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Antifúngico se mostrou eficaz no tratamento da epilepsia

O clotrimazol, usado contra candidíases e micose, conseguiu proteger as células cerebrais de ratos com epilepsia crônica

Um medicamento comumente usado no tratamento de candidíases e micoses em humanos se mostrou promissor contra a epilepsia em ratos. Segundo uma pesquisa brasileira publicada no periódico Epilepsy & Behavior, o antifúngico clotrimazol conseguiu proteger as células nervosas do cérebro (evitando sua morte), após uma crise em cobaias com a doença crônica.

Saiba mais:

Epilepsia

É uma das causas mais comuns de desordens cerebrais graves, que se caracteriza por uma alteração temporária e reversível do funcionamento do cérebro. A doença se expressa por crises repetidas e pode ser causada por uma lesão no cérebro, abuso de bebidas alcoólicas, de drogas e etc. Apesar da crise convulsiva ser o sintoma mais comum, há ainda a crise do tipo “ausência”, onde a pessoa fica com olhar perdido e perde o contato com o meio por alguns segundos. O tratamento é feito com o uso de medicamentos.

O estudo, conduzido pelo neurofisiologista Fulvio Alexandre Scorza, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), usou oito ratos induzidos a terem crises epilépticas duradouras, as que não são interrompidas com medicamentos. Metade dos animais recebeu tratamento contínuo de clotrimazol. Após 60 dias, os ratos que foram tratados com antifúngico tiveram menor perda de células nervosas, quando comparados aos que receberam somente solução fisiológica.

Proteção – Quando uma pessoa tem uma crise epiléptica prolongada, há um aumento na descarga elétrica nas células do cérebro. Nesse momento, reações químicas fazem com que haja uma maior entrada de cálcio nas células. O acúmulo do cálcio acaba por levar o neurônio à morte. Na pesquisa de Scorza, essa morte celular pode ser evitada com o uso do clotrimazol. “A droga bloqueou a entrada do cálcio na célula, situação padrão durante uma crise”, diz.

Para ser inserido no tratamento da epilepsia o remédio precisa ainda terminar os testes em animais e seguir para uma etapa bem mais complexa em humanos. “É necessário que se faça mais estudos, mas a proposta do clotrimazol é muito interessante”, diz Scorza. A ideia é que esses medicamentos consigam amenizar as crises nos 30% de pacientes que não respondem bem ao tratamento com os remédios já disponíveis no mercado. “Nossa preocupação são os pacientes refratários, que ainda não conseguem controlar as crises.”

Especialista responde

Elza Márcia Yacubian

Professor da neurologia e chefe de Epilepsia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

“O experimento com o clotrimazol, um medicamento não preconizado para a epilepsia, ainda está em sua fase inicial. Sua ação nos ratos estimulou a prevenção do dano neuronal induzido pelas crises, o que é um dos nossos objetivos maiores no momento. A medicina vem tentando descobrir drogas que previnam o desenvolvimento dessas crises crônicas. O remédio parece bastante interessante nesse sentido, mas é importante lembrar que nem toda droga com ação positiva em animais será efetiva em humanos.

Caso a droga mostre-se eficaz em etapas posteriores do estudo, ainda teremos um longo caminho a percorrer até que ela possa ser testada em humanos.”