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‘Esperamos abrir um porto espacial no Brasil’, diz criador do Virgin Group

O magnata Richard Branson quer pôr turistas em órbita já no próximo ano e ressuscitar os aviões supersônicos em voos transcontinentais

O britânico Richard Branson é uma daquelas pessoas que parecem viver várias vidas em uma só. Abandonou a escola aos 16 anos por puro tédio — disléxico, ele tinha dificuldade em acompanhar as aulas — e fundou uma revista para jovens. Os anúncios na publicação lhe deram a ideia de abrir uma loja de discos baratos, que serviu como centelha para fundar uma gravadora. E assim, de empresa em empresa, Branson chega aos 69 anos de idade à frente de um império formado por mais de 400 companhias: o Virgin Group, com faturamento estimado em 20 bilhões de dólares por ano. Amigo de algumas das pessoas mais poderosas do planeta, ele tanto circula nos ambientes mais restritos do mundo — como quando foi condecorado com o título de Cavaleiro Real no Palácio de Buckingham — quanto oferece, ele mesmo, a exclusividade — foi em sua ilha particular no Caribe que Barack Obama passou seus primeiros dias de descanso ao deixar a Casa Branca. De passagem pelo Brasil a convite do Experience Club, e também para promover o início dos voos de sua companhia aérea no país, onde estreia a rota São Paulo-­Londres em 29 de março, Branson recebeu VEJA no hotel em que se hospedou na capital paulista.

O Brasil está em um momento econômico difícil, e o dólar alto inibe viagens ao exterior. Por que entrar no país agora? O mundo está uma bagunça no momento, não é só o Brasil. A Virgin Atlantic se encontra em uma fase de expansão, e entrar no Brasil nos abre as portas da América do Sul. Estou esperançoso de que os problemas que vêm ocorrendo no Brasil, nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, enfim, de que eles vão melhorar nos próximos anos. Queremos estar aqui em São Paulo, a capital dos negócios da América do Sul, para servir os empresários e empresas multinacionais baseados aqui. Não há como entrar neste continente sem passar pelo Brasil, e estamos apostando nisso.

A empresa vai oferecer preços mais baixos ao brasileiro? Os dois operadores da rota São Paulo-Londres são parceiros. Do ponto de vista do consumidor, não há concorrência. Vamos, então, oferecer uma alternativa com mais qualidade no serviço. É claro que preço é importante, e fazemos de tudo para não levantar voo com assentos vazios. Como há hoje um quase monopólio na rota, nossa entrada com certeza vai baixar o preço da passagem. Mas temos de tomar cuidado para não confundir as coisas: não somos uma low-cost.

Há interesse em operar dentro do país? Muito possivelmente. Na Índia, começamos com Delhi, depois passamos a fazer Mumbai e agora ampliamos a oferta de voos a partir de Delhi. Mas nosso interesse não é só em aviação. Quando entramos em um país com a Virgin Atlantic, abrimos as portas para outros negócios do grupo. A marca passa a ser conhecida, o que facilita muito. Na Austrália, por exemplo, montamos uma companhia aérea local, depois a Virgin Money, voltada para serviços financeiros, a Virgin Active, de academias de ginástica e spas, e a Virgin Mobile, de telefonia celular. Com o tempo, é muito provável que aumentemos nossa presença no Brasil.

Podemos já imaginar brasileiros voando no espaço? Já temos brasileiros inscritos para ir ao espaço com a Virgin Galactic. Fiz uma palestra recentemente aqui em São Paulo, e perguntei ao público quem gostaria de viajar para o espaço em um de nossos foguetes. Acho que 99% das pessoas levantaram a mão. Se tudo correr como nós esperamos, poderemos, sim, abrir um porto espacial no Brasil.

Já há uma data para o primeiro voo comercial ao espaço? Fizemos um voo com cinco pilotos de teste há alguns meses. Deu tudo certo, e temos outros planejados. Assim que estivermos prontos, serei o primeiro não piloto a fazer a viagem. Estou excitadíssimo, espero há muito tempo por isso. Desde que o homem pisou na Lua, para ser honesto. Vai ser fantástico.

O senhor está fazendo um treinamento especial para quando o dia chegar? Eu treino para a vida. Sou um grande entusiasta da vida ativa e saudável. Treino normalmente para kitesurf, para o surfe, jogo tênis, ando de bicicleta. São esportes que sinto prazer em praticar. E aqui e ali eu faço um teste na câmara de centrifugação, para acostumar o corpo às condições do voo espacial.

E como é a sensação? Os mais de 700 inscritos para nossos primeiros voos espaciais já fizeram o teste, e todos se saíram bem. A câmara replica os efeitos da viagem no corpo humano quase que à perfeição. Nenhuma das pessoas desistiu da viagem depois do teste, e acho que ele as deixa mais confortáveis.

“Serei o primeiro não tripulante a fazer a viagem espacial. Estou excitadíssimo, espero há muito tempo por isso. Desde que o homem pisou na Lua, para ser honesto”

Além das viagens espaciais, há um projeto para trazer de volta as viagens supersônicas, ou seja, aviões que ultrapassem a barreira do som. Estamos perto? O problema é que ainda estamos longe de uma viagem supersônica que não agrida o meio ambiente. E isso é fundamental para nós. Nossos engenheiros estão trabalhando nisso, alguns concorrentes também estão tentando. Acabo de vir de Londres ao Brasil e demorei onze horas. Seria maravilhoso fazer esse percurso em uma hora. Mas aí eu cheguei a São Paulo e demorei duas horas e meia do aeroporto ao hotel. Vocês devem ficar loucos com esse trânsito. Temos uma empresa chamada Virgin Hyperloop, que opera veículos sobre trilhos eletromagnéticos, e acredito que seria uma excelente opção para reduzir essas mais de duas horas do aeroporto à cidade a não mais que vinte minutos.

Como? Temos um trilho de testes com 500 metros de extensão no deserto, perto de Las Vegas. E temos o nosso primeiro projeto na Índia, entre Mumbai e Pune, de 180 quilômetros de comprimento, que começaremos a construir ainda neste ano. De carro, a viagem demora mais de cinco horas. É uma estrada perigosa, onde ocorrem muitos acidentes com mortes todos os anos. Vamos construir um trilho ao longo da via que já existe, e uma cápsula vai levitar sobre ele graças à energia eletromagnética. Teremos painéis solares por todo o percurso para abastecer os equipamentos, então a energia é 100% limpa.

Quando estará aberto ao público? É um projeto longo, assim como a Virgin Galactic. A viagem espacial já está demorando quinze anos. Acho que o hyperloop vai tardar uns cinco anos, mas eu disse exatamente a mesma coisa sobre a Virgin Galactic em 2004. Sou um otimista, e estou chegando a uma idade em que quero que as coisas aconteçam rápido. Vamos usar a Índia para aprender como fazer. Daí ficará mais fácil replicar o projeto no Brasil ou em outro lugar.

Por que a Índia? Porque o governo indiano se esforçou para isso. Conseguir 180 quilômetros de terra em uma área densamente povoada seria, em condições normais, impossível. Mas o primeiro-ministro Narendra Modi se envolveu e conseguiu o espaço e as permissões. Se alguém do Brasil nos ligar com as mesmas condições, viremos na hora.

O senhor não acreditava no aquecimento global, mas se converteu em um defensor de medidas drásticas a favor do meio ambiente. O que o fez mudar de ideia? Isso foi há muito, muito tempo. Sou um otimista inveterado, procuro sempre o lado feliz das coisas. Preferia acreditar que havia exagero nos alertas dos ambientalistas. Mas quando conversei pela primeira vez com o ex-vice-presidente americano Al Gore, e depois com outros cientistas, ficou muito claro que o planeta está com um problema. Desde então, ajudei a organizar e a montar várias instituições para atacar esse problema. Criamos prêmios para incentivar os gênios que vão conseguir capturar carbono da atmosfera, entre outros.

“A União Europeia foi criada porque todas as gerações até 1950 guerrearam entre si. A ideia era garantir que, em vez de nos matarmos, pudéssemos viajar e trabalhar juntos”

Fez mudanças também na vida pessoal? Parei de comer carne. A pecuária é, objetivamente, a maior inimiga da floresta. Quanto mais gente comer carne, mais a floresta será destruída. Muitas das empresas da Virgin deixaram silenciosamente de oferecer carne. Se o cliente pede, nós entregamos, mas descobrimos que 99% das pessoas ficam felizes com uma alternativa à carne se nós a disponibilizamos.

O senhor está em uma indústria que é das maiores poluidoras do mundo. Há um contrassenso aí? Eu sei, é óbvio. Mas não acredito que devemos parar de voar. Precisamos usar nossas habilidades e conhecimento para mitigar o problema. Compensar as emissões de carbono ajuda, e é o que estamos fazendo. Vamos compensar 100% de nossas emissões em 2020. Também contribuímos com o Sistema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional (Corsia, na sigla em inglês), que vai investir em projetos nessa área em todo o planeta. Além disso, há 25 anos só usamos aviões de fibra de carbono, porque gastam menos combustível e poluem menos. Virou uma obsessão minha.

Como convencer, então, quem ainda é cético? Cético é aquele que não escuta a ciência. Ou, na vida pública, são pessoas que recebem muito dinheiro das indústrias de carvão e de petróleo para suas campanhas políticas. Não conheço ninguém a quem respeito que diga que as mudanças climáticas não são uma realidade. O público precisa tomar conhecimento das evidências científicas e, honestamente, mudar seus hábitos. Se há políticos estragando o futuro de nossos filhos e netos, precisamos trocá-los.

O senhor tem sido enfático em sua posição contrária ao Brexit. Trata-se de uma decisão econômica ou há mais em jogo? A União Europeia foi criada porque todas as gerações até 1950, sem exceção, guerrearam entre si no continente. A ideia de formar a UE era garantir que, em vez de nos matarmos, pudéssemos viajar, nos casar e trabalhar juntos. Quebrar esse pacto é uma loucura. Achei que nunca aconteceria, mas já vemos esse levante de extremismo em certos países. As guerras podem voltar. E também há questões mais práticas: por que depois de tanto tempo teremos de pagar taxas toda vez que um produto vier do continente para a Inglaterra? Você conversa com um brexiteer (pessoa favorável à saída da União Europeia) típico e ele vai argumentar: “Ah, a Europa criou todas essas leis sem sentido”. Mas, se você analisar, as leis são extremamente sensatas. Encorajam a concorrência, protegem os trabalhadores. Sempre digo: “Mostre uma só lei absurda”. Não vem! Lá atrás, a Virgin não podia voar entre a Itália e a França. Agora podemos. Se o Brexit vingar, estaremos banidos novamente.

 

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663