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Preparando a esperança

Precisamos urgentemente de doses diárias de bom-senso

Estreou em São Paulo a famosa peça Angels in America, sucesso da Broadway. Trata da devastação que a aids provocou no seu surgimento, nos anos 1980, principalmente entre os gays. Lembro, ainda criança, de acompanhar pela TV aquela dor imensa, a falta de esperança que tomou conta de tudo. Pouco a pouco, a batalha foi sendo vencida pela propagação do uso da camisinha, pela descoberta de drogas mais potentes, como o AZT, e, em seguida, pelo desenvolvimento de medicamentos que permitiram uma vida saudável aos portadores do HIV. Quem diria que, logo depois daquele tempo escuro, assistiríamos a uma revolução, com a chegada ao mercado do “prep”, o comprimido que, tomado diariamente, reduz o risco de infecção a níveis baixos, fazendo da aids uma ameaça cada vez mais controlada. Uma nova revolução aconteceu, e o que parecia impossível virou possível.

Que assim seja, o impossível tornando-se possível, com o Brasil de hoje, devastado pela falta de esperança, de sanidade. Vive-se um show de horror, seja pela negação absoluta das conquistas civilizatórias, seja pelo ataque às ciências — as financeiras, agredidas pelos radicais de esquerda, e as humanas, atacadas pelos radicais de direita. Nas minhas andanças como documentarista, entrevistei Stéphane Hessel, sobrevivente do Holocausto, um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, membro da Resistência francesa na II Guerra e cujos pais tiveram uma trajetória que inspirou o filme Jules e Jim — Uma Mulher para Dois, de Truffaut. Fico imaginando o que ele pensaria hoje diante das fartas notícias que nos deixam perplexos.

Nada tem efeito mais devastador que a morte da esperança. Nada é mais poderoso que a esperança — não aquela ingênua e tola, mas a chama intensa capaz de acender incêndios. Se o que acontece hoje parecia impossível, o que hoje é impossível amanhã será possível. No filme Spartacus, de Stanley Kubrick, viajamos na opressão da escravidão provocada pelos romanos, seguida de uma revolução que corre como rastro de pólvora de um escravo que inspira um levante. Muito em breve, tenho convicção, o Iluminismo voltará a vencer. Os seguidores sanguinários do ex-astrólogo autoproclamado guru e rei da grosseria não são maioria — eles apenas são barulhentos. A maioria é formada por pessoas com humanidade e desejo genuíno de construir um país próspero, justo, humano e, portanto, feliz. O problema é que muitas dessas pessoas estão sendo manipuladas pelo medo, a reboque de notícias falsas.

Em vez de confrontar aqueles que foram manipulados por notícias inventadas de mamadeiras em formato de pênis, como ocorreu durante a campanha que elegeu Bolsonaro, é melhor buscar entender o que os levou a acreditar em tamanha estultice. Em um mundo em que as redes sociais prometem unir as pessoas, mas promovem o oposto, por meio de brigas, de polêmicas e de textões, precisamos — de fato — construir pontes entre aqueles que tiveram acesso à civilização (tanto do ponto de vista financeiro quanto do da educação e até afetivo) e os que sempre permanecem à margem do conhecimento. Precisamos, enfim, de “preps”, doses diárias de bom-senso.

Publicado em VEJA de 22 de maio de 2019, edição nº 2635

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