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Levantamento ajuda na detecção de câncer décadas antes de ele surgir

A mais completa análise genética jamais feita por oncologistas pode "prever o futuro"

Por Adriana Dias Lopes - Atualizado em 14 fev 2020, 10h41 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

São avassaladoras as boas notícias sobre os tratamentos contra o câncer. Nas últimas três décadas, a mortalidade caiu à metade. Hoje, em cada dez casos identificados, apenas três têm prognóstico muito ruim. Há per­manente esperança de freio à expan­são acelerada de células cancerígenas. O mais completo estudo genético já feito, publicado na prestigiosa revista Nature, acaba de oferecer outro alento — seus resultados permitem detectar a origem da doença em regiões do DNA até então inimagináveis. Não se trata da descoberta de um novíssimo medicamento, de uma terapia revolucionária — mas de um mapa para o futuro, com a precoce identificação das mutações do DNA que culminarão em tumores. “O levantamento abre uma espetacular avenida para tratamentos e testes diagnósticos jamais pensados”, diz o oncologista Bernardo Garicochea, diretor do Centro de Medicina Genômica e do grupo Oncoclínicas, de São Paulo. “O trabalho é um dos mais relevantes da década.”

Batizada de Projeto Pan-Câncer, a pesquisa envolveu os esforços de 1 300 cientistas distribuídos por 37 países. Para entender seu real impacto, é fundamental ressaltar que o câncer é uma doença do genoma, a sequência completa de DNA do organismo. Sempre se pensou que os tumores fossem causados apenas por mutações nos genes. Revelou-se agora que não. Os pesquisadores identificaram que algumas alterações se formam em outras regiões, como os telômeros, estruturas localizadas nas extremidades dos cromossomos e que têm entre suas funções proteger o DNA contra o envelhecimento. Dessa conclusão, que soa detalhista mas é crucial, os especialistas poderão desenvolver terapias preventivas. Só foi possível um olhar tão minucioso porque os cientistas vasculharam 38 tipos de câncer de 2 600 pacientes, rastreando 30% das formações de DNA de cada modalidade da doença — antes, apenas 1% tinha sido escrutado. O levantamento foi compilado por supercomputadores, com o cruzamento de dados que iam da infância à maturidade dos voluntários.

Deu-se um passo além com a análise das principais causas das mutações. Cerca de dois terços de todos os tumores são provocados por alterações que acontecem ao acaso. O outro terço é explicado por alterações herdadas dos familiares ou pelo estilo de vida, como o tabagismo, dieta desequilibrada, uso abusivo de álcool, expo­sição ao sol e à poluição. A fumaça do cigarro e o consumo de bebidas alcoólicas foram os fatores que mais se mostraram destruidores do DNA. O trabalho também confirmou o que já se desconfiava em relação à atuação do câncer no organismo: as mutações ocorrem com mais frequência em locais em que os tecidos se formam mais lentamente no organismo — onde, em tese, a doença teria dificuldade de proliferar.

Os resultados divulgados não põem um ponto-final no assunto. Em 5% das pessoas analisadas não foi encontrado o tipo da mutação que causava a doença. Os pesquisadores agora vão se debruçar sobre um número 100 vezes maior de genomas. E aqui se levanta uma questão ética: a privacidade dos pacientes. O estudo Pan-Câncer foi realizado em grande parte com base em dados pendurados na “nuvem” digital de diferentes países. Estudos anteriores com bancos de dados genéticos mostraram, contudo, que é possível identificar os pacientes por meio de hackers. Nesse caso, os dados que salvariam vidas teriam um subproduto negativo. O problema: dispor de informação prematura sobre a possibilidade de um cidadão desenvolver uma doença poderia definir as decisões sobre contratações de trabalho ou sobre negativas nos planos de saúde.

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Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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