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A Apple quer lançar um buscador para concorrer com o Google

Dona de algumas das marcas mais desejadas do mundo, a maçã estaria interessada no negócio bilionário

Por Sabrina Brito Atualizado em 6 nov 2020, 09h38 - Publicado em 6 nov 2020, 06h00

Vinte e dois anos atrás, o engenheiro de computação americano Larry Page e seu sócio, Sergey Brin, russo naturalizado americano, ambos com apenas 25 anos, apresentaram sua nova criação: uma ferramenta de busca mais precisa e abrangente do que todas as que estavam sendo desenvolvidas. Assim nasceu o Google (cujo nome é uma corruptela de googol, o número 10 elevado à centésima potência), um sistema que tornou a internet navegável e que tem dominado o mercado de forma quase absoluta desde então. Agora, essa soberania pode estar seriamente ameaçada. A Apple, um dos totens do panteão onde estão Facebook, Amazon, Netflix e o próprio Google, estaria desenvolvendo o próprio buscador.

A postura competitiva e inovadora não é novidade na empresa da maçã, que revolucionou o mundo e até mesmo o comportamento social com seus computadores, smartphones e tablets. Faz parte do estilo da Apple se esforçar ao máximo para controlar tudo que se relaciona a seus produtos. Dos sistemas operacionais aos acessórios, ela evita depender de terceiros. O desenvolvimento de um mecanismo de busca próprio, portanto, é perfeitamente coerente com a estratégia histórica. Além disso, a empresa vem dando sinais de que está realmente determinada a entrar no negócio.

Em 2018, a Apple contratou John Giannandrea, um dos maiores especialistas do Google, em uma aparente tentativa de reforçar o desenvolvimento de inovações no campo da inteligência artificial e da pesquisa por voz. Desde então, especula-se que a empresa tem planos de criar o próprio mecanismo. Outro indicativo dessa pretensão é que algumas buscas no novo sistema operacional iOS 14 apresentam resultados da própria Apple, não mais do Google. Nos sistemas anteriores, ao navegar no iPhone ou no iPad, o usuário era automaticamente direcionado ao Google, uma preferência pela qual Page e Brin pagam cerca de 10 bilhões de dólares por ano.

O movimento da Apple também teria outra motivação: uma nova lei antitruste gestada pelo Congresso americano, que já há algum tempo investiga, por meio do Departamento de Justiça, o poder descomunal das big techs, especialmente nos EUA. Caso uma nova lei force o Google a cancelar seus contratos atuais, será útil para a fabricante do iPhone ter uma segunda opção. Outro ponto a ser observado é o aumento da oferta de vagas para trabalhar em sua sede em formato de disco voador, em Cupertino, Califórnia. Muitos dos contratados são jovens engenheiros de computação como eram os próprios Page e Brin quando começaram, em 1998.

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Analistas de mercado e de tecnologia afirmam que o interesse da companhia pode não ser criar um novo Google, mas melhorar a interface entre a assistente de voz Siri e os buscadores já existentes, uma vez que não seria factível competir com uma empresa parceira que tem quase 93% do mercado. Ao longo das últimas décadas, os usuários se acostumaram com o design e o funcionamento do motor Google, além do fato de ele oferecer uma série de serviços universais, como armazenamento, videoconferência, e-mail, tradutor, entre tantos outros. Poucas marcas são tão confiáveis e úteis aos olhos do consumidor.

Qualquer que seja a intenção de Tim Cook, presidente executivo da Apple que sucedeu ao lendário fundador Steve Jobs, é certo que suas estratégias têm dado certo. Desde que assumiu, em 2011, Cook mais do que dobrou a receita e o lucro da companhia, levando-a a ocupar o lugar de empresa listada em bolsa mais valiosa do mundo. “A Apple tem dinheiro, poder e recursos mais do que suficientes para desbancar o Google”, diz Lilian Carvalho, professora de marketing da Fundação Getulio Vargas. De fato, a empresa de Cook está listada em bolsa com o impressionante valor de 2 trilhões de dólares, contra 1 trilhão de dólares da Alphabet, holding de companhias que inclui o Google.

Com sua capacidade invejável para atrair investimentos, a Apple tem caixa para comprar promissoras startups, como, por exemplo, a Neeva, desenvolvida pelo ex-executivo da Google Sridhar Ramaswamy. Startups são empresas emergentes, geralmente de tecnologia, com grande potencial de crescimento — e que, portanto, despertam interesse. Um dos princípios adotados pela Neeva é a abolição de anúncios e da coleta de dados no buscador. O modelo de negócio se baseia no pagamento pelo usuário de uma pequena taxa para que ele não tenha mais o incômodo dos anúncios que pululam na tela, além de mais privacidade ao navegar. É um modelo desafiador para uma empresa de pequeno porte, mas que cairia como uma luva no leque de planos da Apple.

No mundo da tecnologia, os fatos se misturam com a especulação. No passado, os analistas esperavam que a Apple lançasse um tocador de CD que alavancasse a indústria fonográfica. Em vez disso, ela apresentou o iPod, que desintegrou o mercado de discos e revolucionou o jeito de ouvir música. Pode-se afirmar, portanto, que a Apple não tem apenas o potencial de criar um buscador diferente, mas, sim, de repaginar toda a internet — informação que ainda não aparece facilmente, nem dando Google.

Publicado em VEJA de 11 de novembro de 2020, edição nº 2712

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