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Estados Unidos vão reavaliar a proibição de doação de sangue de gays

Desde 1983, o FDA (órgão federal que regula alimentos e remédios) proíbe homossexuais de doar sangue

Por The New York Times - 3 ago 2010, 12h41

Homens que fizeram sexo com outros homens têm uma taxa de infecção 60 vezes maior que a média da população e 800 vezes maior do que pessoas que doam sangue pela primeira vez

Para a maioria das pessoas, doar sangue é tão simples quanto calçar um par de luvas. Mas não para os gays americanos. Desde 1983, a Food and Drug Administration (o órgão federal que regula alimentos e remédios) os proibiu de doar.

A FDA tem reexaminado a proibição ao longo dos anos, mas sustenta que a restrição é necessária para manter o suprimento de sangue seguro e isento de HIV, o vírus que causa a AIDS. Críticos dizem que a proibição não se sustenta do ponto de vista médico e científico e é injusta com os gays.

No começo deste ano, o senador John Kerry e outros 17 parlamentares enviaram uma carta à agência se opondo à proibição. A FDA anunciou que irá revisar o assunto, mas em junho um comitê governamental votou pelo apoio à proibição, desapontando não apenas os gays, mas os grandes bancos de sangue do país, que se manisfestaram contra a regra.

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Há quem vislumbre alguma esperança na decisão do comitê, pela qual a política está “abaixo do ideal”. O comitê recomendou que sejam feitas mais pesquisas para políticas alternativas antes de levantar a proibição.

“Certamente vemos isso como um tema discriminatório”, disse Nathan Schaefer, diretor de políticas públicas da Gay Men’s Health Crisis, uma organização voltada para a AIDS em Nova York. “Mas ainda que a decisão do comitê não seja a ideal, eles podem torná-la melhor.”

Embora a FDA não seja obrigada a seguir a decisão do comitê, a agência geralmente respeita suas recomendações, disse Shelly Burgess, porta-voz da FDA. A decisão final sobre o fim da proibição será tomada pela chefia do Departamento de Saúde. Ela não tinha um cronograma sobre quando sairá a decisão.

A proibição é defendida por grupos que representam os hemofílicos, que dizem faltar evidências científicas para um abrandamento da decisão. “Apreciamos o altruísmo de quem deseja doar”, disse Mark Skinner, presidente da Federação Internacional de Hemofilia. “Reconhecemos que as políticas de exclusão de doadores são discriminatórias por sua própria natureza.”

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“Atualmente não temos respostas para mudar o sistema”, afirmou Skinner. “Mas por meio de pesquisas seremos capazes de responder as questões críticas necessárias para adaptar o sistema.”

A FDA inicialmente proibiu a doação de sangue dos gays quando o risco de transmissão de AIDS por transfusões foi identificado. Na ocasião, a decisão foi considerada o melhor caminho para manter o estoque de sangue seguro. A restrição se aplica a qualquer homem que admita ter mantido relações sexuais com outro homem desde 1977.

Grupos de direitos dos gays, bancos de sangue e muitos médicos e cientistas consideram que a proibição é inconsistente e antiquada à luz dos avanços dos testes aos quais o sangue doado é submetido.

O sangue é testado rotineiramente para o HIV e outros agentes infecciosos. A FDA emprega múltiplas salvaguardas, incluindo avaliações de doadores e testes informatizados, para garantir que o sangue contaminado não seja distribuído.

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Desde 1980, quando a proibição passou a vigorar, os testes se tornaram muito mais sensíveis e acurados. A FDA não levou isso em conta quando reviu a restrição em anos passados, disse Bebe Anderson, diretor da Lambda Legal, um grupo de direitos dos gays que se opõe à proibição.

“Para nós, esta política é prejudicial e não faz sentido”, disse ela.”Ela afasta doadores saudáveis e transmite uma mensagem errada e nociva sobre o risco de transmissão. É uma triagem baseada na orientação sexual, não no risco. Ela também estigmatiza as pessoas que desejam doar.”

A FDA afirma que a política em relação aos gays não é discriminatória, mas sim baseada em estatísticas. Homens que fizeram sexo com outros homens desde 1977 têm uma taxa de infecção 60 vezes maior que a média da população e 800 vezes maior do que pessoas que doam sangue pela primeira vez. Mesmo os testes mais sensíveis não conseguem identificar uma infecção recente por HIV numa janela de um a dois meses. É por isso que a maioria das agências de coleta de sangue sugere um período de um ano para gays que se mantiveram relações sexuais com outro homem. (As agências de coleta de sangue devem seguir as orientações da FDA.)

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