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Desenganada após um AVC, consultora de estilo conta como “renasceu”

"Ganhei uma segunda vida", diz Fabiola Cabral, de 38 anos

Por Fabiola Cabral - Atualizado em 14 fev 2020, 10h42 - Publicado em 14 fev 2020, 06h00

A última lembrança que eu tenho é de estar dirigindo no Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, com uma dor de cabeça lancinante e um enjoo incontrolável. Soube que passei de carro pelo meu marido e ele ficou com a impressão de que eu estava guiando de forma estranha, tirando fino da calçada, mas seguiu para o trabalho. Não tenho a menor ideia de como atravessei um túnel, cheguei ao meu prédio e ainda estacionei na garagem. Despertei quinze dias depois, presa a vários aparelhos em uma UTI, sem entender o que havia acontecido. Para surpresa de quem estava à volta, só falava inglês. Há vários relatos de vítimas de grandes traumas que, logo ao acordar do coma, se comunicam apenas em seu segundo idioma.

Escuto a todo instante que o que aconteceu comigo foi um milagre. Os próprios médicos ficam intrigados com a minha recuperação. Dei entrada no hospital em 24 de setembro passado, um dia antes de fazer 38 anos, completamente contorcida, entre a vida e a morte. Os primeiros exames foram aterradores: indicavam um AVC hemorrágico de enorme extensão. Fui operada às pressas, e aí começou a luta pela sobrevivência. A situação era tão difícil que ninguém sequer falava das possíveis sequelas. Mas, para espanto de todos, deixei o hospital 22 dias depois, andando e sem nenhum comprometimento.

Como uma pessoa tão jovem e saudável é vítima de um AVC tão devastador? Ninguém consegue explicar. Sempre tive alimentação regrada e fazia ginástica seis vezes por semana. Lembro que com uns 20 e poucos anos até procurei um médico porque tinha constantes dores de cabeça, mas nada foi descoberto. Volta e meia minha cabeça me incomodava. Tomava um analgésico, e a dor passava. Naquele dia fui para a academia, senti uma dor muito forte e voltei para casa. Uma conjunção de fatores conspirou para estar hoje aqui — inclusive a sorte. Três horas e meia depois de eu chegar ao meu prédio, uma vizinha estacionou justamente ao lado do meu carro. Estranhou a porta entreaberta. Ao se aproximar para fechá-la, ela me achou desacordada e toda vomitada. Desesperada com a gravidade do que via, em vez de esperar por uma ambulância, ligou para o marido, que, do jeito que estava, correu para me levar ao hospital. Depois lhe disseram que a pressa foi crucial. Mais alguns minutos desacordada, e eu teria morrido naquela garagem.

No início, trocava vários nomes, não me lembrava de muita coisa e confundia outras. Ainda tenho lapsos. Dia desses entrei no elevador e esqueci meu andar. Os médicos dizem que pacientes como eu podem ficar assim por algum tempo. É normal. Também desenvolvi certos medos. Adorava esquiar e, agora em janeiro, quando viajei, achei melhor não arriscar. Tenho receio de bater a cabeça. A experiência de quase morrer me fez encarar a vida de maneira diferente. Sempre fui ligada em moda e continuo sendo, mas era do tipo consumista ao extremo. Fui a Nova York há pouco tempo e não comprei nada para mim. Não preciso. Como influenciadora digital, era a louca do Instagram. Minha relação com o celular e com as redes sociais mudou bastante. Não sinto mais aquela necessidade de postar tudo.

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Estou bem menos ansiosa e mais concentrada no presente. No dia do meu aniversário, quando ninguém sabia se eu resistiria e, menos ainda, quais seriam os danos na eventualidade de eu sobreviver, muita gente se reuniu em uma missa em frente ao lugar onde trabalho. Ainda hoje, pessoas que eu nem conheço direito, de diversas religiões, me param na rua para contar, emocionadas, que pediram muito por mim. Estive bem perto da morte, um pesadelo do qual felizmente escapei. Ganhei uma segunda vida e vou me agarrar a ela.

Depoimento dado a Sofia Cerqueira

Publicado em VEJA de 19 de fevereiro de 2020, edição nº 2674

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