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Covid: os preparativos avançados para a chegada da vacina chinesa no país

O Instituto Butantan erguerá uma fábrica de 7 000 metros quadrados com três pavimentos que será uma réplica do laboratório da Sinovac no país asiático

Por Mariana Rosário - Atualizado em 11 set 2020, 18h23 - Publicado em 11 set 2020, 18h10

Uma das quatro vacinas autorizadas para realizar testes no país é a da Sinovac Biotech, uma farmacêutica chinesa. O trabalho de testar 9.000 voluntários brasileiros é realizado em parceria exclusiva com o Instituto Butantan, reputado centro de imunizantes localizado na capital paulista. Participam dos ensaios clínicos cinco estados e o Distrito Federal.

Com a aprovação do medicamento pela Anvisa, prevista para ocorrer ainda neste ano, o Butantan iniciará a construção de uma fábrica de cerca de 7.000 metros quadrados dedicada à produção da CoronaVac, como é chamado o fármaco. Trata-se de uma das maiores unidades nas dependências do local que conta com seis outras áreas de produção de imunizantes. O prédio terá  três pavimentos. O empreendimento custará 130 milhões de reais — o que inclui a compra do equipamento necessário. O valor será custeado por meio de doações de empresas e grupos filantrópicos privados.

Por enquanto, o edifício que abrigará a nova fábrica passa por um processo de desmontagem. Antes da pandemia, a edificação funcionava nos moldes de um almoxarifado e seus antigos laboratórios receberam estudos clínicos esporádicos. 

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“Será uma réplica das instalações dos laboratórios da Sinovac na China. Como trabalharemos com o mesmo produto, é natural que as estruturas também sejam semelhantes para repetir os processos”, diz Rafael Lubianca, diretor de infraestrutura do Butantan. Ou seja, o projeto final só será colocado de pé após a aprovação da proposta pelo laboratório chinês. A nova fábrica terá cerca de trezentos especialistas do Butantan, sem contar os funcionários de limpeza e segurança. Ao todo, a instituição conta hoje com 2.500 colaboradores que devem estar envolvidos na produção da vacina mesmo que indiretamente.

A nova fábrica seguirá padrões de segurança tradicionais ao Butantan, que produz seis outras vacinas atualmente: influenza trivalente, HPV, hepatite B e A, DTPa — para difteria, tétano e coqueluche— e raiva . Haverá, por exemplo, paredes especiais que permitem a limpeza sem deixar resíduos e higienização periódica feita com desinfetante e água ultrafiltrada. Outro sistema que deve ser instalado é o de purificação do ar para que materiais particulados, como a poeira, não poluam as dependências da fábrica causando contaminação. A entrada de pessoas também passará por um restritíssimo protocolo de segurança. 

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Na atual fase de testes, a estimativa é que todos os voluntários recebam as duas doses do medicamento, ou placebo, até o final de setembro. Até agora, não há relatos de efeitos adversos graves entre os que já receberam as doses. Somente dor no local da aplicação e quadros de indisposição. Os voluntários relatam que a sensação é bem semelhante ao receber outras vacinas já tradicionais.

 

Acordo

O acordo com o laboratório chinês é diretamente negociado pelo Butantan. O contato entre eles é por meio de ligações diárias em um aplicativo de videochamadas semelhante ao zoom. “São duas sessões diárias, às 10 e às 22 horas, para atenuar o fuso horário entre os dois países”, diz o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas. Nas conversas, totalmente em inglês, participam uma dezena de técnicos do Butantan. Com no máximo uma hora de duração, as reuniões têm a função de discutir detalhes científicos ou financeiros do acordo e são absolutamente fundamentais para a produção da vacina, uma vez que a empresa não tem escritório de representação no país.

A parceria entre os grupos foi anunciada em 11 de junho, cerca de um mês após o início das negociações formais, feitas também por reuniões virtuais. A Sinovac já ensaiava uma relação próxima com o Butantan por interesse mútuo na produção de medicamentos como vacinas da dengue e hepatite B.  Antes de fechar o acordo com os chineses, Dimas Covas realizou um giro entre os principais laboratórios do mundo para saber o que vinha sendo feito em termos de pesquisas para produzir respostas à Covid-19. 

“Assim que surgiram relatos do novo coronavírus começamos a conversar com diversas companhias, inclusive com Oxford e Astrazeneca para saber dos estudos em andamento. Com a análise, percebemos que a vacina mais adiantada era da Sinovac e fizemos um contrato de desenvolvimento. Escolhemos essa opção exatamente por ser uma tecnologia que nós já temos experiência. Esse tipo de vacina de vírus inativado já é usada há muito tempo”, comenta. 

Doses

A primeira etapa será da entrega de 15 milhões de doses iniciais do imunizante pronto para aplicação, em seringas. O envio será feito em três lotes de 5 milhões de doses entre outubro e dezembro. As injeções chegarão envolvidas em plástico e depositadas em caixinhas de papelão da cor branca e laranja com a descrição do laboratório Sinovac, refrigeradas em – 20 ºC dentro de  aviões cargueiros. Outra encomenda a ser recebida a partir de outubro é uma solução líquida com o vírus inativado. Ao todo, o instituto planeja entregar aos brasileiros 120 milhões de doses. 

O trabalho realizado pelo Instituto, no entanto, ainda é encarado com certo desdém de pessoas que correm às redes sociais para criticar a aliança da organização com um laboratório chinês. A postura negativa em relação ao medicamento, inclusive, incomoda os técnicos do instituto. “Quero saber qual será a desconfiança dessas pessoas quando a vacina estiver aqui. Se vão tomar ou não. O Butantan tem tradição e jamais iria se relacionar com alguém que não tem qualidade e segurança na produção de vacinas”, enfatiza Covas.

Nesta sexta-feira, 11, o Brasil teve médias móveis atualizadas em 27.047,4 diagnósticos e 696,4 mortes por conta do novo coronavírus. Os números repetem a tendência de queda na qual o país entrou nas últimas semanas.

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