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As vacinas funcionam contra as novas variantes do coronavírus?

Cepas recém-descobertas no Reino Unido e na África do Sul geram preocupação. VEJA ouviu especialistas e esclarece as principais dúvidas sobre o assunto

Por Giulia Vidale Atualizado em 5 jan 2021, 14h04 - Publicado em 5 jan 2021, 12h40

Novas variantes do novo coronavírus identificadas recentemente geraram preocupação de especialistas e governos no mundo todo. Trata-se da B.1.1.7, cepa identificada na Inglaterra, e da 501.V2, variante encontrada na África do Sul. Ambos os países enfrentam um aumento no número de novos casos de Covid-19, atribuído em grande parte às mutações que tornaram o vírus mais transmissível.

A notícia gerou preocupação mundial, o que levou muitos países a proibirem a entrada de pessoas provenientes destes locais. Mas, ao menos a cepa britânica parece já ter se espalhado pelo mundo. Até a última sexta-feira, 1º, pelo menos 33 países já haviam identificado a variante proveniente do Reino Unido. Na segunda-feira, 4, o governo do Estado de São Paulo confirmou dois casos da variante detectada inicialmente no Reino Unido. Uma mulher de 25 anos e um homem de 34 anos são pacientes positivados para a linhagem B.1.1.7 do vírus. De acordo com a nota do governo paulista, nenhum dos dois viajou para o exterior recentemente, mas a mulher teve contato com pessoas que retornaram recentemente ao Reino Unido, e o rapaz, por sua vez, teve contato com essa mulher.

Para conter o avanço da doença, o Reino Unido decretou na segunda-feira, 4, um novo lockdown e busca acelerar a imunização da população por meio da aplicação de duas vacinas: a desenvolvida pela parceria Pfizer-BioNTech e a fruto da parceria Oxford-AstraZeneca. Mas, afinal, o que se sabe sobre estas novas cepas? Elas são, de fato, mais perigosas do que as anteriores? VEJA responde abaixo as principais dúvidas sobre o assunto.

Como essas variantes foram descobertas? O coronavírus está em constante mutação, por isso, pesquisadores do mundo todo realizam o sequenciamento do genoma do vírus presente nas amostras de pessoas infectadas. Essa é a única forma de descobrir a presença de mutações. De acordo com o geneticista Salmo Raskin, diretor do Genetika, Centro de Aconselhamento e Laboratório de Genética, em Curitiba, a Inglaterra é um dos países que mais tem investido nesse tipo de análise como ferramenta de vigilância epidemiológica. “A Inglaterra faz o teste do sequenciamento em 10% de todos os casos de PCR positivo”, diz o especialista. O aumento súbito do número de casos de Covid-19 na região levou a uma investigação epidemiológica mais profunda. Dessa forma, os ingleses conseguiram detectar que o número de casos de Covid-19 causado pela variante B.1.1.7. havia aumentado no país entre setembro (quando foi identificada pela primeira vez) e dezembro, e estava rapidamente substituindo outras versões do vírus. A cepa 501Y.V2 foi identificada na África do Sul de forma semelhante. Durante sequenciamento genético de rotina, autoridades de saúde sul-africanas descobriram que esta nova variante do coronavírus estava se espalhando rapidamente e substituiu amplamente versões anteriores que circulavam no país.

São mais agressivas do que as cepas iniciais? Não. Estudos apontam que essas cepas têm uma capacidade de transmissão maior que as versões anteriores, mas não não existe qualquer comprovação de que elas sejam mais agressivas ou letais. “Todos os estudos feitos até agora não comprovaram que elas são mais agressivas do que as cepas iniciais”, afirma Raskin. Estudos realizados no Reino Unido apontam que a mutação B.1.1.7. tem até 74% mais capacidade de transmissão que versões anteriores. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estudos preliminares sugerem que a variante sul-africana está associada a uma carga viral mais alta, o que indica um potencial para maior transmissibilidade. No entanto, ainda é necessário mais investigação sobre o assunto. Autoridades de saúde afirmam que não há evidências que sugiram que qualquer uma dessas versões cause doenças mais sérias.

Por que essas variantes causam preocupação? As pesquisas apontam que essas variantes possuem mutações que afetam partes importantes do vírus, que aumentam sua capacidade de infectar células e significa que que pode se espalhar mais facilmente. “Isso mostra que o Sars-CoV-2 está começando a tentar se adaptar melhor e ser mais capaz de infectar o ser humano. É esperado que isso aconteça. É uma briga evolutiva entre a genética dele e a nossa. No entanto, era algo que não tínhamos nos preocupado até agora, porque as variantes que tinham ocorrido e estavam sob vigilância não causavam problema maior de infectividade”, explica o geneticista.

A presença dessas novas cepas exigem, realmente, um novo lockdown? Não há medida específica para evitar a transmissão destas linhagens. “A única coisa que pode ser feita para evitar a transmissão desta linhagem é o que nós já sabemos que pode ser feito para evitar a transmissão de qualquer linhagem”, diz o geneticista. Atualmente, as formas de prevenção incluem a adoção de medidas como isolamento social – como lockdown e quarentenas – uso de máscaras, higiene das mãos, ambientes bem ventilados, entre outras. “Fazendo isto, evita-se a transmissão de qualquer linhagem, incluindo essas novas”, diz o geneticista. Vale lembrar que a Inglaterra já havia optado por esse tipo de ação mais restritiva no início da pandemia e agora, decidiu adotá-la novamente. “O lockdown para a Inglaterra já era absolutamente necessário porque eles estão vivendo o pior momento da pandemia. Então eles já teriam que fazer o lockdown mesmo sem essa nova linhagem”, ressalta Raskin.

As vacinas em circulação funcionam contra essas novas variantes? Não há evidências de que as vacinas atuais não sejam efetivas contra essas novas variantes. “Para que a vacina deixe de ser efetiva, precisaria ter um número muito maior de mutações no vírus. Pode ser que no futuro, essas vacinas deixem de ser efetivas. Mas espera-se que isso ocorra em um intervalo de dois a três anos. Quando isso acontecer, talvez seja necessário uma nova geração de vacinas, como acontece anualmente com o vírus da gripe”, finaliza o especialista.

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