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Viagem controlada: o uso de psicodélicos no tratamento de doenças mentais

Estudos recentes, conduzidos por sérias instituições de pesquisa, inclusive no Brasil, vêm oferecendo resultados convincentes

Por Giulia Vidale Atualizado em 30 jul 2020, 19h36 - Publicado em 1 nov 2019, 06h00

Um paradoxo da ciência tem produzido muito ruído: o uso de psicodélicos, drogas associadas a alucinações e viagens mentais, nos cuidados de doenças psiquiátricas. Estudos recentes vêm oferecendo resultados convincentes. Chá de cogumelos para depressão e dependência de tabaco e cocaína; LSD para angústia e alcoolismo; ayahuasca para ansiedade e transtorno de stress pós-traumático (veja o quadro). Os institutos de pesquisas envolvidos nos trabalhos são seriíssimos: a Universidade College London e a Universidade Federal de São Paulo estão entre os pioneiros. Há dois meses, a renomada Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, inaugurou o maior centro de estudos do mundo inteiramente dedicado à pesquisa desse tipo de substância, com um investimento de 17 milhões de dólares, o equivalente a 70 milhões de reais.

Os psicodélicos podem ser extraídos de plantas ou sintetizados em laboratório. Eles agem basicamente de duas formas — reduzem a atividade na amígdala, a parte do cérebro que regula a resposta ao medo, e aumentam a atividade no córtex pré-frontal, área do raciocínio, humor e percepção. Dá-se o desejado efeito terapêutico à medida que a droga instaura novos ritmos cerebrais, controlando o que parece exagerado e freando o que desponta em exces­so. Há, ainda, outro movimento positivo: os alucinógenos estimulam a quantidade de neurotransmissores no cérebro, em especial a serotonina, que regula as emoções e sensações. Diz o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, pesquisador em tratamento de dependência química na Unifesp: “Dessa forma, o paciente consegue falar melhor e mais profundamente sobre seus traumas e problemas”.

O chá ayahuasca, utilizado em rituais religiosos como os do santo-­daime, mostrou-se eficaz, por exemplo, no combate ao tipo de depressão mais severa, aquela que responde mal aos medicamentos disponíveis e acomete 100 milhões de pessoas no mundo, 4 milhões delas no Brasil. Pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte avaliou pacientes com idade de 21 a 59 anos que conviviam com a doença havia onze anos, em média. “Engana-se, no entanto, quem pensa que o efeito positivo possa vir do uso recreativo da droga”, diz o neurocientista Eduardo Schenberg, coordenador dos estudos com MDMA para transtorno pós-­traumático no Brasil. “Os benefícios para a saúde só serão conquistados se a utilização das substâncias seguir protocolos terapêuticos precisos.”

A administração das drogas exige, evidentemente, muitos cuidados. Para que seus efeitos colaterais agudos sejam minimizados — além das alucinações, elas podem provocar tonturas, enjoos e aumento da pressão arterial —, os pacientes recebem a substância no hospital ou em clínicas. Os quartos são preparados para proporcionar um ambiente de tranquilidade — decorados com plantas e iluminados por luz natural. A quantidade das substâncias e a duração dos efeitos variam de droga para droga. Algumas são usadas integralmente. De outras, extrai-se um composto específico. Os testes com ayahuasca mostraram resultados com uma dose, o equivalente a uma xícara de chá. Com o MDMA, composto do ecstasy, foram necessárias três sessões com quantidades de 75 miligramas a 125 gramas.

Os primeiros estudos com psicodélicos na medicina são de 1914, com ecsta­sy. Os cogumelos tiveram uma versão sintética comercializada nas décadas de 50 e 60 para terapias psiquiátricas experimentais. Nos anos 60, Timo­thy Leary (1920-1996), professor de psicologia clínica da Universidade Harvard, ganhou fama como proponente dos benefícios terapêuticos e espirituais do LSD. Usando ele mesmo esse produto sintético, fez pesquisas que o levaram a estabelecer quadros de níveis de consciência. Mas na década de 70 a fabricação e a venda de qualquer composto alucinógeno para uso medicinal foram proibidas pelo governo americano. Os estudos terapêuticos só foram retomados a partir dos anos 1990, quando a ciência se rendeu à limitação dos remédios para as doenças mentais. Se os testes em larga escala conseguirem repetir os resultados obtidos até agora, os psicodélicos poderão vir a ser usados dentro de cinco anos. Até lá, contudo, de mãos dadas com a medicina, haverá uma longa batalha jurídica de autorização.

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Publicado em VEJA de 6 de novembro de 2019, edição nº 2659

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