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O enigma do capitão Bellini

Pesquisadores estudam o cérebro do homem que ergueu a Jules Rimet para determinar a doença que o matou. A suspeita: ele não sofria de Alzheimer, e sim de um distúrbio neurológico associado aos esportes mais violentos

Por Natalia Cuminale Atualizado em 24 Maio 2016, 16h30 - Publicado em 12 abr 2014, 01h00
AS MARCAS DAS JOGADAS AÉREAS - Não era raro o elegante Bellini sair de campo com a cabeça sangrando, resultado do encontrão com adversários

(na foto, em 1961)
AS MARCAS DAS JOGADAS AÉREAS – Não era raro o elegante Bellini sair de campo com a cabeça sangrando, resultado do encontrão com adversários

(na foto, em 1961)

A memória do zagueiro Hideraldo Luís Bellini – um dos fundadores da nacionalidade brasileira, com o gesto de erguer a Jules Rimet acima da cabeça, na Copa de 1958 – começou a falhar em 1998, quando ele estava com 68 anos, durante a gravação de um comercial para a televisão. Bellini não conseguiu decorar um texto de míseras quatro linhas. “A partir daí, passei a prestar atenção e percebi que ele esquecia tarefas simples do cotidiano”, conta Giselda, mulher do jogador. “Se pedia que fizesse uma compra pequena no mercado, de cinco itens, por exemplo, ele voltava sem pelo menos dois produtos.” O diagnóstico médico, por exclusão, foi Alzheimer.

Nos dezesseis anos seguintes, a doença levou embora datas, nomes, rostos e lembranças. Completamente alienado do mundo e de si próprio, o elegante Bellini morreu aos 83 anos, em 20 de março último, de falência respiratória. Neurologista do zagueiro desde 2008, o pesquisador Ricardo Nitrini desconfia, no entanto, de que seu paciente possa ter sido vítima de um distúrbio de sintomas muito semelhantes aos do Alzheimer, a encefalopatia traumática crônica. Mais comum entre jogadores de futebol americano e hóquei, lutadores de boxe e de MMA, a doença está associada a concussões frequentes na cabeça.

Vídeo: Como funciona o banco de encéfalos humanos da USP

Como a diferenciação entre a encefalopatia e o Alzheimer só pode ser feita por meio da análise anatomopatológica, a família doou o cérebro de Bellini ao banco de encéfalos humanos, da Universidade de São Paulo, um dos maiores do mundo, do qual Nitrini é um dos diretores. Hoje, fatias e fragmentos da massa encefálica do jogador estão guardados em lâminas de microscópio e freezers a 80 graus negativos, entre outros 3 000 cérebros. A causa da morte do capitão da seleção de 1958, que fez história também no Vasco e no São Paulo, deve ser definida até junho.

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