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Estudo exclusivo revela a expectativa dos brasileiros para o pós-pandemia

Levantamento do instituto Locomotiva para VEJA quantifica o impacto da doença na vida das pessoas e os temores para os próximos meses

Por Edoardo Ghirotto - Atualizado em 11 set 2020, 10h21 - Publicado em 11 set 2020, 06h00

Há seis meses a rotina do país começou a sofrer uma mudança radical devido ao enfrentamento do novo coronavírus. Alguns indicadores importantes, como o da redução das curvas da doença, mostram hoje que o pior pode ter ficado para trás (veja a reportagem na pág. 40), mas foi enorme o custo para chegar até a esta fase, que permite certas doses de alívio e de otimismo. A conta altíssima se materializou em uma catástrofe humanitária que já ceifou mais de 128 000 vidas. Fatores como a postura negacionista do presidente e a falta de disciplina das pessoas contribuíram para criar uma quarentena à brasileira. Essa paralisação confusa e menos rigorosa do que a necessária provocou estragos na economia sem trazer os benefícios de desacelerar suficientemente as contaminações. As projeções do mercado financeiro para o encolhimento do PIB têm variado de 5% a 6%, enquanto o desemprego poderá atingir 18%. Embora o ritmo de retorno às rotinas normais esteja acelerando em todo o país, a população carrega ainda mais traumas e cicatrizes do que se imaginava em relação ao sufoco enfrentado nesse passado recente, conforme mostra uma pesquisa exclusiva de VEJA feita pelo instituto Locomotiva. O mesmo estudo mediu também as expectativas dos brasileiros quanto ao futuro. Nesse aspecto, parafraseando o escritor Ariano Suassuna, o sentimento é de um realismo esperançoso: vislumbram-se dias melhores, mas ninguém acredita em milagres. “A única certeza é que nada será como antes”, afirma Renato Meirelles, presidente do Locomotiva. “Há um grande freio de arrumação civilizatório em curso.”

No levantamento do instituto feito por telefone com 2 432 pessoas em 72 cidades do Brasil, entre os dias 14 e 16 de agosto, 65% dos entrevistados disseram acreditar que ainda estamos no meio da pandemia, um porcentual semelhante espera a chegada da vacina apenas para 2021 e a maioria relatou sérios desfalques no bolso provocados pela crise. Em média, seis em cada dez afirmam que sofreram impacto negativo na renda. Questionados sobre o pagamento de contas no período, quase metade disse que está com os boletos atrasados. A inadimplência atinge 34% das pessoas das classes A e B, mas já alcança 70% dos brasileiros que integram as classes D e E. “Um período muito grande e longo de pandemia desestruturou o tecido econômico do país, seja do lado produtivo, seja do lado dos trabalhadores”, diz Helio Mattar, diretor do Instituto Akatu de promoção do consumo consciente. Só no estado de São Paulo, o índice de calote nas mensalidades de escolas privadas está há três meses acima de 20%, um acréscimo de 12% em relação ao mesmo período no ano passado. No setor de serviços, as perdas chegaram perto de 80%.

A falta de dinheiro e de confiança da população continua se materializando em prejuízos, como demonstra a realidade verificada nos corredores ainda vazios dos centros de compras. No fim de agosto, o Brasil voltou a ter 100% dos shopping centers abertos no país. Os estabelecimentos, no entanto, acumulam sucessivas decepções desde a retomada. Na semana do Dia dos Pais, por exemplo, as vendas registraram uma queda de 28,4% em relação ao período equivalente na pré-­pandemia. Representantes do setor apostam numa recuperação gradual, mas, a julgar pelo temor do brasileiro em relação ao novo coronavírus, a retomada não será tão imediata. O Locomotiva constatou que 81% das pessoas pretendem comprar menos em shoppings. Outras 67% vão investir menos em roupas, em comparação com o passado, enquanto 73% querem gastar menos em calçados. Um porcentual equivalente a 64 milhões de brasileiros respondeu que está determinado a adquirir menos produtos do que antes.

FUGA - Restaurante em Lisboa: com desejo de morar fora, brasileiros entraram com mais pedidos de visto em Portugal – Horacio Villalobos/Getty Images

Em boa parte, a política de fechar o bolso se justifica pela desconfiança no ritmo da retomada da economia. Segundo a pesquisa, 49% das pessoas acham que o país só vai se recuperar em 2022 (ante 41% que esperam uma virada já no próximo ano). Em momentos de desesperança, uma ideia recorrente é a da porta de saída: entre os entrevistados, 51% manifestam o desejo de morar no exterior se tiverem condições. É um número impressionante e, em outros levantamentos, jamais havia passado da faixa de 40%. Não por coincidência, o governo de Portugal comunicou recentemente que o número de estudantes brasileiros que entraram com pedido de visto no país aumentou 18%, na comparação com 2019. “Vivemos uma sucessão de crises há muito tempo. Essa crença de que teremos um novo período de dificuldades tão longo e tão profundo que colocará em risco o futuro do país e das condições de emprego acelera as percepções de saída”, analisa o economista Sérgio Vale, da consultoria MB Associados.

No campo político, o pagamento do auxílio emergencial a 67,2 milhões de pessoas (32% da população) aumentou a popularidade de Jair Bolsonaro durante a crise da Covid-19, como mostram as últimas pesquisas de opinião. Mas o pessimismo escancarado dos brasileiros deixa dúvidas sobre como vão reagir em relação ao presidente quando a degradação da economia ficar mais evidente com o aumento dos níveis de desemprego. Segundo o estudo do Locomotiva, Bolsonaro, que ainda sofre com uma rejeição elevada, terá de lidar com 67% dos brasileiros que estão insatisfeitos com a política do país e com 58% que se mostram descrentes em relação ao futuro do Brasil nessa área. O trauma provocado pela Covid-19, portanto, irá muito além da tragédia humanitária que a nação enfrenta desde março. Administrar um rombo econômico diante de uma população tão desiludida deixa evidente o tamanho do desafio que o governo terá de enfrentar.

EM QUEDA - Serviços: o setor já amargou 77% de perdas durante a pandemia – Luis Alvarenga/Getty Images

No entanto, embora muitos aspectos do futuro ainda estejam cercados de uma grande zona cinzenta, o vírus parece ter trazido a certeza de mudanças profundas no comportamento social e de lazer dos brasileiros daqui para a frente. De acordo com a pesquisa, mesmo quando a quarentena acabar, 53% afirmam que continuarão evitando praias e parques, 43% não irão a comércios de rua e 40% não pretendem frequentar restaurantes. Por mais que a pandemia tenha provocado um rastro de desilusão, as pessoas entrevistadas também enxergam alguns sinais positivos para a sociedade após o fim do surto. A maioria diz que os brasileiros estarão mais solidários, terão maior cuidado com a higiene e ficarão mais abertos à tecnologia. “A alfabetização digital aconteceu a fórceps para parte da população. Agora temos um consumidor mais conectado, mais consciente e disposto a gastar menos do que antes”, afirma Meirelles.

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Em um sinal contraditório, os entrevistados também se mostram otimistas em relação ao próprio futuro e a uma melhora na sua situação financeira, como se isso fosse dissociável dos desafios econômicos do país. “As pessoas ainda mantêm essa percepção de que vão conseguir vencer se batalharem e se esforçarem, a despeito das condições externas adversas”, afirma a socióloga da Unicamp Mariana Chaguri. Quando olha para o próprio umbigo, o brasileiro revela-se um realista esperançoso.

Publicado em VEJA de 16 de setembro de 2020, edição nº 2704

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