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“As fintechs tornam o bolo maior”, afirma Juan D’Antiochia

O vice-presidente da Worldpay from FIS para a América Latina disse a VEJA que cabe aos bancos saber como lidar com a presença das novas tecnologias

Por Sabrina Brito Atualizado em 5 jul 2021, 16h42 - Publicado em 5 jul 2021, 16h15

Juan D’Antiochia, vice-presidente da Worldpay from FIS para a América Latina, falou a VEJA sobre as novidades no mercado dos meios de pagamento e como a crise pública de saúde global impactou as transações financeiras. A FIS é líder mundial em processamento de pagamentos, lidando com valores perto dos 9 trilhões de dólares. A empresa também faz parte do Fortune 500, lista que compila as quinhentas maiores companhias dos Estados Unidos por receita.

Como a pandemia afetou as transações e os meios de pagamento pelo mundo?

Publicamos recentemente o relatório Global Payments Report, em que comparamos cerca de 50 países em relação à forma como ocorrem os pagamentos Descobrimos, por exemplo, que, na pandemia, o uso de dinheiro físico em pontos de venda na América Latina caiu de 58% em 2019 para 38% em 2020. O principal papel da pandemia foi acelerar tendências de meios de pagamento que já vínhamos observando pelo mundo.

Isso sinaliza para a popularização da tecnologia e a decadência do dinheiro físico?

Desde que sou jovem, escuto que o efetivo irá desaparecer. Eu discordo, embora acredite que a fatia que ele representa irá diminuir efetivamente nos próximos anos. A pandemia acelerou ainda mais essa tendência, que vem de anos. Com o coronavírus, ninguém queria fazer contato com o lojista por meio da troca da nota física, o que levou o consumidor a buscar alternativas de pagamento.

Algum meio de pagamento saiu ganhando com a pandemia?

Os grandes vencedores da pandemia foram as carteiras eletrônicas. Seu crescimento existe enquanto tendência global há certo tempo. Em 2015, estimamos que o ano de 2020 bateria o recorde no uso desse meio, com 50% das transações sendo feitas via carteira eletrônica. Isso acabou acontecendo em 2019. No Brasil, a representação da carteira eletrônica era pequena, mas foi muito acelerada pela pandemia. Recentemente, seu uso cresceu mais do que nos últimos cinco anos juntos.

Como a crise afetou o comércio eletrônico no Brasil?

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O Brasil é um país maduro quando se trata de comércio eletrônico. Nos últimos anos, o ritmo de crescimento desse mercado vinha caindo, batendo os 10% anuais, o que é normal quando o meio está amadurecido. O que a pandemia fez foi dobrar essa velocidade de expansão, o que é muito significativo.

As mudanças que observamos nesse meio permanecerão?

Essa é a grande pergunta. Observamos que, nos países onde a pandemia está sob controle, uma porção bastante relevante das mudanças ocorridas durante a crise permaneceram. As pessoas foram forçadas a perder o medo de realizar transações de formas diferentes da tradicional, e o consumidor aprender que consegue comprar de modo eficiente sem usar o dinheiro físico. O vendedor, por outro lado, viu que a carteira eletrônica e o Pix funcionam bem e são rápidos. Tudo isso aponta para a durabilidade da tendência.

Quais são as expectativas para o futuro do Brasil no mercado de meios de pagamentos?

Essas tendências devem passar por uma aceleração ainda maior nos próximos anos. Se quisermos saber como o mercado brasileiro estará em três ou quatro anos, basta olhar para a China. Apesar das diferenças culturais entre os dois países, as tecnologias usadas, a infraestrutura e o formato segundo o qual os mercados de meios de pagamento funcionam são semelhantes. O pagamento por QR, por exemplo, é invenção chinesa.

O que explica o fato de que o Brasil é o maior ecossistema de fintechs da América Latina e de que São Paulo é a quarta maior cidade do mundo nesse sentido?

É uma combinação de fatores. O tamanho de São Paulo ajuda muito, além da disponibilidade de capital no eixo Rio-São Paulo e o acesso às novas tecnologias que a cidade propicia. Já o Brasil tem um tremendo espaço para crescer: enquanto um investimento nos Estados Unidos rende de 3% a 5% ao ano, no Brasil, a taxa pode ser de 20%. Além disso, o que funciona no Brasil é rapidamente aplicado nos outros mercados da América Latina. Ou seja, quando se investe no Brasil, investe-se em um mercado de 500 milhões de pessoas.

Na América Latina, as fintechs podem representar uma ameaça aos bancos?

Na minha óptica, as fintechs não dividem o bolo, mas sim tornam o bolo maior. Quem as enxerga como ameaça tem uma visão muito limitada do mercado, uma visão de curto prazo. O fato é que as fintechs vão fazer parte do ecossistema, queiram as grandes instituições financeiras ou não. Agora, cabe a elas entender como as fintechs vão transformar o mercado e como elas devem reagir a isso. Se os bancos souberem se posicionar, eles podem alavancar seu crescimento por meio das fintechs. Quem tentar resistir, provavelmente sofrerá. Foi o que aconteceu com o surgimento do Rappi, por exemplo: ele não extinguiu restaurantes, mas sim tornou alguns ainda mais populares e incentivou o nascimento de outros.

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