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“A minha vida sexual após o câncer de próstata”

Conheça a história de Elvin Box, britânico de 60 anos que foi diagnosticado com câncer de próstata e operado, em 2016

O câncer de próstata pode alterar a vida sexual do homem, especialmente quando a escolha mais segura para se livrar do tumor é a prostatectomia, procedimento que remove toda a próstata. Essa foi a escolha do britânico Elvin Box, de 60 anos. Entretanto, ele afirma que, apesar das dificuldades impostas pela cirurgia, ele é capaz de aproveitar um relacionamento saudável com a parceira.

Em entrevista ao The Telegraph, ele revelou seus anseios ao ser notificado do câncer e como a compreensão de Jude, sua esposa, foi fundamental para que ele enfrentasse o câncer e suas consequências, que foram inevitáveis.

O diagnóstico

Em 2014, durante um exame de rotina, Elvin Box descobriu que seus níveis de PSA estavam altos, o que pode ser um indicador precoce de câncer de próstata. O PSA (Antígeno Prostático Específico) é uma proteína especifica produzida pelas células da glândula – presente apenas em homens – e cuja taxa, em média, deve ser de quatro nanogramas por mililitro. No entanto, ao levar os exames para o médico, ele os descartou, ignorando o fator de risco.

Dois anos depois, os exames apontaram pressão alta e ele procurou um clínico diferente para verificar os resultados. O médico em questão revisou todo o relatório e não deixou de notar a elevação nos níveis de PSA. Ao contrário do outro profissional, este enfatizou a necessidade de maiores exames e da consulta urgente com um urologista. 

A visita ao especialista foi desconfortável, afinal, envolvia um exame retal. No entanto, o desconforto maior veio quando Elvin foi informado de que precisaria realizar uma ressonância magnética imediatamente. “Durante a maldita varredura, que pareceu 45 minutos presos em uma caverna, eu tive aquela sensação terrível e fria de que a notícia não ia ser boa”, contou ao The Telegraph.

Uma semana após o exame de imagem, ele fez uma biópsia que confirmou seu medo: a notícia, de fato, não era boa. Em junho de 2016, o especialista anunciou para ele e a esposa, Jude, que ele tinha câncer de próstata agressivo. Segundo ele, foi impossível não pensar em um palavrão.

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O medo da impotência

A partir daí, Elvin precisou passar por uma bateria de exames para descobrir se o câncer tinha chegado aos ossos, algo que pode ser comum a quem tem câncer de próstata. Apesar da agressividade do tumor, ele não havia saído da área genital. Ainda assim, a perspectiva não era boa. Diante do tumor, ele tinha duas opções para se livrar da doença: a prostatectomia para remover a próstata ou a radioterapia associada a reposição hormonal.

Foi neste momento que veio a notícia que, de acordo com ele, o incomodou quase tanto quanto o diagnóstico: os nervos ao redor do tumor eram os mesmos que sustentavam e mantinham uma ereção, portanto, a cirurgia afetaria sua vida sexual. O médico explicou as chances de Elvin: suas ereções seriam 60% do que ele havia tido até agora. “Eu gostei delas [chances]. Jude e eu nos juntamos quando tínhamos dezesseis anos e tivemos uma ótima vida sexual. Em uma escala de um a dez, classifico o sexo como onze e fiquei petrificado de nunca mais tê-lo ou apreciá-lo novamente. Esse medo era quase maior do que o meu medo de câncer”, confessou.

O medo era inevitável, mas sua esposa não se deixou abalar. Além disso, o cirurgião o assegurou de que, embora alguns dos nervos que sustentavam a ereção seriam danificados durante uma operação, o médico buscaria preservar o máximo possível. Ao considerar suas opções, Elvin pesou a probabilidade de sobrevivência contra o impacto que a cirurgia teria em sua vida sexual, que estava ligado a quem ele era como pessoa.

Apoio familiar

A decisão foi angustiante. “Mas então minha filha mais velha conversou com minha esposa e disse: ‘Acho que papai deveria escolher a opção mais radical disponível se isso significa que ele ficará livre desse tumor”, comentou. O apoio familiar o encorajou a fazer a escolha mais assertiva.

No Reino Unido, a taxa de sucesso da prostatectomia é de 70%, mas Elvin não conseguia deixar de lado os 30% de chance de morrer dentro de 5 anos. Esse método é o mais realizado no mundo para tratar o câncer de próstata localizado; no entanto, por ser invasivo carrega riscos pós-cirúrgicos, como incontinência urinária (3-5%) e disfunção erétil (20-50% dependendo da idade, cirurgia e condição clínica do paciente). 

Os muitos temores não o desencorajaram e agora, dois anos depois, ele afirma que o câncer ainda é indetectável embora os desafios não tenham deixado de aparecer.

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Recuperação

Elvin ficou apenas alguns dias no hospital após a cirurgia de remoção da próstata, mas o período de recuperação levou oito semanas. “Meus testículos incharam, ficaram do tamanho de cocos. Quando eles voltaram ao normal, voltei para a academia o mais rápido possível, porque eles [médicos] disseram que eu precisava construir meu assoalho pélvico”, contou.

Mas a maior preocupação continuava sendo o sexo. Ainda que ele tomasse uma dose diária (5mg) de Viagra, nas primeiras sete semanas não houve qualquer atividade sexual, o que, para Elvin, era muito frustrante, especialmente porque o desejo estava lá, mas nada acontecia. Outra vez, a compressão e carinho da esposa, mostrou-se fundamental para continuar tentando.

A solução veio. Com a ajuda de dois outros homens que passaram pela operação, ele conseguiu uma bomba de vácuo que ajudava no fluxo sanguíneo. Ele a utilizou nove meses seguintes. Para auxiliar no desempenho sexual, ele continua indo a academia e não bebe porque ‘não combina bem com o Viagra’. Segundo Elvin, ele está fazendo tudo o que pode, mas, às vezes, não é o bastante. Mas desistir não é uma opção.

Confiança no relacionamento

O casamento de 37 anos nunca teve seu limite testado dessa maneira, especialmente no que diz respeito a vida sexual. Mas isso não diminuiu o respeito ou o amor que Jude e Elvin sentem um pelo outro. Para eles, um relacionamento pode sobreviver sem sexo porque tem amor. Amor suficiente para lidar com as adversidades e aceitar as limitações impostas pelos desafios. “Quando você está com alguém que você realmente ama, sexo bom não é apenas sobre mecânica”, afirmou.

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Câncer de próstata

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de próstata é o segundo mais comum entre homens, com mais de 68.000 novos casos diagnosticados no Brasil. Os sintomas podem ser silenciosos, ou seja, a maioria dos pacientes só os notam nas fases mais avançadas, dificultando o diagnóstico precoce.

No entanto, algumas manifestações podem ser notadas no dia a dia, como dificuldade para urinar seguida de dor ou ardor, gotejamento prolongado no final, frequência urinária aumentada durante o dia ou à noite. Em fases mais avançadas da doença, é possível notar a presença de sangue no sêmen e impotência sexual. Outros sintomas podem surgir em decorrência da propagação para outros órgãos, como é o caso da dor óssea.

Pela dificuldade do diagnóstico pela manifestação de sintomas iniciais, especialistas recomendam que homens a partir dos 50 anos – 45 anos para quem tem histórico familiar da doença – façam o exame clínico (toque retal) e verifiquem os níveis de PSA anualmente para rastrear o aparecimento da doença.