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Pane seca na medicina

A tragédia com o voo da Chapecoense sugere uma ideia: e se usássemos recursos da aviação para controlar o desempenho de médicos em nome da transparência?

Por Ben-Hur Ferraz Neto
11 dez 2016, 14h14

Os mortos da Chapecoense desencadearam uma extraordinária onda de comoção e solidariedade no Brasil e no mundo. Foi emocionante, uma sinfonia de gestos e reações, de compaixão, que nos fazem acreditar, de verdade, no ser humano. Descobrimos naquela terça-feira triste que a sociedade é composta de uma maioria de pessoas do bem, independentemente da origem, do credo ou do time, que com suas atitudes lutam por um mundo melhor. Um mundo no avesso do que lemos nas manchetes dos jornais e das revistas. Um mundo sem corruptos no poder lutando pelos próprios interesses, sem desigualdade social. Os heróis da Chapecoense iluminaram um caminho. Causa revolta, contudo, diante de tanto comportamento admirável e afetuoso, saber que o acidente na verdade foi um crime. Sua origem está na irresponsabilidade e na ganância de um ou de poucos, o atalho mais curto para a pane seca que derrubou a aeronave na Colômbia.

A dor de Medellín alimentou uma reflexão que faço já há algum tempo como profissional da saúde: e se a medicina usasse recursos da aviação para controlar o desempenho de seus pares? Uma ideia seria a implantação de caixas-pretas nos centros cirúrgicos, o instrumento ideal para uma avaliação mais frequente da atividade médica e que poderia inclusive influenciar, com base nos resultados clínicos obtidos, a remuneração daquele médico ou equipe. Gosto de lembrar uma máxima cínica da medicina que propõe a seguinte combinação: se o paciente morrer, fica acertado que o cirurgião também deve morrer. Não é assim, claro. Mas, sabidamente, a relação entre médico e paciente se baseia em confiança, característica fundamental dessa relação, mas longe de ser a única arma disponível para determinar todas as decisões. O segredo é a transparência, algo muito rarefeito em minha profissão.

Estamos na era do big data, da inteligência artificial, e ainda não temos acesso a informações detalhadas sobre os hospitais e os médicos que cuidarão de nossa vida e aos resultados de suas intervenções clínicas ou cirúrgicas, embora várias instituições indiquem profissionais de boa reputação. Convém conhecer um exemplo internacional: no Reino Unido, desde 2005, os resultados das cirurgias cardíacas são divulgados pelos hospitais. E mais: pelo cirurgião cardíaco responsável. Essa postura, que permite cuidadosa organização e precisão nos tratamentos, reduziu a mortalidade hospitalar. Não há dúvida: na trilha da metáfora da aviação, apenas com o conhecimento dos dados poderíamos agir de forma eficiente para corrigir possíveis erros de navegação e acertar nosso plano de voo. Sem dados concretos, o pouso é forçado e as consequências, irreversíveis.

A desinformação abre espaço para duas formas de conduta médica, ambas errôneas. A primeira, destinada aos que possuem mais recursos, leva à adoção de procedimentos desnecessários. A segunda, atrelada aos menos favorecidos financeiramente, é a de sonegação dos cuidados disponíveis. Lutemos pelo fim dos “comandantes Quirogas da medicina”, abrindo portas para a transparência e punindo os que brincam com a vida alheia, como fez o piloto e sócio da desgraçada empresa aérea que economizava combustível.

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