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“A tecnologia não deve substituir a experiência e uma boa conversa”, diz especialista em medicina familiar

Jerry Sayre, médico da Clínica Mayo, ajuda jovens médicos a melhorarem a relação com pacientes. E garante: o caminho começa por desligar os computadores e ouvir o que eles têm a dizer

São muitos os fatores que prejudicam a relação entre médico e paciente. No caso do Brasil, os diversos problemas do Sistema Único de Saúde (SUS) quanto dos planos de saúde privados obrigam os médicos a atender um grande número de pacientes em pouco tempo e com baixos salários. Consultas cada vez mais breves e a falta de comunicação surtem efeitos negativos na saúde do paciente. Então, para que exista uma boa relação, é preciso que o médico tenha tempo e se dedique a escutar o paciente e suas necessidades. É isso o que defende Jerry Sayre, médico do Departamento de Medicina da Família na Clínica Mayo, em Jacksonville, Estados Unidos, em entrevista ao site de VEJA.

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Sayre, que tem 63 anos, nasceu, estudou e trabalhou no estado do Texas, nos Estados Unidos, até o dia em que passou a fazer parte da equipe da Clínica Mayo, uma das instituições médicas mais renomadas do país. Ele divide seu tempo profissional entre atender pacientes, os quais ele considera ‘seus amigos’, realizar pesquisas e dar aulas para jovens médicos residentes. Nelas, ensina a melhorar a qualidade do atendimento médico e a relação médico-paciente. Calmo, atencioso e entusiasmado quando fala sobre o assunto, ele acredita que desligar os computadores e ouvir o paciente já garante grande parte de um atendimento médico de qualidade. “A arte de tomar conta dos pacientes, de ouvi-los e de cuidar de suas necessidades não é algo novo. Isso se chama ser um médico”, disse.

Como é uma relação ideal entre médico e paciente? Na Clínica Mayo, acreditamos que a necessidade do paciente deve vir antes de tudo. E isso não é fachada, é realidade. Ser médico é parte de mim e da minha personalidade, e isso significa ser capaz de ajudar um paciente e de tomar conta de suas necessidades. Eu faço isso pois eu me sinto bem, acredito que é o certo para meus pacientes e para meus companheiros de profissão. É preciso ter essa vocação, do contrário, você se torna um técnico. É isso o que significa ser um médico.

O que os pacientes podem fazer para melhorar essa relação? Os pacientes estão ficando cada vez mais no poder dessa relação. E eu acho que uma das melhores coisas que eles podem fazer é levar uma lista com todas as queixas de saúde e detalhes desses problemas quando forem visitar um médico. São informações como o que estão sentindo, quando o problema piora e qual foi a última vez em que ele ocorreu, por exemplo. A partir dessas queixas, ensinamos os médicos a perguntarem três coisas básicas ao paciente: por que ele veio, por que isso o preocupa e o que ele acredita que esse problema é. Se não esclarecermos todas essas questões com o paciente, não fizemos o nosso trabalho.

O senhor acredita que as novas tecnologias na medicina prejudicaram a relação entre médico e paciente? De certa forma, sim. Um professor que tive na faculdade dizia que seus alunos deviriam aprender a ‘ver com as mãos’. Mas acho que alguns dos jovens médicos substituem a experiência, os exames físicos e uma boa conversa por tecnologia. É mais fácil para um médico, assim que ele ouve as palavras ‘dor de cabeça’ ou ‘dor nas costas’, logo ordenar uma ressonância magnética, por exemplo. Além dos exames, o computador na hora da consulta também pode atrapalhar, impedindo que o médico analise a linguagem corporal de seu paciente. Eu desafio meus residentes a desligarem o computador no consultório e deixar o paciente falar.

Qual é o tipo de trabalho que o senhor desenvolve com os médicos mais jovens da Clínica Mayo? Os meus residentes costumam dizer que eles podem consultar um livro e aprender sobre medicina, mas que comigo aprendem a ‘arte da medicina’ – o que eu considero uma coisa ótima. Eu acredito que eu posso ajudar os médicos a realizarem um trabalho melhor em ajudar seus pacientes, e isso é possível mudando o comportamento dos profissionais. Isso garante grande parte de um tratamento de qualidade, mas nem sempre é fácil de se conseguir.

Que mudanças são essas? Grande parte dessa mudança de comportamento gira em torno da comunicação do médico com outros profissionais da saúde, com os pacientes e com suas famílias. No caso da medicina paliativa, por exemplo, os profissionais lidam com pessoas que estão muito vulneráveis, e um dos trabalhos de um médico é protegê-las dessa vulnerabilidade e fazer com que suas necessidades e seus desejos sejam devidamente ouvidos. Além disso, devemos garantir que os últimos anos de suas vidas sejam confortáveis. Acredito que quando o médico tem uma relação próxima com o paciente, ele deixa de tratá-lo como um cliente e passa a trabalhar duro para o seu bem estar.

Como é possível estimular esse tipo de comportamento entre os novos médicos? É preciso ter em mente que o comportamento e as formas de mudá-lo são diferentes de pessoa para pessoa e de uma geração para a outra. Ou seja, devemos ser flexíveis e compreender as características de cada geração de médicos. Quanto mais os jovens médicos presenciarem esse tipo de relação, olhando para os mais experientes, mais eles vão aceitá-la e considerá-la como a mais adequada. Ensinamos a se comunicarem com os pacientes, a ouvirem suas necessidades, passar um tempo com eles, a, por exemplo, desligar o computador na hora da consulta. Afinal, se os pacientes estão insatisfeitos, eles ‘demitem’ os médicos. E é com esse tipo de relação que evitamos que isso ocorra.