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Cigarro eletrônico pode danificar as células em apenas 30 minutos

Estudo mostra que a inalação provoca estresse oxidativo e é um risco para doenças pulmonares e cardiovasculares

Por Cilene Pereira Atualizado em 17 ago 2021, 19h40 - Publicado em 16 ago 2021, 15h19

Sem fumaça, sem cheiro, sem bituca. O cigarro eletrônico – também chamado de vape ou e-cigarrete – foi lançado no comércio em 2003, como uma uma boa opção para substituir o tradicional sob o argumento de não vicia e nem causa danos à saúde. Mas os vaporizadores, como também são conhecidos esses dispositivos, não são tão inofensivos assim. Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia (UCLA), publicado na semana passada pela revista científica JAMA Pediatrics, mostrou que uma única sessão de 30 minutos de vaporização pode aumentar o estresse oxidativo celular que ocorre quando o corpo tem um desequilíbrio entre os radicais livres – moléculas que causam danos às células – e os antioxidantes. “Com o tempo, esse desequilíbrio pode desempenhar um papel significativo na causa de certas doenças, incluindo problemas cardiovasculares, pulmonares e neurológicas, assim como o câncer”, disse a médica Holly Middlekauff, professora de cardiologia e fisiologia na Escola de Medicina David Geffen da UCLA autora sênior do estudo.

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O estudo analisou 32  homens e mulheres com idades entre 21 a 33 anos, que foram divididos em três grupos: 11 não fumantes, nove fumantes regulares de cigarros e 12 fumantes regulares de cigarros eletrônicos. Os pesquisadores coletaram células imunes de cada participante antes e depois de uma sessão de vaporização de meia hora para medir e comparar as mudanças no estresse oxidativo entre os grupos. O mesmo processo foi feito durante uma sessão de controle, na qual os participantes passaram 30 minutos “simulando”, ou soprando em uma palha vazia.

Os cientistas descobriram que em não-fumantes, os níveis de estresse oxidativo eram duas a quatro vezes mais altos após a sessão de vaporização do que antes. A mesma exposição de 30 minutos não levou a um aumento do estresse oxidativo entre os fumantes regulares de cigarro e de cigarros eletrônicos – provavelmente porque os níveis básicos de estresse oxidativo já estavam elevados. “Ficamos surpresos com a gravidade do efeito que uma sessão de treinamento pode ter sobre os jovens saudáveis”, disse Holly Middlekauff. “Esta breve sessão não foi diferente do que eles podem experimentar em uma festa, mas os efeitos foram dramáticos”.

Os resultados são preocupantes, dizem os pesquisadores, porque a popularidade do cigarro eletrônico continua a aumentar, particularmente entre os adolescentes e os jovens adultos. “Embora haja uma percepção de que os cigarros eletrônicos são mais seguros que os cigarros de tabaco, essas descobertas apontam o contrário”, disse Middlekauff. “Os resultados são claros, inequívocos e preocupantes.”

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O que diz a OMS

O estudo da UCLA vem ao encontro de um relatório divulgado no mês passado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Segundo o documento, o cigarro eletrônico é prejudicial à saúde. “A nicotina é muito viciante, e os cigarros eletrônicos são perigosos e devem ser regulamentados”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

De acordo com o oncologista torácico Carlos Gil Ferreira, presidente do Instituto Oncoclínicas, embora não tenha muitas das substâncias tóxicas liberadas pela queima do tabaco, o cigarro eletrônico libera outros elementos que podem ter potencial cancerígeno “O dispositivo tem um depósito onde é colocado um líquido concentrado de nicotina, que é aquecido e inalado pela pessoa. Esse líquido, além da nicotina, tem ainda um produto solvente e um químico de sabor. Isso é prejudicial e estudos estão em andamento para avaliar a relação com câncer de pulmão”, diz o médico.

A OMS alerta que os fabricantes desses produtos buscam atrair adolescentes com uma enorme variedade de aromas e sabores, por exemplo. A preocupação é que a nicotina tem efeitos dramáticos no desenvolvimento do cérebro em menores de 20 anos de idade e ainda considera que as crianças que usam esses dispositivos têm mais chances de se tornarem fumantes na vida adulta.

No Brasil, a comercialização, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas pela ANVISA. Porém, segundo a OMS, 84 países não contam com quaisquer medidas contra a proliferação deste tipo de produto. Outros 32 países proíbem a venda desses cigarros eletrônicos de nicotina e 79 adotaram pelo menos uma medida para limitar seu uso, como a proibição da propaganda. É importante alertar que o tabagismo mata 8 milhões de pessoas por ano, das quais 1 milhão são fumantes passivos, segundo a OMS.

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