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A adolescência hoje dura mais; e isso traz riscos

Educação prolongada adia início da vida adulta, o que aumenta a janela de risco relacionada à juventude. Maior causa de mortes na faixa de 10 a 24 anos são os ferimentos

Nunca houve tantos adolescentes no mundo. As pessoas entre 10 e 24 anos já são 1,8 bilhão em todo o planeta – mais de um quarto da população mundial. Agora, uma pesquisa publicada nesta terça-feira pelo periódico médico The Lancet mostra que essa faixa etária, a despeito da melhoria de acesso aos serviços de saúde, corre riscos antes quase que exclusivos de adultos. Eles estão expostos a riscos como o abuso de álcool e drogas, além de ferimentos fatais causados por acidentes de carro e pela violência. Como os jovens demoram cada vez mais para terminar a educação e se casar, o período em que ficam expostos a esses perigos é cada vez maior.

O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, chama atenção para aspectos preocupantes da saúde dessa geração de adolescentes. Eles crescerão em um mundo alterado pela mídia digital, industrialização, globalização e urbanização, e terão menos influência dos pais e da comunidade, o que pode acarretar menos suporte social para lidar com seus problemas. Seu desenvolvimento poderá seguir um caminho diferente do percorrido pelas gerações anteriores, e eles enfrentarão desafios inéditos no campo da saúde.

Brasil, exemplo negativo – Os pesquisadores mostram que programas para aumentar a saúde de mães, recém-nascidos e crianças tiveram um grande efeito nas últimas décadas, aumentando o número de bebês saudáveis e causando um aumento na população de adolescentes. No entanto, esses programas deixam de existir conforme o paciente atinge a puberdade. O que é muito preocupante, porque o impacto de comportamentos que têm início nessa época pode afetar toda a vida do indivíduo. Os cientistas apontam que o uso de tabaco e álcool, a obesidade e a inatividade física costumam começar nessa fase da vida e podem resultar, no futuro, em câncer, diabetes e doenças do coração e pulmão.

Por causa desses programas governamentais, a mortalidade de crianças com menos de 5 anos caiu 80% nos últimos 50 anos. No entanto, a mesma queda não foi notada entre os adolescentes. Os cientistas citam o Brasil como exemplo extremo dessa tendência. No país, morrem mais adolescentes por conta da violência do que crianças por causa de doenças infecciosas. No mundo todo, a maior causa de mortes nessa faixa etária são os ferimentos, que podem ser causados por acidentes de carro, violência ou até suicídio. Eles são responsáveis por 40% dos óbitos entre pessoas de 10 a 24 anos de idade, enquanto causam 10% no resto da população. A maior causa de anos de vida potencialmente perdidos em adolescentes é o uso de álcool (7%), seguido pelo sexo inseguro (4%). A mortalidade de jovens varia de país para país, mas é geralmente 4 vezes maior em regiões pobres.

Infecções por HIV – O estudo ainda diz que a saúde sexual e reprodutiva foi a única área em que os adolescentes foram foco de atenção. Mesmo assim, todos os anos acontecem mais de um milhão de infecções por HIV nessa população, o que mostra que mesmo essa atenção foi insuficiente. Segundo os pesquisadores, a maior parte dessas mortes e incapacitações é passível de prevenção, e justifica uma ação mundial voltada à saúde nessa faixa etária.

Por fim, eles mostram como as mudanças culturais aumentam o tempo da adolescência e, por consequência, os riscos a que essa população está exposta. Apesar do que diz a lei, a idade de 18 anos – ou mesmo 21 – não significa mais o início da vida adulta. Há menos de 50 anos, pessoas com essa idade estariam se casando e formando famílias, mas hoje essas atividades são adiadas, em troca de período maior gasto com a educação. A conclusão dos pesquisadores foi que essa mudança fez com que a janela de risco associada à adolescência também aumentasse. Por isso mesmo, eles propõem uma agenda internacional voltada à saúde desses jovens, o que apontam como essencial para que programas mais gerais de saúde também funcionem.

Saiba como abordar temas como sexo e drogas com os filhos adolescentes nos vídeos abaixo:

*O conteúdo destes vídeos é um serviço de informação e não pode substituir uma consulta médica. Em caso de problemas de saúde, procure um médico.