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A barulhenta invasão brasileira no Twitter

Os usuários do Twitter que se deram ao trabalho de conferir nos últimos meses o Trending Topics mundial – lista de temas mais citados nas mensagens postadas na ferramenta em todo o planeta – devem ter reparado na insistente presença de assuntos ligados ao Brasil. Do mais famoso deles, o “CALA BOCA GALVAO“, passando por “Corinthians”, “Dunga”, “Dilma” e chegando até “Tiririca”. Seria essa uma nova invasão virtual brasileira, a exemplo do que ocorreu no passado com o Orkut? Em termos.

O Trending Topics foi acoplado ao Twitter em 2008. Simplificadamente, seu funcionamento é trivial: assim que um novo tweet – a mensagem do Twitter – é jogado na rede pelo usuário, o mecanismo passa a computar a ocorrência das palavras daquele texto. Se um desses termos for repetido à exaustão pelos demais usuários, pode figurar no ranking de Trending Topics. Assim, ganha ainda mais destaque, sendo exibido a todos os adeptos do microblog.

Não há um número pré-estabelecido de citações necessárias para atingir o tão sonhado lugar na lista. A dificuldade, é claro, é proporcional ao ânimo dos usuários da rede – onde são publicadas aproximadamente 600 mensagens por segundo, de acordo com estatística oficial. Mas algumas experiências dão uma ideia do trabalho necessário para conquistar o lugar ao sol. Foi o caso de uma ação publicitária promovida pela agência VirtualNet para promover na rede um filme – o título é mantido em sigilo. Segundo Rogério Bonfim, sócio da empresa, foram disparados 700.000 tweets em 24 horas citando o filme. Foi o equivalente a 486 mensagens por minuto, ou 8 por segundo. O filme entrou na lista.

A estratégia profissional não é a única que colhe bons resultados. Há também a mobilização espontânea dos usuários, caso do “CALA BOCA GALVAO”. Na prática, tudo acontece como na vida real: você conversa com amigos mais próximos e propaga uma mensagem. Eles farão o mesmo com os amigos deles. O fluxo é exponencial. A mãozinha de um perfil influente na rede, daqueles que já arrebanharam um grande número de seguidores, contribui para a proliferação do conteúdo.

É aí que entra a peculiaridade brasileira. O Twitter possui atualmente 145 milhões de usuários. Não há números oficiais sobre a presença brasileira na rede. Mas estima-se que ela gire em torno de 11,6 milhões de perfis, se considerada a participação de 8% dos brasileiros no bolo total de usuários da rede revelada pela pesquisa da agência Sysomos, em janeiro. Contudo, esses barulhentos foram responsáveis por 20% dos 30 tópicos que mais tempo permaneceram na lista do Trending Topics. O termo “Dilma” (Rousseff) é o maior destaque, na sétima colocação: ele figurou no ranking mundial por 7 dias, 18 horas e 58 minutos, totalizando 84 ocorrências.

“Nós, brasileiros, temos uma tendência de nos comunicarmos freneticamente. E, como já sabemos, adoramos redes sociais”, afirma Raquel Recuero, especialista no assunto e professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Beth Saad, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP e também estudiosa do tema, acrescenta outra característica aos usuários locais. “Muitas vezes, eles tuitam com o propósito de colocar um assunto na lista mundial”, diz.

Os brasileiros não dominam a rede, mas não podem ser ignorados. No episódio do CALA BOCA GALVAO, o tema tomou tal dimensão que virou assunto de estrangeiros – que se divertiram ou se irritaram com a “intromissão” brasileira. Em 2004, ocorreu coisa similar no Orkut. Um em cada cinco usuários era americano àquela altura, quando o português começou a tomar conta das comunidades do site. Houve passagens de hostilidade na batalha. Os americanos criaram uma comunidade chamada “So many brazilians on Orkut” (brasileiros demais no Orkut). Estes retrucaram estimulando usuários de todo o mundo a se apresentarem como naturais do Iraque – os Estados Unidos haviam invadido o país do Oriente Médio no ano anterior. Hoje, um em cada dois cadastrados na rede é brasileiro.

Por ora, os brasileiros não ameaçam o predomínio numérico dos americanos no Twitter: eles são aproximadamente 72 milhões – ou 50% dos cadastrados, também se considerarmos a participação medida em janeiro. Mas, como visto, o usuário brasileiro sabe fazer muito barulho em rede e é hábil o suficiente para lançar mão de táticas de guerrilha para ganhar terreno virtual. “A invasão verde-amarela pode acabar inibindo usuários de outros países”, afirma Eric Messa, coordenador do curso de comunicação e mídias sociais da Faap. É tuitar para ver.