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É ainda mais nocivo

Estudo americano mostra que o bullying faz mais mal do que se acreditava: reduz a atividade de regiões cerebrais relacionadas à motivação e às emoções

“Noé pôs os pés sobre a toalha, puxou pelos cabelos de Oliver, beliscou-lhe as orelhas e chamou-lhe um nome feio. (…) Em suma, não houve diabrura que não fizesse ou dissesse.” O trecho da obra Oliver Twist, de Charles Dickens, publicada há 180 anos, é a comprovação de que o bullying vem de longe, talvez mesmo de tempos imemoriais. Faltava entender os danos reais, do ponto de vista de formação da personalidade, que esses ataques comuns na juventude podem provocar. Cientistas do King’s College London, no Reino Unido, deram um passo inédito ao revelar, em estudo publicado na revista Molecular Psychiatry, que o bullying é capaz de modificar a arquitetura do cérebro na adolescência e, com isso, favorecer a ansiedade na vida adulta. É o primeiro trabalho a associar a exposição crônica à violência a mudanças neurológicas.

No levantamento, os pesquisadores acompanharam 682 jovens com idade entre 14 e 19 anos da Inglaterra, Irlanda, França e Alemanha durante cinco anos. Em três momentos (aos 14, aos 16 e aos 19 anos), eles foram submetidos a questionários para que se avaliasse se haviam sido vítimas de bullying. Também fizeram exames de ressonância magnética para monitoração do desenvolvimento do cérebro. Ao fim, detectou-se que 36 jovens sofriam bullying de forma crônica. Entre eles, houve redução significativa do volume cerebral em duas áreas: o putâmen e o caudado. Localizadas na base do cérebro, essas estruturas estão associadas aos mecanismos de recompensa, motivação, atenção e processamento de emoções. As alterações estão ligadas a um risco maior de desenvolver transtorno de ansiedade, que se caracteriza pela preocupação excessiva e interfere em situações do cotidiano, como as relações com outras pessoas, o trabalho ou a atividade escolar.

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Estima-se que 30% dos jovens entre 14 e 19 anos sofram constantemente com bullying. Pesquisas anteriores já haviam revelado que os adolescentes expostos a esse tipo de agressão correm um risco até três vezes maior de se tornar ansiosos e ter problemas para lidar com questões do dia a dia. Mas até agora nunca havia sido evidenciado um impacto profundo, como a mudança na estrutura cerebral. O novo trabalho dá um passo fundamental para que se conheçam de modo mais completo os efeitos do bullying no corpo humano.

A adolescência é um momento crítico e sensível. É nessa fase que o organismo começa a desenvolver mecanismos de socialização, como participar de grupos e fazer de tudo para ser aceito pelos colegas. É justamente nesse período que o bullying tende a ocorrer em níveis exponenciais. Diz Guilherme Polanczyk, psiquiatra de crianças e adolescentes no Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo: “Na adolescência, a valência do estímulo social é muito forte. Uma agressão que atrapalhe essa capacidade ganha proporções negativas ainda maiores”.

O bullying é resultado de uma dinâmica de poder desproporcional — na qual o mais forte agride o mais fraco de modo intencional e repetitivo. Ele pode acontecer de diversas formas, por meio de violência física, agressão verbal e mesmo ações indiretas, como isolamento ou exclusão social. A ação do agressor é quase sempre sutil e, geralmente, os adultos — pais e professores — demoram a perceber a situação. As vítimas não costumam reagir, por vergonha ou medo de rejeição, o que aumenta o risco de perpetuação do bullying. Fatores biológicos, comportamentais e genéticos fazem com que a agressão seja mais prejudicial a alguns do que a outros.

Só recentemente o bullying passou a ser pesquisado. Em 1997, a psicóloga americana Susan Swearer começou a estudar o problema. Até pouco tempo atrás, muitos ainda acreditavam que esse tipo de situação pudesse fortalecer o caráter de uma pessoa, que o sofrimento seria um aprendizado. Bobagem. O fato definitivo é que nenhuma dose de bullying é saudável — para ninguém.

Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2019, edição nº 2616