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Em busca do ‘homem digital’

Projeto MyLifeBits propõe a ideia - já em curso - de registrar em formato digital tudo o que acontece em nossas vidas e legar tudo isso à posteridade

No início dos anos 2000, quando o pesquisador da Microsoft Gordon Bell passou a carregar diariamente uma câmera, um gravador de voz, um GPS e dispositivos eletrônicos que monitoravam seus sinais vitais, não faltou quem o julgasse excêntrico – uma forma gentil de chamá-lo de louco. O objetivo, contudo, era bastante racional e visionário. Bell queria reunir em formato digital o maior número possível de registros sobre a própria vida e, em seguida, explorá-los a partir de softwares especialmente projetados para esse fim. O projeto foi batizado MyLifeBits. Hoje, ninguém mais pensa que Bell é louco. Afinal, já estão disponíveis serviços que utilizam ideias originadas no projeto. O caso mais famoso é o Google Health, que permite o armazenamento do histórico médico de usários e a posterior navegação pelos dados. Em caso de emergência, o pronto-socorro, por exemplo, pode acessar as informações e salvar a vida do paciente. “Estudos já mostraram que recursos hospitalares – e até mesmo vidas – são poupados quando se reduz os erros relacionados a alergias a medicamentos e coisas do tipo. Um histórico médico apropriado pode fazer isso”, diz Jim Gemmell, também pesquisador da Microsoft e parceiro de Bell no MyLifeBits e na redação do livro Total Recall, que trata do tema. Mas os benefícios médicos são apenas um dos frutos do MyLifeBits. Outra ideia, que, segundo Gemmell, será plenamente realizada no futuro, é a criação de um avatar virtual de cada um de nós, a partir de registros de todas as nossas atividades diárias. “É muito interessante pensar que as gerações futuras poderão interagir com uma versão virtual nossa”, diz Gemmell. Será a chance de nossos netos e bisnetos saberem o que fazemos, que lugares visitamos, qual o tom de nossa voz e assim por diante. Confira a seguir os principais trechos da entrevista que o especialista concedeu ao site de VEJA por telefone.

A partir do conhecimento acumulado pelo MyLifeBits o senhor já propôs “imortalizar” uma pessoa a partir dos registros digitais gerados por ela. Como seria isso?

Sim, nós escrevemos um capítulo chamado “Vida e pós-vida” no livro Total Recall, em que nós abordamos o tema da imortalidade digital. Pense no registro que você deixa quando morre. No passado, as pessoas deixavam alguns objetos e algumas caixas com papéis e fotos. Agora, deixam um HD com informações suficientes para lotar caminhões de papéis e fotos. Então, no futuro, se tivermos o registro de todos os seus e-mails e tuítes, várias gravações de você falando – para que possamos saber como você conversa e quais palavras usa -, arquivos sobre a sua vida – dos lugares onde esteve e das coisas que fez -, poderems produzir um avatar seu bastante convincente. Um programa que finge ser você, de modo que poderíamos perguntar: “Como você conheceu tal amigo?”, e o avatar responderia. O desafio de construir esse avatar não é a inteligência, mas, sim, a falta de registros sobre uma determinada pessoa. Com o MyLifeBits, esperamos ter os dados. É muito interessante pensar que as gerações futuras poderão interagir com uma versão virtual nossa.

Seria como perguntar alguma coisa para a minha avó?

Sim, exatamente. Eu adoraria perguntar para minha avó como ela conheceu meu avó.

Quanta memória é necessária para registrar a vida de uma pessoa?

Depende da qualidade do registro que se quer fazer. Quando começamos o projeto, pensamos que uma pessoa poderia bater dez fotos ao longo do dia, gravar oito horas de áudio e guardar tudo o que lê. Se quiser também gravar vídeos de baixa qualidade 24 horas por dia, precisará de um terabyte por ano. Ou seja, 100 terabytes para uma vida toda.

Como navegar por essa infinidade de informações?

Vários programas já aproveitam esses dados. Usamos com eficiência crescente métodos como a busca por termos que identifique os conteúdos armazenados ou a “mineração de dados”. Um exemplo desse último é aplicado à saúde. A partir de informações do organismo do paciente colhidas por sensores eletrônicos – como batimento cardíaco e pressão, entre outras -, depreendem-se padrões, tendências e correlações entre esses dados. Outra possibilidade é o uso de programas de resumo automático para contar partes da vida de uma pessoa. Eles são capazes de identificar quais informações são mais relevantes e elaborar uma síntese. Por exemplo: o software identifica quais, entre várias fotos, são aquelas que têm o melhor contraste e iluminação. Outros ainda são capazes de apontar se uma foto, vídeo ou documento é importante a partir da análise do que você faz desses arquivos: se assiste a um vídeo várias vezes, é sinal de que se trata de algo importante.

Então é possível acessar os arquivos e fazer seu computador compilar os acontecimentos mais importantes da sua vida nos últimos cinco anos, por exemplo?

Sim. Digamos que você queira relembrar alguma passagem ocorrida há muito tempo. Você pode usar todos os registros que possui: as milhares de fotos, os milhões de dados provenientes de dispositivos que monitoram a saúde, seus e-mails e as páginas da web que visitou. Os softwares ajudam a apontar quais eram seus sites preferidos naquela época em questão, quais suas fotos mais bonitas e para as quais olhava mais.

Gordon Bell, Jim Gemmell Gordon Bell, Jim Gemmell

Gordon Bell, Jim Gemmell (/)

Esses registros devem ter apenas uso pessoal ou é possível imaginar algo além disso?

Nós só estamos interessados no uso pessoal. Enxergamos os registros como um diário digital, que contém muitas informações íntimas. Algumas pessoas defendem que seria uma extensão do seu cérebro, uma espécie de prótese do cérebro.

Se eu precisar, por exemplo, reencontrar um documento nos meus arquivos, sem lembrar de quase nada do seu conteúdo, mas sabendo que eu o recebi quando estava conversando pelo telefone com um amigo, posso fazer uma busca e encontrar o que procuro?

Com certeza. Temos o software para fazer exatamente isso. É possível escolher qualquer informação que tem no seu LifeBits e perguntar ao sofware: “Quais dos meus registros ocorreram simultaneamente?” Ou: “Que registros tenho localizados em São Francisco quando a temperatura estava acima de 26 °C?” Por isso, devemos reunir todas as informações possíveis, para navegar por todas elas. Podemos nos lembrar de algo que aconteceu em um dia quente ou em um dia frio, de quem nos acompanhava naquele dia. Só por ter a informação, a sua vida já fica mais fácil. Se eu, subitamente, me sentir mal, vou explicar a um médico que não sei exatamente quando comecei a apresentar os sintomas e que talvez estivesse com febre. No futuro, apresentarei um gráfico mostrando a minha temperatura, e o médico vai saber exatamente quando que comecei ter febre. Nós teremos dados para tomar decisões, ao invés de depender das nossas lembranças, que são imprecisas, ou da nossa subjetividade. Isso vai ser um avanço muito importante para a medicina.

Essa já é uma realidade próxima?

Antes mesmo de termos os aparelhos do projeto MyLifeBits, já existiam produtos chegando ao mercado para lidar com essas questões, como alguns que armazenam informações médicas essenciais em dispositivos de memória para, por exemplo, um paciente apresentar a seu médico em caso de urgência. Hoje, meus dados médicos estão espalhados por consultórios, hospitais, laboratórios e até dentista. Mas já existe a possibilidade de reuni-los todos comigo. Muitos estudos já mostraram que recursos hospitalares – e até mesmo vidas – são poupados quando se reduzem os erros relacionados a alergias a medicamentos e coisas do tipo. Um histórico médico apropriado pode fazer isso. A Microsoft tem um serviço de armazenamento de todos os seus dados médicos chamado de HealthVault e o Google possui um concorrente chamado Google Health.

O seu colega Gordon Bell desfruta dos benefícios da tecnologia?

Sim. Durante todo o tempo. Ele obteve todos os seus registros médicos, digitalizou-os e agora tem um pen-drive com todos os documentos sobre sua saúde. Ele leva tudo consigo quando vai ao hospital. Isso é muito útil pois ele tem uma doença cardíaca e é quem apresenta as informações aos médicos.

Quanto tempo levará para que outros produtos cheguem ao mercado?

O MyLifeBits é um projeto muito amplo e ambicioso. Nós percebemos que era muito até para a Microsoft dar conta. Nós financiamos 14 universidades, para que elas fizessem pesquisas nessa área. Elas pensaram em ideias de todos os tipos. Uma delas era destinada a pessoas envolvidas com ecoturismo e servia para que elas compartilhassem informações sobre espécies em seu habitat. Isso poderia ser utilizado para fins de conservação ambiental. Outro exemplo é um produto chamado Reqall: ao cadastrar seu telefone ali, você pode enviar instruções de voz para sua conta. As instruções são transcritas e reenviadas para você na forma de e-mails. É possível dizer: “Lembre-me de comprar leite”. Da próxima vez que você estiver no supermercado, o serviço dará o lembrete.