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A política e a inovação

A agilidade na aplicação prática de descobertas científicas depende da implementação de um sistema de empreendedorismo nacional

Por Paulo Roberto Bueno* Atualizado em 25 out 2019, 11h02 - Publicado em 25 out 2019, 07h00

Durante o curso de graduação em engenharia, nos anos 1990, descobri, junto com meus supervisores, um novo dispositivo semicondutor capaz de garantir proteção contra o sobrecarregamento de voltagens na tensão elétrica. O Sudeste do Brasil é a região do mundo que mais recebe descargas elétricas atmosféricas. Logo, flagrou-se ali a possibilidade de inovar, com produtos que poderiam surgir de nossos estudos. Trabalhamos durante anos no projeto, recebemos prêmios internacionais pelas pesquisas científicas realizadas na área, até que, em 2003, fiquei sabendo que empresas no exterior, baseando-se justamente nos artigos que havíamos publicado, já comercializavam a tecnologia construída a partir do que tínhamos descoberto. Em outras palavras, no mercado internacional, lucravam com um estudo brasileiro.

O que permite esse tipo de avanço no exterior é a promoção da rápida transformação de conceitos científicos em tecnologias práticas — e, consequentemente, em inovação. Essa velocidade é atualmente o principal gatilho que gera um diferencial em meio à altíssima competitividade dos campos da indústria tecnológica. A agilidade na aplicação das descobertas acadêmicas, no entanto, depende do estabelecimento e do fomento de um sistema de inovação nacional. Essa rapidez está ligada a um conjunto de fatores, tais como o apoio a universidades, a criação de parques tecnológicos, a abertura de fundos de investimentos estratégicos, públicos e privados etc. Essas partes, integradas e interdependentes, formam um todo organizado com o propósito de inovar.

Em 2010 comecei a me interessar pelos laços que atam ciência, tecnologia e inovação. Fui a Washington debater sobre a situação do tópico no Brasil. Naquela oportunidade visitei a Universidade Harvard, na qual conheci o acelerador tecnológico daquela instituição. Os especialistas que ali encontrei já estudavam o caso brasileiro e diziam que havia esperanças para desenvolver um sistema de inovação aqui. Todavia, apenas se existissem visão e ações políticas concretas. É interessante notar que os especialistas do território americano pareciam compreender melhor os obstáculos do sistema brasileiro do que os nossos.

Com a noção clara de que seria muito difícil inovar no Brasil, simplesmente porque não havia um sistema abrangente e maduro de empreendedorismo dessa linha, foi que resolvi empreender como cientista, só que no mercado internacional. Utilizando conhecimentos adquiridos durante o doutorado em físico-química teórica, comecei em 2012 a cooperação com o colega inglês Jason Davis, pesquisador da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Hoje, juntamente com o professor Davis, somos os fundadores da Osler Diagnostics, startup que licenciou as tecnologias que desenvolvemos. Dado o grande interesse nas nossas patentes de métodos de diagnóstico portáteis, a Universidade de Oxford decidiu, em vez de licenciar as patentes a terceiros, investir ela própria na startup e no desenvolvimento do produto.

“Se a cegueira de governos não for solucionada, no futuro trocaremos políticos pela inteligência artificial”

Após cinco anos de trabalho em pesquisas básicas, em 2017 a empresa saiu do papel e em 2018 já empregava mais de vinte doutores e cinquenta profissionais de diferentes nacionalidades. É hoje a startup de mais rápido crescimento da história da Universidade de Oxford, com valor de mercado de 100 milhões de libras (520 milhões de reais). Um salto só possível pelo conceito científico demonstrado no cenário inglês, o que fez a importância da pesquisa se tornar palpável para os investidores. A próxima etapa é o desenvolvimento de produtos e do processo de manufatura, até o lançamento no mercado, a partir de 2022.

Acreditamos que cedo ou tarde uma revolução deverá ocorrer na medicina. Ela passará pelo desenvolvimento de equipamentos portáteis, versáteis e baratos que poderão ser facilmente acoplados ao celular, para fazer diagnóstico de doenças, hormônios etc., em cinco minutos, e ao custo de um cafezinho. O aparelho que inventamos realizará essa tarefa.

Com esse tipo de tecnologia, no fim de uma consulta, os médicos não vão mais pedir um monte de exames clínicos laboratoriais aos seus pacientes e aguardar durante dias, ou semanas, o retorno deles. Em um futuro muito próximo, o diagnóstico de doenças será corriqueiro e automático, podendo ser realizado tanto durante uma consulta médica quanto pelo próprio usuário, em casa, auxiliado por softwares de inteligência artificial com capacidade de orientar tomadas de decisão para a prevenção de doenças, ou para o controle durante o tratamento. Os diagnósticos moleculares portáteis permitirão monitorar uma vasta quantidade de informações bioquímicas, em algo similar a hackear o corpo humano, mas com propósitos somente benéficos.

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O conceito da tecnologia desenvolvida pela Osler se baseia na geração de informação — tratando-se, porém, de informação bioquímica. É provável que nas décadas vindouras vejamos mais revoluções na indústria da internet, em que, cedo ou tarde, a tecnologia roubará até a cena política. A inteligência artificial combinada com a biotecnologia poderá predizer como organizaremos a sociedade e as economias — também o nosso corpo e a nossa mente não escaparão dessa revolução. O mundo ao nosso redor está mudando radicalmente.

Na Inglaterra, nos últimos vinte anos, surgiram políticas concretas para adaptar o sistema de inovação das cidades de Oxford e Cambridge ao modelo americano do Vale do Silício, e isso possibilitou a fundação de empresas de base tecnológica de uma forma jamais vista antes naquele país. Há agora um projeto de integrar geograficamente os dois ambientes, de Oxford e Cambridge, com a criação de transporte ferroviário para proporcionar acesso mais rápido de uma cidade à outra. Isso dará origem a todo um cinturão de empresas de bases tecnológicas e milhares de empregos.

O Estado de São Paulo está, sim, em condições de fazer algo semelhante. Percebe-se na região um número muito maior, por exemplo, de pesquisadores doutores qualificados na área de diagnóstico molecular, em comparação com todo o Reino Unido. Isso se deve ao excelente apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) à pesquisa básica, que tem permitido que os pesquisadores, digamos assim, se internacionalizem, com dinamismo, qualificação e exigência. Essa globalização da ciência é primordial porque gera competição e competência.

Mas, se São Paulo deseja ser um polo de inovação, há mais trabalho a ser feito. É preciso induzir políticas para a urgente capacitação internacional dos profissionais, especialmente em áreas como gestão e visão estratégica, dentro dos setores tecnológicos — assim como é necessário integrar as pesquisas científicas básicas às tecnológicas. Isso permitirá uma rápida conversão da ciência apoiada nas universidades em aparelhos a ser desenvolvidos em parques tecnológicos. Além disso, há que induzir a cooperação entre entes públicos e privados e desburocratizar o sistema para permitir o florescimento de negócios dinâmicos.

Se a cegueira política não for solucionada, como é necessário, então talvez no futuro possamos importar tecnologias de inteligência artificial para substituir os políticos e os colegiados universitários. Com isso, a razão científica prevalecerá sobre as ideologias, e então, finalmente, poderemos sonhar com um país desenvolvido e inovador.

* Paulo Roberto Bueno é engenheiro paulistano, professor do Instituto de Química da Unesp e sócio-fundador da Osler Diagnostics, com sede na Inglaterra

Publicado em VEJA de 30 de outubro de 2019, edição nº 2658

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