Clique e Assine a partir de R$ 19,90/mês

Crianças são expostas em redes sociais

Páginas são criadas sem que os menores saibam e adultos autorizem

Por Somini Sengupta, The New York Times 26 nov 2011, 15h12

Não apenas você deixa suas digitais eletrônicas em todo lugar, como também pode levar junto os amigos online de site para site, mesmo que eles não tenham interesse

Um algoritmo online pode rastrear seu filho? Em alguns casos, sim. E, se você for pai, isso também pode alarmá-lo. Considere o caso de Maggie Leifer McGary, mãe, blogueira e fã de mídia social. Maggie está praticamente em todas as redes sociais que existem: Foursquare, LinkedIn, Twitter, Facebook. Ela também faz parte do Klout, site popular que atribui pontos baseado numa análise do quanto você é influente na rede social. Pouco antes do Dia das Bruxas, McGary levou o maior susto da sua vida quando foi conferir o perfil no Klout. Pairando sobre a pontuação estavam os rostos e nomes daqueles que ela havia influenciado, pelos cálculos do Klout. Eles incluíam seu filho de 13 anos, Matthew.

O menino não havia criado uma página no Klout para si; ele apenas era “amigo” dela no Facebook, para que a mãe pudesse monitorar suas interações por lá. O Klout havia criado uma página automaticamente para ele e lhe atribuído uma pontuação. Depois Mimi, a filha de 15 anos de McGary, apareceu em sua página no Klout -desta vez não com pontuação própria, era só um lembrete para a blogueira convidá-la a participar. “Eu pirei porque eles são os meus filhos”, disse McGary, 43, que mora num subúrbio de Washington e cuida da mídia social de uma associação de profissionais da saúde. “Isso é errado. Não deveriam fazer marketing para crianças.”

O Klout diz que não faz. E depois desse alvoroço, o Klout não cria mais perfis automaticamente, nem de menores, nem de ninguém mais, e todo usuário agora pode apagar seu perfil por completo. O clamor envolvendo o Klout é uma parábola do que pode acontecer quando se tem uma vida social digital ativa. Não apenas você deixa suas digitais eletrônicas em todo lugar como também pode levar junto os amigos online de site para site, mesmo que eles não tenham interesse em ir para lá. O Klout coleta informações de indivíduos das fontes públicas disponíveis: postagens e seguidores do Twitter, envolvimento no Facebook, LinkedIn, Foursquare e assim por diante. Ele capta dados de 13 redes ao todo, explicou Joe Fernandez, seu CEO, e os classifica de acordo como as “pessoas se envolvem com o conteúdo que você criou”.

Durante um breve período em outubro, quando McGary viu Matthew aparecer em sua página no Klout, os algoritmos do site criavam pontuações para os amigos do Facebook de usuários registrados do serviço. “Digamos que nós dois fôssemos amigos no Facebook e que eu tivesse feito um comentário. O Klout veria isso e eu receberia uma pontuação por causa dessa postagem”, disse McGary. Ouviram-se protestos. O Klout desligou o recurso. Fernandez disse que os algoritmos não eram inteligentes a ponto de distinguir quem da sua rede de amigos era criança ou adulto. A descoberta de McGary fez parte da tempestade que varreu a blogosfera. Tudo começou quando algumas pessoas passaram a ver as pontuações no Klout subir e cair e – adivinha só? – começaram a falar disso no Twitter.

Continua após a publicidade

Em Montauk, Nova York, Tonia Ries clicou em sua página no Klout um dia para ver que confusão era aquela. Ela também viu seu filho, Timothy Carson, surgindo na página, com pontuação do Klout atribuída a ele e um link para sua página no Facebook. Carson, 21 anos, universitário, disse à mãe que não havia se registrado no Klout. “Como o Klout obteve a informação para criar o perfil do meu filho?”, Ries escreveu aquele dia em seu site, The Realtime Report, que, por puro acaso, registra tendências das mídias sociais.

Ela logo descobriu. Um pouco antes, seu filho comentara na página dela no Facebook sobre levar o cachorro da família ao veterinário. Aquela postagem, Ries compreendeu tardiamente, era visível para o público em geral. E ela havia conectado a página no Facebook ao Klout. Ries disse aos leitores: “Tirei o link da minha conta no Facebook, e sugiro que façam o mesmo.”

Cinco dias depois, o Klout anunciou que permitiria que os usuários apagassem os perfis. Alguns dias depois disso, a empresa afirmou que deixaria de criar pontuações automáticas para os amigos do Facebook dos usuários registrados. O Facebook anunciou que estava investigando se o Klout violara seus termos de serviço ao coletar informações no site. O Klout nega ter feito isso. Boa parte das informações pessoais do usuário do Facebook – nome, sexo, foto do perfil – é informação pública, bem como suas fotos, comentários e outras postagens marcadas como visíveis para o público, com um ícone de globo. O Klout, como várias outras ferramentas de mensuração do mercado digital, como PeerIndex e Kred, é usado pelos marqueteiros para entrar em contato com os comentaristas habituais com maior probabilidade de promover seus produtos nas redes sociais. Ele pode ser usado por empregadores, professores e comitês de rainhas da escola – qualquer um – para medir a popularidade de uma pessoa.

A pontuação de Ries no Klout subiu acentuadamente depois que ela escreveu uma postagem no blog sobre sua experiência e colocou um link no Twitter. Isso também a fez refletir sobre as consequências involuntárias de sua muito ativa vida nas redes sociais. “Eu me envolvo, participo publicamente. Vejo tudo que posto como válido”, ela disse outro dia pelo telefone. “A grande lição que aprendi e a nova área em que passei a pensar muito mais é que minha atividade na rede social expõe, em grande escala, todos com quem estou conectada.”

Segundo ela, seu filho toma cuidado ao ajustar as configurações de privacidade, mas existem outras pessoas menos cuidadosas que podem nem saber como são levadas através da internet de um serviço para outro só porque estão conectadas a ela no Facebook. “As pessoas precisam estar conscientes – se for ativo nas redes sociais, levará junto seu gráfico social, o que inclui seus amigos e familiares.”

McGary aceita o fato dos filhos viverem numa era dominada pelas redes sociais. Como vários outros pais, ela ajudou o filho, Matthew, a mentir a idade para se cadastrar no Facebook antes de completar 13 anos. Ela pega no pé dos filhos para não divulgarem informações pessoais online, como números de telefone. McGary os controla no Facebook. Ela se esforça para não revelar informações como a escola deles em serviços de localização, como o Foursquare. Quando ela contou ao filho que ele havia ganhado pontos no Klout, o menino deu uma resposta típica de adolescente, querendo saber se era muito popular e que prêmios poderia ganhar. “‘Qual é a minha pontuação? De quantos pontos preciso para ganhar coisas?'”, ela disse que o filho lhe perguntou.

Continua após a publicidade
Publicidade