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Quando melhora? Os cenários para a pandemia no Brasil nos próximos meses

Na previsão mais otimista dos especialistas, número de casos e mortes pode cair ainda neste semestre - mas só com a entrega das vacinas compradas

Por Mariana Rosário, Gabriel Mascarenhas, Eduardo Gonçalves Atualizado em 18 mar 2021, 23h20 - Publicado em 5 mar 2021, 06h00

Vacina, vacina, vacina. O mundo inteiro sabia que essa era a principal forma de combater a pandemia no Brasil. A ciência fez a sua parte e entregou em prazo recorde mais de uma solução. Sem estar protegido contra males como o negacionismo, a busca por uma pílula mágica de tratamento preventivo e a falsa dicotomia entre saúde e economia, o país fez praticamente tudo de errado desde o início na guerra contra o vírus e está fracassando agora também na campanha de imunização. Por aqui, o ritmo diário de vacinação não tem passado de 0,1 para cada 100 pessoas. Israel, maior referência atual no mundo nessa questão, avança onze vezes mais rápido e colhe os frutos desse esforço, com redução de 41% de casos de Covid. Enquanto a nação do Oriente Médio já protegeu mais da metade de sua população com uma dose, o Brasil atingiu até agora apenas 3,5% das pessoas. Não por acaso, vem batendo recordes sucessivos de casos e de mortes, o que levou os hospitais públicos e privados a um nível de exaustão inédito na história.

Tamanho atraso é fruto direto de uma catástrofe de planejamento. Enquanto outras nações já haviam iniciado o processo de imunização no fim do ano passado, o Brasil demorou até o dia 17 de janeiro para começar as aplicações, ainda assim, graças à insistência do governador paulista João Doria (PSDB) e ao trabalho do Instituto Butantan no desenvolvimento da CoronaVac em parceria com os chineses da Sinovac, vacina combatida e ironizada por Jair Bolsonaro durante muito tempo por picuinhas com o político tucano, até que a falta de alternativas o levou a ceder. Até hoje, ela é responsável por oito em dez vacinas aplicadas no Brasil. Desde 18 de janeiro, início da imunização nacional, foram distribuídas irrisórios 18,4 milhões de doses aos postos de saúde e drive-thrus. Sem a CoronaVac, a situação seria ainda pior. “As próximas duas semanas serão as mais duras e graves”, afirmou Doria, ao anunciar na quarta 3 a regressão de São Paulo à fase mais severa de restrições de circulação, medida de emergência adotada também por vários outros estados, como Rio Grande do Sul e Bahia.

DESOLAÇÃO - Pazuello e a cidade de Brasília fechada (ao lado): “A situação fugiu completamente do controle” -
DESOLAÇÃO - Pazuello e a cidade de Brasília fechada (ao lado): “A situação fugiu completamente do controle” – Cristiano Mariz; Eraldo Peres/AP/Imageplus/.

O sufoco atual da vacinação a conta-gotas só começará a ser aliviado a partir do fim de abril, quando a Fiocruz entregará o primeiro lote (30 milhões) do imunizante desenvolvido pela Universidade de Oxford, em parceria com o laboratório AstraZeneca, mas agora formulado e envasado na instituição do Rio de Janeiro (principal aposta do governo federal para proteger a população, as vacinas do tipo aplicadas até agora no Brasil foram importadas da Índia). Em paralelo, o Butantan vem aumentando sua capacidade de entrega. Em breve, ao que tudo indica, será a vez de as vacinas da Pfizer e da Janssen engrossarem a lista. Na quarta-feira, como revelou a coluna Radar, o governo brasileiro oficializou a intenção de compra de 138 milhões de doses dessas fabricantes para 2021. Caso esses contratos sejam realmente assinados (a expectativa é que isso ocorra na próxima semana), o Brasil tem acertado para receber de abril até dezembro 465 milhões de doses, quantidade suficiente para imunizar toda a população (além de CoronaVac, Oxford/AstraZeneca, Pfizer e Janssen, o país firmou acordos com a indiana Covaxin e o consórcio Covax).

Pandemia no Brasil

Os avanços recentes representam um alívio, mas o movimento ainda é insuficiente para garantir o aumento substancial na velocidade de imunização de que o Brasil precisa diante da crise. Uma conta dá a dimensão do desafio. De acordo com cálculos de especialistas consultados por VEJA, se o país tivesse para distribuição imediata os 465 milhões de doses, nada menos que 70% da população estaria imunizada até o fim do ano. Infelizmente, não é factível contar imediatamente com todas essas vacinas, dados os prazos de entrega dos fabricantes e os consideráveis enroscos burocráticos ainda a ser superados. Mas o Brasil precisa se aproximar dessa meta o máximo possível — e o cenário para os meses seguintes permite algum otimismo. Do total de 465 milhões de doses garantidas ou em vias de ser contratadas, cerca de 45% têm um cronograma definido para distribuição até julho. Elas serão suficientes para vacinar todas as pessoas mais vulneráveis, como homens e mulheres acima de 60 anos. A imunização vai gerar um impacto em 76% das mortes e 56% de internações, no mínimo.

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O problema é que, mesmo no caso dos contratos já assinados, não será simples cumprir à risca o plano em um ambiente em que os fabricantes enfrentam dificuldades para honrar com os prazos devido à enorme e urgente demanda mundial. Por aqui, percalços do tipo levaram a interrupção da campanha de vacinação no mês passado por alguns dias em cidades como o Rio. Nas negociações em estágio avançado de andamento, o desafio será maior. Tome-se como exemplo o caso da Pfizer. Os contatos começaram em agosto e, em dezembro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a anunciar a possibilidade de receber um primeiro lote ainda em 2020. Nada disso aconteceu e, enquanto as conversas com o governo federal se arrastavam, a farmacêutica negociou com mais de sessenta países. Agora, o Brasil vai entrar na fila de espera. A previsão inicial é de 8 milhões de doses em junho, e o restante, 92 milhões, somente para o fim do ano. As negociações com a empresa americana avançaram no último fim de semana com ajuda do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que virou o mediador entre o Planalto e os gestores estaduais. Ele foi o responsável por dar a boa notícia aos governadores em almoço na terça 2. O primeiro ato concreto veio no mesmo dia com aprovação no plenário da Câmara do projeto de lei 534/21, que prevê que a União, estados e Distrito Federal e municípios assumam os riscos relacionados a eventuais efeitos adversos que possam ter as vacinas — a cláusula foi colocada sob medida para destravar a negociação com a Pfizer.

Vacina do Covid no Brasil

Qualquer demora nessa fase de garantir uma vacinação em massa é fatal, como bem ilustra o caso brasileiro. A falta de planejamento e as falhas de gestão contribuíram decisivamente para milhares de mortes desnecessárias, um saldo trágico que nunca será apagado da história. O cenário nas UTIs é de enorme preocupação. Levantamento da Fiocruz revelou que dezoito estados mais o Distrito Federal têm lotação de leitos acima dos 80%. A nova escalada de casos no Brasil está ligada, sobretudo, ao abandono progressivo das medidas de isolamento e às inaceitáveis aglomerações vistas no fim do ano e no Carnaval. O isolamento social no país, que jamais chegou ao desejável patamar de 70%, atingiu agora míseros 33%. “Está claro que o comportamento de risco resultou no aumento da doença”, diz o infectologista David Uip, do Hospital Sírio-Libanês e reitor do Centro Universitário Saúde ABC. Para além do quesito comportamental, não se pode ignorar o papel das novas mutações do coronavírus. A brasileira, originada em Manaus, tem uma potência dez vezes maior de transmissão.

SEM NOÇÃO - Bolsonaro em mais uma aglomeração: o negacionismo do presidente continua em alta -
SEM NOÇÃO - Bolsonaro em mais uma aglomeração: o negacionismo do presidente continua em alta – Clauber Cleber Caetano/PR

Para enfrentar esse inimigo implacável, o país contou até agora com apenas duas armas, a CoronaVac e a Oxford/AstraZeneca. Por falta de mais munição, em vez de vacinar 1 milhão de pessoas por dia, que é a capacidade inicial brasileira, a média diária raramente ultrapassa 20% desse potencial. No dia 17 de fevereiro, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, entregou uma planilha aos governadores com a previsão da chegada dos novos lotes de vacina. Extremamente otimista, esse plano inclui acordos de compra ainda não totalmente formalizados (Pfizer e Janssen) e outros em estágios ainda mais embrionários de negociação com os fabricantes e sem aprovação da Anvisa, a exemplo da Sputnik V, da Rússia. O documento tinha o objetivo de tranquilizar os políticos, que começaram a se desesperar com o tamanho da crise. O gesto teve efeito colateral, aumentando a sensação de insegurança dos governadores quanto à atuação de Pazuello. Até a logística, a suposta maior especialidade do ministro, provou-se um fiasco. Na semana passada, um avião levou 78 000 frascos de vacina destinados ao Amazonas para o Amapá, que esperava apenas 2 000 doses. Segundo agentes que acompanharam a trapalhada, o erro foi da equipe da planilha do Ministério da Saúde, que trocou os lotes na hora do registro, e só percebeu a confusão quando a aeronave já havia decolado. A barbeiragem foi consertada no dia seguinte.

O comandante de Bolsonaro na linha de frente da pandemia tem a exata medida da catástrofe produzida pelo coronavírus. Numa conversa recente com um integrante da base aliada, Pazuello admitiu: “A situação fugiu completamente do nosso controle”. Há pouco mais de duas semanas, o Ministério da Saúde emitiu uma nota oficial em que pedia ajuda à Casa Civil para destravar as negociações com Pfizer e Janssen, dois laboratórios, que, segundo o governo, vinham fazendo exigências que não são permitidas pela legislação brasileira. O que parecia apenas uma solicitação de cooperação entre dois braços do Executivo na verdade expõe uma antiga insatisfação de Pazuello. Desde o fim do ano passado, ele vinha se queixando a pessoas de sua confiança que considerava injustas as cobranças pelo insucesso das conversas com Pfizer e Janssen. Achava que isso não podia cair na sua conta. Justificava que sua caneta não tinha tamanho para assinar um contrato que desrespeitava as leis brasileiras e que tal passo dependeria de uma decisão de governo. Em outras palavras, Pazuello estava dizendo que cabia ao Palácio do Planalto, e não ao seu ministério, dar uma solução ao imbróglio. O ministro também anda dizendo a amigos que se sente injustiçado por ser alvo de uma investigação aberta pela PGR para apurar, entre outras coisas, por que sua pasta estimulou o tratamento de Covid-19 com hidroxicloroquina. Em conversas particulares, Pazuello diz ainda que nunca foi negacionista, tampouco defensor ideológico desse remédio. Defende-se dizendo que reza a cartilha de seu chefe e põe na rua as políticas públicas desenvolvidas pelo corpo técnico. Para mais de uma pessoa, já deixou claro que não compactua com uma parte considerável das pregações do capitão. “O problema é que o ministro da Saúde na verdade se chama Jair Bolsonaro. Apesar de ser uma pessoa afável, o Pazuello é inepto, não se comunica bem e, quando fala, é inseguro, nunca tem certeza de nada”, critica um governador.

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Arte pandemia 3

A lentidão da pasta em acelerar o programa de imunização levou os chefes de executivo estaduais a tentar resolver o caso negociando diretamente novos contratos com os fabricantes. Eles se uniram em um consórcio encabeçado por Rui Costa (PT), da Bahia, visitaram fábricas e fizeram reuniões com as embaixadas da Rússia, China e Índia e com empresários. O resultado mais concreto que o movimento gerou até aqui foi o de aumentar a pressão sobre o Ministério de Saúde. A retomada de conversas com a Pfizer foi contabilizada pelo grupo como uma vitória dessa tática de atuação para tirar a pasta da inércia.

No momento em que o país mais precisa de ações coordenadas, nunca foram tão grandes as diferenças entre as autoridades estaduais e federais. Nos últimos dias, de forma a evitar o desgaste de levar sozinhos a culpa pelas medidas restritivas de circulação (necessárias e urgentes, mas altamente impopulares), os gestores estaduais pediram ao Ministério da Saúde que baixasse uma determinação em prol do isolamento social em nível nacional. Na opinião deles, uma simples declaração do presidente ou do titular da pasta nesse sentido já poderia ser mais eficaz do que um lock­down para manter a população em casa. “Teríamos uma adesão maior da população”, afirma Carlos Lula, presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde. De Pazuello, só veio o silêncio. E de Bolsonaro, a postura totalmente contrária.

ALÍVIO - O primeiro-ministro britânico Boris Johnson: redução de 80% nos riscos de internação -
ALÍVIO - O primeiro-ministro britânico Boris Johnson: redução de 80% nos riscos de internação – Christopher Furlong/AFP

Em um espaço de dois dias, o presidente conseguiu desacreditar com palavras e atitudes as duas ferramentas cientificamente comprovadas que podem ajudar a conter a pandemia. Em uma live, desestimulou o uso da máscara ao citar um “estudo” de uma “universidade alemã” que dizia que elas eram prejudiciais às crianças — na verdade, a pesquisa se referia a uma enquete on-line feita por cinco docentes da pouco conhecida Universidade Witten/Herdeck. No dia seguinte, Bolsonaro provocou aglomeração de centenas de pessoas ao inaugurar obras viárias em Tianguá, no Ceará — estado que vive o seu pior momento na crise. Ameaçou ainda os governadores de que não enviaria o dinheiro do auxílio emergencial àqueles que decretassem o lockdown. Como cereja do bolo de sandices, divulgou em redes sociais dados distorcidos sobre repasses de verbas aos estados, levantando suspeitas sobre desvios de recursos por parte de governadores. A reação veio em forma de uma carta dura, assinada por dezenove chefes de Executivos esta­duais. Segundo o texto, a gestão Bolsonaro usa “instrumentos de comunicação oficial, custeados por dinheiro público”, para produzir “informação distorcida e gerar interpretações equivocadas”.

Enquanto se abre um novo capítulo da crise federativa, o capitão segue firme na cruzada negacionista. Até quem entra no seu gabinete com o rosto protegido ganha cara feia como se fosse uma ofensa direta a ele. No último domingo, Bolsonaro recebeu os ministros Pazuello, Paulo Guedes (Economia), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e os presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco (DE­M-MG), respectivamente, para uma reunião no Palácio da Alvorada. Na ocasião, abriu seu repertório de palavrões para criticar os lockdowns decretados em alguns estados. No mesmo encontro, porém, sinalizou que o governo deve agilizar a compra de vacinas, tão bombardeadas por ele desde sempre. Em outra reunião recente, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, repetiu em privado o que já havia dito numa live: gostaria de se vacinar ao lado do chefe. Bolsonaro rechaçou na hora e reiterou que não dará o braço a torcer.

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Aos olhos internacionais, o Brasil virou exemplo de tudo o que não se deve fazer no combate à pandemia e, diante do descalabro de gestão, tornou-se também um perigoso laboratório para o desenvolvimento de novas cepas — já são pelo menos duas novas mutações nascidas aqui, a do Amazonas e outra, em estágio mais inicial, no Rio de Janeiro. O mundo, por outro lado, começa a colher os resultados positivos da vacinação em massa, combinados às políticas mais eficazes de isolamento social. No Reino Unido, a vacinação de pessoas com mais de 70 anos reduziu o risco de internação dos imunizados em 80%. Nos Estados Unidos, o número de mortes entre residentes de casas de repouso despencou 66%.

Os bons ventos começam a fazer com que as fronteiras internacionais pouco a pouco se abram. O Brasil, porém, permanece como um pária. Há restrições para os brasileiros em diversos países de todos os continentes. O jornal americano The New York Times categorizou a situação do país como um alerta de risco para o mundo, sobretudo pelo surgimento da variante nascida em Manaus e o avanço vagaroso da imunização. A publicação mira na falta de liderança sem embasamento científico do presidente Jair Bolsonaro. O nível de irresponsabilidade chegou a tal ponto que se fala no Congresso em uma CPI da Covid. Apurar responsabilidades por essa catástrofe é importante, mas a situação exige priorizar um acordo nacional para acelerar ao máximo a imunização. Todos os esforços têm de ser direcionados na busca das doses necessárias — um processo que está em andamento e num momento péssimo. Depois, haverá bastante tempo para punir os responsáveis. O pacto pela vida pode ser resumido assim: vacina, vacina, vacina.

Colaboraram Tatiana Farah e Alexandre Senechal

Publicado em VEJA de 10 de março de 2021, edição nº 2728

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