardava os bitcoins.

Para dar cabo da história que deve tirar Cotten do descanso eterno, além de uma investigação do Supremo Tribunal da Nova Escócia, o FBI também está conduzindo uma investigação sobre a empresa em conjunto com o IRS, o procurador do Distrito de Columbia dos EUA e a Seção de Crimes Digitais e Propriedade Intelectual do Departamento de Justiça dos EUA. Uma das investigações já descobriu circunstâncias que alguns podem achar suspeitas. Segundo o NY Times, um relatório da Ernst & Young (empresa de auditoria contratada pelo Supremo Tribunal da Nova Escócia) disse que o QuadrigaCX, durante sua operação, não criou nenhum “registro corporativo básico”, incluindo registros contábeis.

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Mais preocupante ainda, o relatório observou que a corretora transferiu “volumes significativos de criptomoeda” para contas pessoais mantidas pela Cotten em outras empresas. O relatório também documentou a transferência de “fundos substanciais” para Cotten, pessoalmente, sem justificativa clara do motivo.

Ainda não está claro de que forma a exumação e a autópsia levariam à recuperação da criptomoeda que sumiu. Mas eles podem ajudar bastante a confirmar ou desmembrar as alegações de que Cotten morreu na data e da maneira como foi divulgado aos seus clientes.

Tal roteiro hollywoodiano é o tipo de acontecimento que seria impensável para a maioria das instituições financeiras tradicionais. No mundo desregulado das criptomoedas, desaparecimentos ou mortes são corriqueiros. Dá para confiar?

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