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Cigarro eletrônico: onde há fumaça, há fogo

As mortes e os casos graves associados ao consumo do produto levantam um alerta mundial sobre os riscos dos vaporizadores

No seriado Years and Years, da HBO, retrato amargo e estonteante de um futuro próximo, entre 2025 e 2030, um cartaz na sala de espera de um hospital avisa: “Proibido fumar e proibido vaporizar”. É para onde caminhamos — um mundo de não fumantes (felizmente), fumantes de cigarros tradicionais e adeptos dos cigarros eletrônicos, cada vez mais populares. Oferecidos como produtos saudáveis, os vaporizadores viraram moda entre adolescentes e jovens adultos. São 9 milhões de consumidores americanos — no Brasil ainda não há estatísticas.

Recentemente, contudo, houve nos Estados Unidos uma sequência de más notícias, afeitas a manchar a imagem do produto. Seis pessoas morreram e outras 380 foram diagnosticadas com uma doença pulmonar associada ao uso dos eletrônicos. Os estados de Michigan e Nova York anunciaram a proibição dos dispositivos com sabor — e Donald Trump afirma que pretende vetá-los em todo o país.

No Brasil, a venda é proibida desde 2009, mas sua liberação está sob análise na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ninguém poderá ser preso se for pego em flagrante, e é fácil trazer os dispositivos do exterior ou mesmo comprá-los pela internet, com entrega em domicílio (cerca de 30 reais a unidade). VEJA ouviu especialistas para apontar o que é mito e o que é verdade em torno de um dos fenômenos juvenis de nosso tempo.

Quais as características da doença pulmonar associada aos cigarros eletrônicos? Ela é parecida com a pneumonia, mas tem um aspecto particular: não é causada por bactérias ou vírus. Provoca uma lesão (um tipo de inflamação) nos pulmões. Há estudos adiantados para chegar a um diagnóstico mais claro da doença. Os sintomas incluem fadiga, náusea, dificuldade de respirar, febre, tosse, vômitos, dor de cabeça, tontura e incômodo no peito. As mortes foram causadas por insuficiência pulmonar. No Instagram, a estudante do Estado da Califórnia Simah Herman, de 18 anos, afirmou: “Há duas semanas comecei a ter problemas para respirar. Demorou 48 horas para meus pulmões falharem, o que me levou a ser posta em ventilação mecânica”. No hospital, ela fez uma selfie com um alerta: “Quero começar uma campanha contra a vaporização”.

RELATO DESESPERADO – A estudante americana Simah Herman, de 18 anos, e seu post no Instagram: “Quero começar uma campanha contra a vaporização”

RELATO DESESPERADO – A estudante americana Simah Herman, de 18 anos, e seu post no Instagram: “Quero começar uma campanha contra a vaporização” (Reprodução/Instagram)

Qual componente do vaporizador causa o problema? “Até agora, nenhuma substância ou produto específico foi diretamente associado à doença”, explica Luiz Fernando Pereira, coordenador da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Procura-se o ponto comum entre os doentes e os mortos. O que se sabe é que todos usaram o cigarro eletrônico nos últimos noventa dias. A maioria relatou ter posto THC, o componente psicoativo da maconha, no aparelho. De acordo com a análise da FDA, agência americana que regula alimentos e medicamentos, muitos dos produtos com THC continham quantidades altas de acetato de vitamina E, um óleo usado para engrossar o líquido vaporizado no cigarro eletrônico. O óleo pode ser prejudicial à saúde quando inalado. Nem todos usaram o THC. Há os que relataram o uso de nicotina apenas.

Os cigarros eletrônicos existem há anos. Por que os problemas de saúde despontaram somente agora? Uma das explicações é que muito possivelmente a doença não é nova — ela pode ter surgido há anos, com sintomas sutis, e foi subestimada ou não associada aos vaporizadores. Outra possibilidade é que os casos estejam relacionados a algum composto novo acrescentado aos aparelhos, que “queimam”, sem fogo, evidentemente, as substâncias neles colocadas.

Os vaporizadores podem fazer tão mal quanto os cigarros tradicionais? A fumaça dos eletrônicos pode não ter todas as substâncias tóxicas produzidas na combustão do cigarro comum, como o alcatrão, o composto que causa câncer. Mas os dispositivos eletrônicos mais modernos, como o Juul, são mais viciantes — cada cartucho possui concentração de nicotina de 5%, o triplo da quantidade encontrada em outros cigarros eletrônicos e o equivalente à contida em um maço com vinte cigarros convencionais. O tipo de nicotina utilizado, ainda por cima, é diferente daquele presente nos outros cigarros eletrônicos. Mais concentrados nesse novo dispositivo, os sais de nicotina tornam o trago mais potente, mas com efeitos suaves na garganta. Ou seja, fica mais fácil tragar e chegar ao pico de nicotina que gera a satisfação — a nicotina estimula a produção de dopamina, substância que age na porção do cérebro responsável pelo prazer.

Os usuários dos cigarros eletrônicos devem parar de usar os aparelhos? Os fabricantes culpam os produtos não regulamentados. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, no entanto, recomendou evitar qualquer tipo de contato com os aparelhos até que se descubra a causa do dano pulmonar. A FDA contraindica apenas o consumo de produtos que contêm THC. Sugere também evitar receitas caseiras de essências e produtos clandestinos. E mais: qualquer pessoa que apresente os sintomas associados à doença e tenha usado cigarros eletrônicos nos últimos noventa dias deve procurar um médico.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2019, edição nº 2653