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Evolução do laser favorece cirurgia de miopia após os 40 anos

As operações antes eram pouco recomendadas a partir dessa faixa etária

Por Adriana Dias Lopes - Atualizado em 27 set 2019, 09h53 - Publicado em 27 set 2019, 06h55

A miopia é companheira da infância ao início da maturidade. Começa com um par de óculos, eventualmente chega às lentes de contato. Ali pelos 40 anos de idade ou mais, depois de longa convivência com o problema, o cidadão toma coragem, decide, enfim, enfrentar o laser para viver sem acessórios e ouve do oftalmologista: “Já não vale a pena, porque em breve surgirá outro problema, o da vista cansada, e os óculos serão novamente necessários”.

Tal cenário mudou. Há uma novidade, oferecida há algum tempo e que, agora, virou regra: recomenda-se a operação mesmo à pessoa que já entrou na maturidade, porque o laser de alta precisão permite a correção simultânea — eis o pulo do gato — para quem vê mal de longe (a miopia) e de perto (a presbiopia, a tal vista cansada). Chamado de monovisão, o procedimento faz com que um defeito corrija o outro. Em linhas gerais, o cirurgião elimina a miopia de um olho e mantém um grau residual no outro (veja o quadro).

“Por um interessante mecanismo cerebral, esse resíduo controlado de grau de miopia ameniza naturalmente a presbiopia e não interfere de forma significativa na visão de longe”, diz Marcony Santhiago, professor de oftalmologia na Universidade de São Paulo e na Universidade do Sul da Califórnia. O segredo tecnológico: antes, os aparelhos disparavam feixes na córnea. Agora, o contato é feito por pontos minúsculos, o que aumenta a precisão. Em cada dez pessoas submetidas à técnica, nove deixam de usar óculos. Independentemente de sexo, classe social ou nacionalidade, qualquer pessoa com mais de 45 anos sofre de vista cansada.

Ela é causada pelo envelhecimento do organismo. Com o passar dos anos, o cristalino — a estrutura que funciona como uma lente nos olhos, ajudando no foco das imagens — torna-­se mais enrijecido, o que deflagra a dificuldade de visão. É inexorável, e não há realmente muito que se possa fazer. A miopia, contudo, pode ser vista sob outro ângulo. É fruto, hoje em dia, do moderno cotidiano, em que os indivíduos estão permanentemente debruçados em telas de smartphone, computador e televisor. Uma a cada três pessoas é míope e tem, portanto, dificuldade para enxergar de longe. São 2,5 bilhões de mulheres e homens. Em 2050, estima-­se que metade da população mundial será obrigada a usar algum tipo de correção ocular, ou então terá passado por uma cirurgia. “Não seria exagero afirmar que existe uma epidemia de miopia”, diz a oftalmologista Andrea Zin, pesquisadora do Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

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Evidentemente, o duplo ajuste cirúrgico é um alento, representa uma esperança — convém, contudo, não ter essa ficha à mão como boia de salvação. O melhor caminho, como sempre na medicina, é o da prevenção. Trata-se de evitar a exposição exagerada à luz artificial. Um estudo conduzido pelo King’s College London, no Reino Unido, comprovou a tese. Os pesquisadores entrevistaram 3 000 jovens. Os voluntários davam informações sobre sua profissão ou atividade principal e quanto tempo permaneciam ao ar livre. Aqueles que haviam ficado expostos por mais tempo ao sol, em especial os que se encaixavam na faixa etária dos 14 aos 19 anos, eram 25% menos propensos a desenvolver miopia. Conselho: desplugar-se, um pouquinho que seja.

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2019, edição nº 2654

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