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Pesquisas sobre câncer nos EUA são limitadas

Mais da metade dos estudos sobre câncer realizados no país em três anos se baseou em um medicamento único, sem comparação com outros tratamentos

Um estudo analisou como tem sido conduzida as pesquisas sobre o câncer nos Estados Unidos e concluiu que a maior parte delas tende a se basear em estudos pequenos, concentrados em um único tipo de tratamento. Os trabalhos, portanto, com frequência são insuficientes em comparação com os padrões científicos adotados em outras pesquisas médicas.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Characteristics of Oncology Clinical TrialsInsights From a Systematic Analysis of ClinicalTrials.gov

Onde foi divulgada: periódico Jama Internal Medicine

Quem fez: Bradford R. Hirsch, Robert M. Califf, Steven K. Cheng, Asba Tasneem, John Horton, Karen Chiswell, Kevin A. Schulman, David M. Dilts e Amy P. Abernethy

Instituição: Universidade Duke, EUA

Dados de amostragem: 40.970 estudos científicos sobre câncer realizados entre 2007 e 2010

Resultado: O estudo mostrou que a pesquisa sobre cãncer nos EUA tende a se basear em estudos pequenos concentrados em um único tipo de tratamento, sendo com frequência insuficiente em comparação com os padrões científicos adotados em outras pesquisas médicas.

De acordo com os autores do estudo, publicado nesta segunda-feira no periódico Jama Internal Medicine, esta tendência pode ser impulsionada pelo desejo de acelerar a apresentação de tratamentos no mercado, mas traz à tona questionamentos sobre a eficácia na prática de terapias experimentais de combate ao câncer. “Ao aumentar a transparência, acredito que poderemos compreender o que funciona e o que não”, disse Bradford Hirsch, principal autor do estudo e professor assistente de medicina da Universidade Duke.

Os autores dessa nova pesquisa analisaram a base de dados de testes clínicos do governo americano e descobriram que 22% de todas as pesquisas científicas são dedicadas ao câncer, a maior disciplina única de estudos, seguida de saúde mental (9%) e das doenças infecciosas (8,3%).

A pesquisa, feita com base em 40.970 estudos realizados entre 2007 e 2010, mostrou ainda que 62% dos testes sobre câncer se basearam em um medicamento único, sem comparação com outros tratamentos. Apenas cerca de um quarto das outras especialidades de pesquisa faz este tipo de estudo de via única.

Participação pequena – Os estudos sobre o câncer costumam ter um engajamento menor, com participação média de 51 pacientes, em comparação com 72 em outras disciplinas. Os médicos também se mostraram menos propensos a “fechar os olhos” para o medicamento testado para evitar análises tendenciosas, sendo que quase nove em 10 testes de câncer foram “abertos” (quando o médico e o paciente sabem qual é o tratamento administrado), em comparação com apenas a metade em outros estudos.

Quase 42% dos estudos revisados foram financiados por companhias farmacêuticas, mas a maioria obteve recursos de outra forma: 15,3% pelo governo e 42,9% por financiadores externos, incluindo grupos e fundações acadêmicos.

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Desproporcional – A análise revelou também que alguns tipos de câncer podem estar recebendo atenção de forma desproporcional. O linfoma, por exemplo, foi alvo de 6,6% dos estudos sobre câncer, enquanto sua incidência na população é de 4,8% e sua letalidade, de 3,8%. Já o câncer de pulmão foi objeto de 9% dos testes clínicos, mas respondeu por 14,5% de todos os diagnósticos e teve a mais alta taxa de letalidade (27,6% de todas as mortes por câncer em 2010).

Embora as pesquisas sobre o câncer de mama sejam proporcionais à sua prevalência na população em geral, um em quatro estudos sobre a doença se concentraram não no tratamento, mas nos cuidados de apoio, diagnóstico e prevenção. O estudo de Hirsch também demonstrou que pouco mais de um terço dos testes de câncer registrados pelo governo americano são realizados inteiramente fora dos Estados Unidos.

Em editorial no Jama, Peter Bach, médico no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center de Nova York, escreveu que a “descoberta mais intrigante” do estudo é que “fica facilmente aparente que os esforços da pesquisa clínica como um todo não são coordenados e orientados por algum conjunto particular de princípios consensuais”.

A análise faz parte de um projeto conhecido como Iniciativa de Transformação dos Testes Clínicos, uma parceria entre a Universidade Duke e o Food and Drug Administration (FDA), agência que regula os alimentos e os medicamentos nos Estados Unidos, a fim de melhorar as práticas de pesquisa médica.

(Com Agência France-Presse)