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Depoimento: “Inclusão é convivência”, diz Emílio Figueira

Com paralisia cerebral e aos 50 anos, ele tem dois doutorados e é um autor profícuo

Por Emílio Figueira - Atualizado em 24 jul 2020, 11h26 - Publicado em 24 jul 2020, 06h00

Sofro de paralisia cerebral, problemas de coordenação motora e de fala desde que nasci, em consequência de falta de oxigenação no cérebro durante o parto. Ainda não tinha 5 anos quando comecei um programa de reabilitação física, que me obrigava a usar botas ortopédicas e pulseiras de chumbo nos pulsos. Fui levado a congressos médicos, em que meu corpo era exposto a análises. Na época, não entendia o que estava acontecendo, mas hoje percebo o absurdo de usar seres humanos como cobaias. Apesar de tudo, tive uma infância feliz. Minha família sempre me tratou como uma criança igual às outras, dava bronca e alguns tapinhas na bunda, e fez de tudo para que eu me tornasse independente. Mas sempre tive consciência da minha realidade e sabia que nunca poderia exercer algumas profissões. Como minha capacidade cognitiva não foi afetada, tomei a decisão de trabalhar a mente.

Sempre fui fascinado pela figura do cientista, imaginava o meu quarto como um laboratório, estudava as constelações, desenhava máquinas futuristas. Movido pela curiosidade, foi fácil mergulhar na vida acadêmica. Aos 11 anos, me mudei para o interior de São Paulo e, pela primeira vez, passei a frequentar uma escola regular. Fui muito bem acolhido, mas escrever a mão estava cada vez mais difícil. Minha caligrafia se tornou ilegível e completei o primeiro grau em um supletivo por correspondência, que me permitia utilizar máquina de escrever. Hoje, o teclado, usando apenas um dedo, é meu canal de comunicação, de estudo e de criação.

Aos 16 anos publiquei meu primeiro livro, de poesias românticas, e não parei mais. Sou formado em psicologia e teologia, com cinco especializações e dois doutorados. Ao longo da jornada no mundo acadêmico, publiquei quase uma centena de artigos científicos. Também sou autor de 84 livros, sendo que o mais vendido, uma história da deficiência no Brasil, está na quarta edição. Apesar de ter espasmos por todo o corpo e dificuldade motora nos braços e nas mãos, passo oito horas por dia digitando no computador. Outra atividade, suspensa pela pandemia, é viajar pelo país dando palestras sobre minhas experiências. Tenho dificuldade para falar, então mostro primeiro um pequeno filme, depois projeto o conteúdo com narrador e por fim respondo a perguntas. Aí me policio, falo bem pausadamente, e quase todo mundo entende. Sempre digo: inclusão é convivência.

Passei por dificuldades e situações de preconceito, principalmente depois de adulto. Fui destratado por professores, que confundiam deficiência com atraso mental. Também fui prejudicado por gente de ego inflado. Pessoas inteligentes sempre incomodam. Mas, sinceramente, esses fatos não me abateram e, muitos, com certeza, nem notei, de tão concentrado que estava nos meus objetivos. Já tive mais autonomia física e cheguei a morar sozinho, mas hoje vivo com minha mãe e minha avó. Agora, quando saio, costumo ter um acompanhante. Enfrento o desafio de envelhecer, sentir meu corpo mais cansado e perceber o desgaste de décadas de espasmos contínuos. Ainda há muitas coisas que a ciência não sabe sobre a deficiência na velhice, já que a expectativa de vida para pessoas como eu era muito baixa no passado. Quando era jovem, sonhava em frequentar a vida noturna, conhecer gente diferente, viver aventuras amorosas. Tive uma namorada com quem fiquei três anos, hoje minha melhor amiga, uma relação de muito afeto. Essas coisas podem soar banais para outras pessoas. Para mim, não, é sempre uma superação. Mas não me queixo. Afinal, tenho uma vida boa. Sou apaixonado pelo conhecimento, e isso, apesar dos obstáculos, eu nunca deixei de conquistar.

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Depoimento dado a Julia Braun

Publicado em VEJA de 29 de julho de 2020, edição nº 2697

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